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Pais e encarregados de educação manifestam-se contra encerramento da creche e pré-escolar do Centro Social Paroquial de Cedofeita… decisão que tem alguns “enredos” por explicar!

 Os pais e encarregados de educação das crianças que frequentam a Creche e o pré-escolar do Centro Social Paroquial de Cedofeita, no Porto, manifestaram-se, na tarde do passado dia 11 de maio, frente à igreja de Cedofeita, contra o anunciado encerramento do secular estabelecimento, isto depois de terem recebido, a 04 de maio último, através de correio eletrónico, um comunicado dos proprietários, a darem conta de tal decisão, a qual deverá ser levada a cabo já no próximo dia 31 de julho, e que colocará também na rua cerca de meia centena de funcionárias.

 

José Gonçalves

(texto e fotos)

 

No meio de muita contestação, os pais e encarregados de educação além de terem ficado indignados com o facto do Centro Social Paroquial de Cedofeita, uma Instituição Particular de Solidariedade Social – IPSS, não ter feito qualquer reunião para lhes dar a conhecer a real situação da instituição, limitando-se ao envio de um “lacónico” email a anunciar o encerramento, demonstraram também admiração e revolta por não terem tido conhecimento de uma “dívida astronómica” da instituição, de cerca 540 mil euros.

O edifício secular onde está instalada a Creche de Cedofeita – Foto: Malacó (JN)

Entre os manifestantes houve quem levantasse a hipótese de o imóvel – devido à sua excelente localização – poder ser, no futuro, utilizado para outros fins, como na vertente turística, e, designadamente, num espaço destinado a um hostel. Dentro de diversos cenários, a realidade e a pergunta que se coloca é só uma: se tudo se concretizar para onde vão as cerca de 49 crianças da creche, as 60 do pré-escolar e as 49 funcionárias?

CENTRO JUSTIFICA ENCERRAMENTO DA CRECHE POR “FATORES ESTRUTURAIS E DE MERCADO”

Parte do e-mail enviado pelos responsáveis da Creche aos pais e encarregados de educação

No comunicado do Centro Social Paroquial de Cedofeita, assinado pelo padre Fernando Manuel Ferreira da Silva (presidente da Direção) e por Paulo Sérgio da Silva Brandão Rafael (diretor executivo), lê-se que o “cumprimento dos encargos patronais tem sido possível graças a doações e empréstimos da Fábrica da Igreja de São Martinho de Cedofeita, que, movida por um espírito autêntico de caridade, acabou por esgotar os seus recursos financeiros em prol da missão da Instituição”, pelo que, “e apesar de todo o investimento, dedicação e esforço humano e financeiro, sempre em vista à qualidade e à sustentabilidade dos serviços de Creche e de Pré-escolar, o Centro Social Paroquial de Cedofeita tem-se deparado com fatores estruturais e de mercado que não só não têm possibilitado a necessária autonomia financeira das respostas sociais, como estão a colocar em causa a viabilidade de toda a Instituição”.

Assim sendo, e ainda de acordo com o referido comunicado, “após largo período de reflexão, análise, oração e discernimento é com enorme pesar que comunicamos que o Centro social Paroquial de Cedofeita terá de encerrar as respostas Socioeducativas de Creche e do Pré-escolar a 31 de julho de 2021”.

A REVOLTA DE QUEM “NÃO FOI TIDO NEM ACHADO”

A indignação de cerca de meia centena de pais, encarregados de educação, amigos e familiares das cerca de 100 crianças, que, ao todo, frequentam a centenária Creche de Cedofeita (inaugurada a 24 de novembro de 1891) quanto ao encerramento da instituição, era evidente na tarde do passado dia 11 de maio.

O facto de não terem sido “nem tidos nem achados” em todo o processo que levou o Centro Social Paroquial de Cedofeita a tomar a decisão que tomou, foi fundamental para a visível revolta dos lesados; lesados que fizeram questão de dar a conhecer ao Bispo do Porto, D. Manuel Linda, a situação, esperando dele uma resposta sobre a mesma.

Ao de cima vieram também, e quase sempre, os 540 mil euros de dívidas da instituição – “ninguém imaginava tal coisa”, desabafou uma mãe – e ainda um outro problema, ou seja o facto de na zona de Cedofeita e arredores serem poucas ou, praticamente, inexistentes as creches, sobrando aí, críticas para António Fonseca, presidente da União das Freguesias do centro Histórico, da qual Cedofeita faz parte, e que segundo alguns dos presentes também não soube acautelar espaços do género na área.

SE FOSSEMOS NÓS A DAR MIL EUROS POR MÊS, COMO DÃO OS UTENTES DO LAR, ELES NÃO FECHAVAM A CRECHE…COMO NÃO VÃO FECHAR O LAR!

E os mais diversos comentários não se fizeram esperar na jornada de luta dos pais e encarregados de educação das crianças da Creche de Cedofeita, que ainda se vão constituir em associação.

“Se fossemos nós a dar mil euros por mês como dão os utentes do Lar, eles não fechavam a Creche. O Lar é na Rua do Breiner e Miguel Bombarda, tem duas frentes, e vai continuar aberto”, disse uma mãe, pra outra acrescentar que “estamos de mãos e pés atados. Com esta decisão vai aumentar a taxa de desemprego, pois as empregadas, dizem que 49, vão ficar sem trabalho, assim como alguns pais que terão de prescindir de trabalhar para tomar conta dos filhos”.

Já outra mãe foi mais longe no seu raciocínio… “estas instituições precisam de ser investigadas, porque os valores que nos apresentam são muito grandes: 54º mil euros de dívidas! Fiquei indignada como mãe ao nos apresentarem uma dívida daquele valo. Verdade, ou não, alguma coisa se passa. Eles recebem sempre apoios da Segurança Social por cada criança”.

SOCIALISTAS REVOLTADOS COM A SITUAÇÃO E COM A (“ASTRONÓMICA”) DÍVIDA…

 No local da manifestação e para recolher mais pormenores sobre a situação, encontrava-se Fernando Oliveira, líder do PS na Assembleia da União de Freguesias do Centro Histórico.

De acordo com erle a “autarquia não sei o que fará, arriscaria a dizer mesmo que nada fará. O senhor presidente da Junta, António Fonseca, ele próprio, encerrou as valências que eram da Junta, por isso não estou a vê-lo a dar solução para esta. A questão passa por falar com o Centro Social Paroquial de Cedofeita, através do pároco; pela Câmara e e pela Segurança Social, isto para se tentar perceber o que é que, na realidade, aqui está em causa para, de alguma forma, ser encontrada uma solução”.

Mais revoltado encontrava-se Ricardo Meireles, secretário coordenador do PS de Cedofeita. “É preciso saber se houve ou não cortes por parte da Segurança Social e de onde é que surgiu esta dívida de 540 mil euros, é uma dívida astronómica, e gostaríamos de saber como ele surgiu e porque é que, supostamente, foi escondida dos pais durante todo este tempo”.

ILDA FIGUEIREDO: “O MEU RECEIO É QUE ESTE SEJA UM DE MUITOS OUTROS PROBLEMAS QUE PODEM VIR A ACONTECER NA CIDADE NESTAS ÁREAS SOCIAIS

 

Presente esteve também, e de forma solidária para com a posição dos pais e encarregados de educação, a vereadora da CDU na Câmara Municipal do Porto, Ilda Figueiredo.

 “Estas mães, estes pais, estas crianças não podem ser atiradas para a rua. Portanto, algo tem de ser feito e, portanto, o Governo tem especiais responsabilidades para garantir que elas tenham condições para manter os filhos nas creches e nos infantários. São cerca de cem crianças, mas também os trabalhadores não podem ir para o desemprego e são, segundo dizem, cerca de cinquenta”, começou por referir a vereadora comunista

Ilda Figueiredo realçou uma “segunda questão” relacionada com a situação e a qual “diz respeito à Segurança Social, que tem comparticipado neste processo da creche e do infantário e que terá também uma palavra a dizer. Se não atuou; se havia algo problemático, e só agora o fez, como é que isso acontece e por quê?

E fica a promessa, como “terceira nota” é que “a CDU vai procurar averiguar tudo isto nos meios que temos, desde a Assembleia da República até, eu própria, na Câmara Municipal… e que a autarquia tome posição na defesa das crianças, dos pais e dos trabalhadores da instituição. O meu receio é que este seja um de muitos outros problemas, que podem vir a acontecer na cidade nestas áreas sociais.

 NÚMEROS  A TER EM CONTA

 

Creche…. interior (foto: pesquisa Web)

Sala do pré-escolar (foto: pesquisa Web)

De salientar, finalmente, que a Creche tem capacidade para 42 crianças, distribuídas pela Sala dos Bebés (10 crianças), Sala de 01 ano (15) e Sala dos 02 anos (17), já o Pré-Escolar, que se divide também por três sales, tem capacidade para albergar 66 crianças, distribuídas pela Sala dos 03, dos 04 e dos 05 anos, cada uma delas elas com um limite máximo de ocupação de 22 petizes.

CDU APRESENTA “PROPOSTA DE RECOMENDAÇÃO” EM REUNIÃO PÚBLICA DO EXECUTIVO CAMARÁRIO

Entretanto, a CDU, por intermédio da vereadora Ilda Figueiredo, apresentou na reunião pública do executivo camarário de 13 de maio último, uma Proposta de Recomendação, relativamente ao encerramento de valências de creche e pré-escolar no Centro Social Paroquial de Cedofeita e também da creche Criança e Vida

A coligação PCP-PEV considerando que “notícias recentes dão conta que o Centro Social Paroquial de Cedofeita, na cidade do Porto, vai encerrar as valências de creche e pré-escolar, deixando sem resposta mais de 100 crianças e as suas famílias.

Idêntica situação está anunciada para a creche Criança e Vida envolvendo mais de 30 crianças na rua Miguel Bombarda.

As creches devem ter como função conjugar as necessidades essenciais das crianças garantindo segurança aos pais, mas assumindo igualmente uma função pedagógica, que vise o crescimento e desenvolvimento integral da criança, em complementaridade com o papel das famílias. O desaparecimento desta resposta é uma negação dos direitos destas crianças.

Os autarcas da cidade do Porto não podem ficar indiferentes a esta situação e devem exigir do Governo que tome as medidas necessárias para garantir a continuidade das valências cujo encerramento foi anunciado pelas instituições”, lê-se em comunicado que a vereação fez chegar às redações.

Assim, a CDU propôs, então, na referida reunião que “a Câmara Municipal do Porto solicite ao Governo que, por intermedio do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social preste os seguintes esclarecimentos:

Que informações tem o Governo sobre o encerramento das valências de creche e pré-escolar do Centro Paroquial de Cedofeita e da creche Criança e Vida?

De que forma esteve a Segurança Social envolvida nestes encerramentos, considerando que o Centro Social Paroquial de Cedofeita afirma que a decisão foi tomada “em diálogo” com a Segurança Social?

Tem a Segurança Social em falta a transferência de alguma verba para estas instituições?

Que acordo de cooperação está celebrado com estas instituições, nomeadamente o número de vagas abrangidas nas valências de creche e pré-escolar e os valores associados?

Que medidas vai o Governo tomar para garantir a necessária resposta de creche e pré-escolar a todas estas crianças, cuja frequência futura destas valências está em risco?”. Fica a recomendação, faltando saber quais as respetivas respostas.

 

01jun21

 

 

 

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