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Há dias assim

Joaquim Castro

 

 

É verdade. Há dias, em que basta ligar o televisor para começar a ouvir asneirada. Sentei-me no computador e ouvi logo um anúncio televisivo a promover um champô para se ter uns caracóis “defenidos”. Este irritante termo, que troca o “definidos” por “defenidos”, de uma importante marca, e que já foi tratado nesta rubrica, anda por aqui, há meses. Aparentemente, ninguém se apercebe ou não se preocupa em corrigir o erro. Agora (26.05.2021), ouvi o nosso presidente Marcelo a dizer que uma situação relacionada com a Pandemia, “não se pode prolongar “indefenidamente””. Também fiquei um pouco confuso, quando vi um rodapé de uma emissão de televisão, a frase: “Celebrações dos 20 anos da queda da ponte de Entre-os-Rios”, que provocou a morte de dezenas de pessoas. Celebrações? Esta palavra é mais entendida como um acto de celebrar, de enaltecer, de festividade. Mas a celebração também pode referir-se a uma missa, a um ofício religioso.

E CONTINUA

…Depois, fui parar à “Casa Feliz”, um programa, apresentado por João Baião e Diana Chaves. Dois apresentadores simpáticos, mas que caíram na nova moda de deturpar as palavras da nossa Língua. Uma infelicidade para a Língua Portuguesa! São capazes, os dois, mais ela do que ele, de passar um tempo todo do programa, das 10 às 13 horas, a dizer “não é”, no fim de cada frase que pronunciam. Bom, ela é também campeã de pronunciar “tou”, “tá”, tava”, como se não fosse “estou”, “está”, “estava”, a forma correcta de pronunciar estas palavras. Parece que as televisões e as rádios não cuidam de avaliar a capacidade de cada elemento que contrata, para que esta pandemia que tanto mal faz à Língua Portuguesa. Até dá a impressão que alguns contratos são feitos em critérios de beleza. Mas sempre ouvi dizer que, “beleza não se põe na mesa”.

O “RECOR”,”RECOR”, DE FREDERICO

Numa das diversas festas para comemorar a vitória do Sporting Clube de Portugal, na Primeira Liga de Futebol, na época 2020/2021, o presidente da instituição  disse, entre outras coisas, que o Sporting, de “recor”, em “recor”, em recor, iria ser o maior o maior clube de Portugal. Talvez seja verdade, mas não é verdade que se pronuncie “recor”, mas sim “recorde”. Penso que ninguém será capaz de lhe dizer: “ó presidente, não é “recor”, é recorde. Só lhe faria bem. Certamente, há uma confusão com o conhecido  e antigo jornal “Record”, que os agentes de futebol leem, como leem outros títulos do mundo do desporto. Também costumo ouvir, quem diz “controle”, em vez de “controlo”, igualmente, na área do desporto.

CENSURA COMO NO PORTUGAL DE ANTIGAMENTE!

Sou membro de um grupo no Facebook, que se chama “Portugal de Antigamente”. Esse grupo tem coisas muito interessantes, mas está sempre bem recheado de erros ortográficos. Recentemente, fui informado de que ficaria suspenso por 30 dias. E porquê? Eu explico. Uma senhora escreveu que tinha uma “condensa”, de levar merendas, oferecida por uma amiga. Ironizei com a situação, escrevendo: “Condensa? Faxavor”. Pois bem, esse simples e irónico comentário levou os administradores (?) a exercer censura, como no Portugal de Antigamente. 30 dias, não fizeram por menos! Ao fim de 46 anos do 25 de Abril, ainda há gente que não sabe o que é liberdade de expressão. Penso, até, que a sanção que me foi aplicada viola o estipulado na Constituição da República Portuguesa. No fundo, foi uma palermice, praticada por gente sem critério e sem sentido de humor.

ENTÃO, INDICAÇÃO

Como já aqui tem sido referido, existe um quase abuso na utilização da palavra “então”, tanto em rádio como na tv. Esta palavra aparece muitas vezes a iniciar uma frase, sem qualquer contexto ou qualquer razão para ser utilizada, a torto e a direito. No Dicionário Priberam, lê-se o seguinte:

En-tão (latim in, em + latim tunc, naquela ocasião)

Advérbio

  1. Nesse ou naquele tempo ou ocasião.
  2. Em tal caso.

até então
• Desde então ou para então, até, desde ou para esse tempo.

e então
• Usa-se para questionar o que foi dito anteriormente.

pois então
• Nesse caso. (É expletivo em muitos casos em que se emprega como interjeição.).

Quando uma jornalista, que fala de trânsito, começa por um irritante “há, então, indicação de um acidente, em tal lugar…”, não cumpre nenhum dos critérios para usar este advérbio. Este “então” é uma pandemia que assola a Língua Portuguesa, nos meios de comunicação, a par do famigerado “não é”, em alguns programas da SIC, e do “aquilo que”, expressão “lançada” pela ministra da Saúde, mas que também já atacou o nosso Presidente Marcelo e vai por aí abaixo, até saturar.

METER!

O jornalista Frederico Moreno disse, na Antena 1, a propósito das medidas de distanciamento nas praias portuguesas que: “não é só afastar a toalha e meter creme. Tem de levar máscara até ao areal”. Mas essa de “meter creme”, só falta saber onde, pois meter significa introduzir, pôr dentro, inserir e fazer entrar. Portanto, o creme de praia não é para meter, mas sim para colocar sobre a pele. No programa “Casa Feliz”, da SIC, falou-se em piolhos. No rodapé, apareceu a legenda: “Meteu veneno para formigas na cabeça das crianças para combater piolhos”! será que meteu o veneno pelos ouvidos? Claro que não. Nestes dois casos, a comunicação é defeituosa, mas muito usada também no dia a dia entre as pessoas, que trocam o pôr ou colocar por meter. Acontece muito entre crianças, sendo que estes erros de comunicação, não ajudam a corrigir estas situações.

“MICROONDAS”?

 Num programa do “Preço Certo”, realizado em Maio de 2021, na RTP1, que vai para o ar, de segunda a sábado, um dos prémios, de escolha múltipla, estava sinalizado como “microondas”. Infelizmente, esta palavra constitui um erro ortográfico. Mais grave ainda, por acontecer num canal público de televisão. Este “despiste” pode ter causado graves consequência em muitos telespectadores, que podem ter ficado convencidos de que seria assim a forma certa de escrever, nomeadamente as crianças e os jovens. Então, como se escreve? Ora, segundo o Acordo Ortográfico de 1990 (também conhecido por novo acordo ortográfico), a forma correcta de escrita é “micro-ondas”. Isto, porque, neste caso, usa-se o hífen, pois o que vem antes da palavra, micro, termina na mesma vogal com que se inicia a palavra seguinte, ondas. Por isso, esta palavra tem de ser grafada com hífen, como muitas outras, tal como, por exemplo: anti-intelectual, contra-almirante, semi-interno, auto-observação, anti-ibérico, arqui-inimigo. Observe-se que a regra não se aplica nos prefixos “co” e “re”. Exemplos: coordenar, coocupante, coobrigação, reeducar, reeleição e reescrito. (consultei Ciberdúvidas da Língua Portuguesa).

MEDIDAS E MEDIDAS

 Um jornalista da Antena 1, utilizou a expressão “à medida que as medidas vão avançando…”. Ele falava sobre a Covid-19. Não é assim muito bonita, esta forma de discurso. Não será grande erro, mas em jornalistas, muito conceituados e muito experientes, este palavreado não é muito feliz. No passado dia 5 de Maio de 2021, comemorou-se o Dia da Língua Portuguesa. O nosso presidente e o nosso primeiro-ministro intervieram nos actos comemorativos, elogiando o evento. Contudo, não me parece que as duas personalidades sejam bem-falantes de português, como se poderá ver em artigos aqui publicados em artigos anteriores. O presidente Marcelo até diz que a nossa Língua evoluiu, mas eu considero que o nosso idioma involuiu. Cada vez mais, a Língua Portuguesa continua em constante degradação. Muitos académicos não fazem a diferença, pela positiva. Fiquei desolado, quando ouvi, enquanto terminava esta peça, na SIC Notícias, uma jornalista dizer que: “foram encontradas granadas de morteiro, de 80 “melímetros”. Então, não é “milímetros”?

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Fotos: pesquisa Web

 

01jun21

 

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