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As Fontes e Chafarizes do Bonfim (5) – Cemitério do Prado do Repouso

Maximina Girão Ribeiro

 

Desta vez, a nossa visita será ao Cemitério do Prado do Repouso, o primeiro cemitério público da cidade.

Nos finais do século XVI, o Bispo Dom Frei Marcos de Lisboa manifestou vontade de criar uma “brévia”, na Quinta do Prado que, nesse tempo, pertencia ao Couto de Campanhã. Apesar da oposição de alguns prelados, a vontade do Bispo foi concretizada com a ocupação do terreno e a respetiva adaptação para acolher clérigos idosos, doentes ou os que necessitassem de uma pausa no seu trabalho para poderem descansar.

O espaço sofreu múltiplas alterações, ao longo do tempo.

Durante as Lutas Liberais, com o cerco do Porto, o local foi abandonado e os edifícios incendiados. Com esta fase da Guerra Civil (1832-1833) surgiu a preocupação de enterrar os muitos mortos, provenientes desta contenda, bem como de situações de insalubridade que se viviam na cidade mas, principalmente, devido à disseminação de epidemias, como foi o caso da cólera. Novas orientações sanitárias foram adoptadas, no sentido de retirar os sepultamentos nas Igrejas, como medida higiénica para a saúde pública. Logo em 1833, o Imperador D. Pedro, Regente do Reino, em nome de sua filha, menor, D. Maria da Glória, futura D. Maria II, determina a necessidade urgente de criação de um Cemitério Público, na cidade do Porto. Assim, a partir de 1835, os enterramentos passaram a ser regulamentados pelo Estado, proibindo-se os sepultamentos dentro de igrejas, ou em cemitérios particulares.

Foram os terrenos da Quinta do Prado do Bispo os escolhidos para criar um cemitério, não só pela sua localização que, na época, estava longe da zona mais urbanizada, mas também pelo facto do terreno estar já murado e ajardinado.

O Bispo do Porto, Dom Frei Manuel de Santa Inês, de forma muito relutante, veio a aceitar a ordem da rainha D. Maria II no sentido de que a quinta fosse ocupada pelo cemitério, que foi inaugurado a 1 de Dezembro de 1839.

Vamos conhecer a fonte exterior do cemitério.

Quando nos aproximamos da entrada do cemitério, pelo chamado portão de cima, deparamos com uma graciosa fonte, situada no exterior do muro, na parte esquerda de quem entra. Felizmente, na actualidade, esta fonte está bem à vista de todos, o que não acontecia anteriormente, quando existiam as inestéticas barracas de venda de flores e velas, que a obstruíam por completo. Trata-se de um exemplar que poderá ser da época em que se inaugurou o cemitério, sendo os azulejos de época posterior. É uma fonte curiosa e original por ser composta por duas partes bem distintas – o espaldar em azulejos tem, na parte superior, uma peça ovalada que extravasa a parte de cima dos azulejos e, independente desta peça e totalmente assente nos azulejos, existe uma elegante taça, onde cairia a água vinda da peça de cima.

A parte superior é constituída por um medalhão ovalado que apresenta uma certa profundidade, onde se encaixa uma espécie de terrina, com tampa e asas, de pé alto de onde sai uma bica de onde jorraria a água – é como se fosse um sacrário que guarda um bem de inestimável valor: a água!

Encimando este medalhão, destaca-se um gracioso laço que o adorna e o prende a uma peça que é um pormenor decorativo, ou seja, uma delicada platibanda, em forma triangular, levemente arqueada para os lados.

A peça que se encontra na parte inferior da fonte, em vez de ser um tanque é uma taça de pedra, que, em tempos, acolhia a água que, presentemente não existe. O conjunto sugere-nos a forma triangular, terminando a parte inferior, numa espécie de gota, ligeiramente alongada.

Ao passarmos o portão de entrada, na parte interior do cemitério, deparamos com dois monumentais tanques, iguais, adossados ao muro, de um e do outro lado do portão. São tanques semi-circulares, de grandes dimensões, talhados em granito e assentes num conjunto de dois degraus que seguem a mesma forma semi-circular dos tanques.

Estas duas fontes, quando tinham água, reflectiam um espelho e o barulho deste líquido a cair nos tanques, parecia amenizar um pouco o ambiente taciturno do cemitério, eivado de uma carga emotiva muito forte. A presença destes dois tanques, ficaram a dever-se à acção de Dom Frei Marcos de Lisboa (Bispo do Porto entre1582 a 1591), que promoveu a transferência dos tanques para o local actual. É de salientar que os dois tanques são os elementos mais antigos deste local, a par da capela do cemitério do Prado do Repouso, que é parte da incompleta igreja de São Victor e que foi incorporada em terrenos destinados ao cemitério.

No presente, a fonte exterior e estes dois tanques, não têm água. É sobretudo lamentável o estado dos tanques, pois o seu aspecto parece-nos deprimente.

É pena que se dê tão pouco valor ao nosso património!…

 

Nota: Sobre as Fontes e Chafarizes do Porto poderão consultar a obra “As Nossas Memórias – as Fontes do Porto“ (Volumes I e II), trabalho de que sou co-autora com Arminda Santos, Rui Clare e Luís Pacheco, uma colectânea onde encontrarão outras abordagens diferentes, sobre estes equipamentos públicos.

 

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

 

Fotos: pesquisa Web

 

01jul21

 

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