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Em memória das vítimas da rede bombista

 Aconteceu há 45 anos. Numa sexta-feira, 21 de Maio de 1976, pelas 3 horas da madrugada, a explosão duma bomba ecoou por vários quilómetros. Foi no lugar de Arnozela, S. Martinho do Campo.

Maria Rosinda Teixeira, de 42 anos, foi barbaramente assassinada. O marido António Teixeira ficou com graves queimaduras. Seu filho Nelson, com grande coragem, ainda conseguiu retirá-lo da casa em chamas e assim foi salvo da morte.

Como escreveu o jornalista Miguel Carvalho no livro “Quando Portugal ardeu, histórias e segredos da violência política no pós-25 de abril”, a morte de Rosinda Teixeira foi mais um cobarde atentado desencadeado por homens que tinham ódio à democracia e à liberdade. Um mês antes, em 2 de Abril de 1976 tinham sido assassinados, perto de Vila Real e também pela explosão duma bomba, o padre Max e Maria de Lurdes Correia. Isto foi no tempo em que o ELP, o MDLP e outras organizações da extrema-direita lançaram no país um rasto de destruição e morte.

Entre Maio de 1975 e Julho de 1976, em pouco mais de um ano, foram desencadeados pela rede bombista da extrema-direita mais de 300 ataques com explosivos, mais de 100 assaltos a casas particulares, sindicatos e partidos políticos de esquerda, mais de 50 incêndios, quase 20 atentados a tiro…

No Porto, a Faculdade de Economia foi atingida por uma bomba. E a tipografia Inova foi alvo dum atentado em 25 de Outubro de 1975. Em 7 de Novembro foi lançado um engenho explosivo na entrada do Rádio Clube Português. Em 7 de Janeiro de 1976 pelas 5 horas da madrugada mais uma bomba na Cooperativa Árvore. E na madrugada de 14 de Janeiro de 1976 foi colocada uma bomba nas instalações do SAAL/Norte na rua de Gonçalo Cristóvão para fazer parar os projetos de apoio à habitação para as classes trabalhadoras. Em 4 de Março outra bomba da extrema-direita destruiu o automóvel do Arqº Alexandre Alves Costa.

A violência continuou: em 9 de Junho mais um engenho explosivo nas instalações da livraria cooperativa António Sérgio, na Póvoa de Varzim. Em 26 de Junho de 1976, pelas 4 horas da madrugada, mais uma bomba, contra as instalações do núcleo local do PPD em Vilar (Vila do Conde), para imputar à esquerda a autoria das destruições…

Quem eram os bombistas do ELP e MDLP? Apoiantes do regime de Salazar, beneficiários da opressão e exploração sobre os povos das colónias, defensores da censura e da repressão da polícia política – PIDE/DGS. Figurões que nunca aceitaram o 25 de Abril de 1974, o fim da guerra colonial, as eleições democráticas através do voto popular, os direitos das mulheres. Alguns ricaços com fortunas obtidas na exploração dos trabalhadores e dos povos das colónias financiaram as centenas de ações terroristas. Mas os autores morais e materiais daqueles atos de violência nunca tiveram o merecido castigo.

Mais de 60% da população que hoje reside em Portugal não viveu aqueles brutais acontecimentos em 1976. E também pouco sabem  dos ataques aos trabalhadores e suas organizações sindicais.

É por isso de saudar vivamente a iniciativa corajosa de jovens do Bloco de Esquerda de Santo Tirso que no passado dia 21 de Maio lembraram o cobarde assassinato de Rosinda Teixeira ocorrido há 45 anos e que com a presença do seu filho Nelson Teixeira, reclamaram um memorial evocativa das vítimas da violência da extrema-direita.

Não se pode deixar cair no esquecimento a violência, o rasto de destruição e morte lançados entre Maio de 1975 e Julho de 1976 pelos defensores do antigo regime.

No tempo de Salazar e Caetano, que a extrema-direita de hoje tanto valoriza, não havia eleições autárquicas. Os presidentes de Câmara e de Junta de Freguesia eram escolhidos pelo governo de então, entre os fiéis do partido único – a União Nacional e depois a ANP. Mas agora, ei-los a apresentar candidaturas às próximas eleições autárquicas…

Honrar a memória das vítimas da violência desencadeada  pelos defensores do fascismo de Salazar e Caetano,  lembrar os ataques ao mundo do trabalho, não esquecer  quem sofreu perseguições e vexames por ser sindicalista ou ser de esquerda,  é hoje uma exigência democrática.

Para que a memória  não se apague.

 

José Castro – jurista – membro da Concelhia do Porto do Bloco de Esquerda

 

Foto: Atentado ao padre Max – pesquisa Web

01jun21                                                                                 

 

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