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A “Bolha Sanitária” espontânea que salvou o Porto

Maria Manuela Aguiar

 

ESTADO DE CALAMIDADE NA DEMOCRACIA

 

Este extraordinário país que é o nosso, não pára de nos surpreender, em tempos de pandemia – ora somos os melhores, ora os piores da Europa (ou do mundo), sem perceber exatamente como nos desviamos, num instante, do caminho virtuoso  ou, como, depois de bater no fundo, conseguimos recuperar tão depressa. Uma espécie de “montanha russa” que sobe e desce vertiginosamente,  sob impulso de forças misteriosas… Longos meses vivemos em “estado de emergência”, demasiadas vezes renovado, transitando, sem respirar os ventos das liberdades constitucionais, para o chamado “estado de calamidade”, que em bom português parece coisa pior, mas juridicamente não é. A  fundamentação para, deste modo, “suspender” a democracia plena era “salvar vidas” e impedir o colapso dos serviços de saúde. Diziam-nos, até há pouco, autoridades políticas, sanitárias, científicas (e outras que a Covid 19 revelou), que nenhuma dessas fatalidades era doravante provável. Porém, com a emergência de novas variantes e um razoável, ainda que insuficiente, ritmo de vacinação, já alguns políticos ou especialistas começam a vacilar..

O risco ressurge, a espaços, no vaivém de confinamentos radicais e desconfinamentos levianos, e, com ele as restrições, muitas delas sem qualquer lógica ou rigor, o que tem um tremendo significado, em termos jurídico-constitucionais e democráticos. A fronteira entre o uso e o abuso do poder de cercear liberdades, direitos e garantias dos cidadãos é delimitada pela racionalidade das medidas, pela procura de uma rigorosa proporção, que assegure a igualdade de tratamento das pessoas e das situações. Apesar de um sem-número de exemplos de desnorte e arbitrariedade, em especial da parte da DGS e da ministra da Saúde, os portugueses tudo foram suportando, com infinita paciência. O principal partido da oposição, por seu lado, escusou-se a denunciar erros e omissões, ou a apontar alternativas, e a elite dos nossos constitucionalistas assistiu, impávida e muda, à “radicalização” da DGS, sem nela vislumbrar ameaça à qualidade da democracia.

Talvez por melhor conhecer a matéria, e melhor distinguir o essencial  e o supérfluo no combate à crise Covid, foi um médico, académico e especialista de saúde pública, Adalberto Campos Fernandes, antigo ministro da Saúde de António Costa, e não um homem de Leis, o que primeiro ouvi a alertar para o desgoverno, a ultrapassar a tal fronteira de razoabilidade, e, por isso, a colocar em questão o “Estado de Direito”. Na verdade, exige este a justificação dos normativos e ditames, em bases científica, racional, pragmática, que as autoridades se têm mostrado incapazes de aduzir. No ponto a que chegámos, é crucial, como disse o ilustre ex-ministro, simplificar medidas, que as pessoas compreendam, e sair de uma espiral de contradições – lembremos as contantes e absurdas alterações dos horários de lojas, restaurantes, espetáculos, discriminação de uns setores face a outros, e até de cidadãos nacionais perante estrangeiros.

Vimo-nos emparedados, vigiados, com acesso vedado a igrejas, funerais, cemitérios, areias da praia e vistas de mar (mesmo em dias invernosos), passeios de carro, cafés, recintos desportivos… Na memória das curiosidades do ano louco de 2021 fica o caso de uma senhora multada pela polícia por comer uma sanduíche dentro do seu próprio carro, a proibição de beber água no espaço público, de enfeitar janelas ou montras de lojas e restaurantes, com flores de papel, e de vender vasos de manjerico na véspera do S João (aconteceu em 2020, este ano parece-me que a proibição da festa-convívio, já não se estende a inertes objetos decorativos…). Por sorte para  os responsáveis por este “policiamento de costumes, símbolos e imagens”, o ridículo não mata!

 A REVOLUÇÃO MENTAL DE MAIO DE 2021

A gota de água que despertou no povo a consciência da discriminação inconstitucional e aberrante foi a realização da final da “Champions” no Dragão, com uma assistência de mais de 16.000 ingleses na precisa altura em que 500 portugueses eram proibidos de entrar no Estádio do Jamor, para uma final de râguebi, depois de idêntica interdição ter atingido a disputa da Taça de Portugal de futebol, em Coimbra. Os prenúncios de viragem, contudo, já vinham de trás. Podem datar-se, com precisão, na noite verde e branca, que tumultuou as ruas da capital, em pleno gozo da liberdade de estar ludicamente, à vontade como dantes, no espaço público. Na esfuziante festa do SCP foi muitíssimo mais compacta a multidão de adeptos portugueses, do que a dos britânicos no Porto… mais numerosos, também, os desacatos, e mais violenta a repressão policial –  brigas de bêbados, é sabido, são rituais lisboetas de celebração de campeonatos, ao contrário da tradição portuense de festejar vitórias em ambiente de São João convivial, que dispensa a vigilância das forças da ordem.

Com este gigantesco ensaio de “desconfinamento total” se inaugurou, sem sombra de dúvida, a já chamada 4.ª vaga pandémica. Os responsáveis pelo surto aí desencadeado foram, em primeira linha, o presidente da Câmara de Lisboa, a incontornável DGS e a ministra que é suposto tutelá-la (difícil é, de facto, saber quem tutela quem…). Porém, os três têm conseguido, com a cumplicidade dos “media” da capital, (sobretudo das televisões), rodear de cúmplice silêncio a sua ação ou omissão no evento de consequências catastróficas, deixando no terreno a arcar com culpas, pelo menos neste caso alheias, o badalado ministro Cabrita e a polícia. Do acontecido nessa noite só poderão ser inocentados os adeptos sportinguistas, acima de 100.000, que andaram irmanados em cânticos e abraços, pelas ruas, até às 4.00 da madrugada, porque a isso foram encorajados pela agenda autorizada de festejos, que  incluiu ecrã gigante para fãs às portas de Alvalade e passeio do autocarro dos campeões por avenidas pejadas de “manifestantes” (na sua esmagadora maioria muito pacíficos) até às 4.00 da madrugada.

O escândalo de Lisboa foi desvalorizado, de mediato, na narrativa oficial e  assumiu contornos de coisa menor, caseira, olhada benevolentemente… sem por isso deixar de ser a origem de um  “super contágio” (para usar a expressão do sportinguista Paulo Portas), potenciado, nos dias e semanas seguintes por uma juventude à solta, na noite dos bairros  populares, já sem qualquer ligação à adrenalina do futebol. A desgraça logo se abateu  sobre o turismo, começando com  o governo britânico a banir-nos da sua “lista verde”. O Algarve e os emigrantes portugueses do Reino Unido foram os primeiros a pagar, assim, o preço dos folguedos consentidos pela DGS  e pela edilidade de Lisboa, contra o avisado parecer da polícia.

Vem agora, a Srª Merkl chamar a si o julgamento de mais um retrocesso português, atribuindo culpas à UEFA e aos ingleses, como se a final da Champions o tivesse desencadeado.  Engana-se  a ilustre senhora- ou foi enganada pelas manchetes que, cá dentro, fizeram opinião! Deveria, antes de discursar, ter estudado a cronologia e o mapa geográfico da pandemia nacional. “Facto”: o agravamento deu-se logo na segunda metade de maio, não em junho, e com  epicentro em Lisboa, a 300 quilómetros do local de ajuntamento de adeptos ingleses. No Porto, onde realmente estiveram, não deixaram rasto da variante nepalesa!…

Aqui, a norte, os números não subiram após o 29 de maio, e, decorrido um mês, continuamos a ser a zona que, no continente,  melhor resiste à mutação Delta, largamente predominante a sul. É de lá, onde não houve “Champions”, que vai, fatalmente, estender-se ao país inteiro!  Alguém deveria informar dos factos a chanceler alemã, iludida pela “portofobia” que grassa a sul, e, quiçá, levada pela sua própria anglofobia. Assim se somam fobias, preconceitos e demagogia política, que não é exclusiva dos nossos Costas e dos nossos Rios…

Concedo que o Porto foi colocado em risco pelo governo, com o absoluto falhanço  da “bolha sanitária”,  com tanta ligeireza, prometida à cidade.  Mas o milagre aconteceu e a cidade não foi contaminada. Não se tratou de milagre divino. O Porto foi salvo pelos portuenses, pela  “bolha cívica” que souberam manter, (sem precisar de conselhos das doutoras Merkl, Freitas e Temido) isolando os ingleses na Ribeira, na Avenida dos Aliados, na inteira urbe – não se misturando com eles, não participando em bebedeiras e desacatos. Em vão, o  “Expresso”, jornal sulista e elitista e, de vez em quando, sensacionalista, fizera nas vésperas do jogo, notícia com foto grande  e manchete de 1.ª página, profetizando “confrontos entre “adeptos ingleses e do FC Porto”. No interior, dedicara, quase integralmente, a sua página 5 a uma crónica, cujo título sintetiza bem o conteúdo:  “Alerta para confrontos entre “casuais” do FCP e hooligans antissemitas”.

Na edição seguinte, o prestigiado semanário esqueceu-se de referir o admirável comportamento dos portistas e dos portuenses, tal como o dos espectadores britânicos, que emolduraram o retângulo de jogo na grandiosa final. Fora do estádio, a história foi diferente, semelhante à da Albufeira e outros destinos turísticos  algarvios – ou seja, muita cerveja consumida na via pública, nada de máscaras, pequenas escaramuças de fãs embriagados. Quanto a  antissemitismo, manifestações de extrema-direita, rivalidades clubísticas luso-britânicas e outras pragas profetizadas, nada, nada mesmo!… Só ingleses, na sua maioria tranquilos e encantados com a bela cidade e o fantástico feito desportivo. Em suma: chegaram  juntos, e juntos partiram, levando consigo o vírus nepalês. Escreveu-se direito por linhas tortas e a maior vitória foi a do Porto, graças ao civismo da sua gente!

PROIBIR, SEM MAIS, OU PERMITIR, COM REGRAS, EIS A QUESTÃO

O que mais chocou os portugueses, e desacreditou irremediavelmente, a autoridade irracional e despótica a que temos estado sujeitos, foi o a discriminação dos portugueses, tratados abaixo de estrangeiros no seu próprio país. Um despertar de consciências, um sobressalto cívico, provocado pela dualidade de critérios, que se sentira, ao longo do ano e de toda a época competitiva, discriminando o desporto ao ar livre, e, em especial, o futebol (profissional, amador, e até o de formação!) em comparação com eventos culturais programados em espaços fechados.

A desobediência em massa às regras draconianas postas em vigor, perante a passividade da polícia, tanto em Lisboa como no Porto, estimulou resistências, fomentou a desobediência – tanto ao que é regulamentação excessiva, como ao que é legítimo exigir (uso de máscara e distanciamento físico qb) – neste último aspeto, infelizmente…

E, assim, a lição que fica deste mês de maio 2021, em Portugal, não vem da “guerra fria” de alemães contra ingleses, ou da “guerra sul-norte”, com o futebol em fundo, mas do falhanço do “proibir, proibir, proibir”, em vez de esclarecer as pessoas, e organizar competentemente a abertura de zonas convívio e lazer (como vai fazendo  Rui Moreira…). A Champions foi a prova provada desta verdade elementar! É interessante que os melhores exemplos tenham vindo do futebol, (o setor mais diabolizado pela DGS): dentro dos estádios, sempre que a título excecional, foi permitida a presença do público, tudo se passou, invariavelmente, na perfeição! O que correu mal, em Lisboa e no Porto, com portugueses ou com ingleses, ocorreu fora, desafiando, impunemente,  proibições.

 

 

Fotos: pesquisa Web

 

01jul21

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