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Figuras tristes

António Pedro Dores

 

A sociedade em que vivemos pode bem caracterizar-se pelas figuras tristes dos grandes devedores a prestar contas ao parlamento. Nem os devedores sabem o que fazer, nem o parlamento.

Imaginem uma reunião de administração dirigida por aquela gente de bem – “Não estava lá; não sei; não me lembro!” Perante tanta capacidade de criação de riqueza, claro, a banca entendeu por bem financiar as iniciativas desta gente.

Para a esquerda e para a direita ou são criminosos impunes ou testas de ferro incompetentes, apanhados de calças na mão. A tristeza é a casa da democracia se autodeclarar impotente perante os factos que não poderia deixar de conhecer. Também a democracia tenta escapar às responsabilidades próprias.

Tristeza pelos pequenos partidos não terem usado o palco de que os grandes partidos desertaram para fazer oposição aos que melhor sabem como as coisas funcionam, discretamente – essa é uma qualidade inegável dos “grandes devedores” e dos “grandes políticos”. Preferiram usar o poder de humilhar aqueles cujos nomes foram protegidos pela banca, pelo Banco de Portugal e pelos governos. Mas em nome de quê? Porque é que, e como, é possível os contratos governamentais “obrigarem” a pagar os desmandos privados dos banqueiros a expensas do público? Não fazem ideia de como nos livramos disso? Os tribunais nacionais e internacionais também estão contra nós? Quem nos protege da obrigação que nos é imposta, sem nenhum contrato que tenhamos assinado, de pagar por investimentos “privados” de que apenas conhecemos os montantes?

O estado sob cujo jugo vivemos pode bem caracterizar-se pelas figuras tristes dos sucessivos presidentes da Câmara de Lisboa que organizaram a delação de activistas junto das entidades por eles visadas, incluindo estados terceiros, em nome da liberdade. E depois dizem – sem se rirem – que a liberdade de manifestação está protegida em Portugal …

Há a tristeza de ver representantes políticos de topo – o actual presidente da Câmara e o seu antecessor, actualmente primeiro-ministro – a fazerem as figuras dos grandes devedores. Há a tristeza de ver a Câmara do Parlamento a ser usada para “mudar a lei antiga” que regula a liberdade de manifestação para distrair do facto da “liberdade que passou por aqui” já não mora nos corações de que tem o poder de estado. Há a tristeza de quem organiza as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril não ter autoridade para apontar esta chaga a céu aberto.

Acho muito bem passar uns anos valentes a renovar o 25 de Abril. Mas se é para estar calado em relação aos direitos, liberdades e garantias fundamentais, como a liberdade de manifestação, de expressão, de ter um abrigo digno, de não estar condenado ao frio e ao calor ou à fome, incluindo crianças e pessoas sem autonomia, de que vale comemorar a revolução?

Porque é que a reforma da justiça, insistentemente pedida por Jorge Sampaio durante dois mandatos, sem nenhum efeito prático visível, se tornou agora facho de campanha intermitente de Rui Rio, de maneira triste, a par da indiferença e a chacota dos restantes partidos? Porque é que a memória dos grandes feitos heróicos das gerações actuais, a comemorar, é selectiva? Quando nos responsabilizaremos pelas “glórias que nos honram e [pel]os fracassos pelos quais nos responsabilizamos”, de que falou Marcelo no último 25 de Abril?

Sabemos o que recebem os grandes devedores por fazerem figuras tristes. E o estado democrático que organiza secretamente a delação de activistas a estados terceiros, o que recebe em troca?

Vimos o caso das prisões secretas da CIA a ser protestado por uma deputada, Ana Gomes, sem obter resultados concretos sobre quem autorizou o quê. Talvez por se tratar, também aqui, como no caso da Câmara de Lisboa, de um regime administrativo automatizado em que tudo quanto os serviços secretos queiram fazer será feito. Como a destruição da empresa nacional de telecomunicações, antiga glória da inovação económica.

Será que as contribuições para a NATO são pagas em géneros?

A Dinamarca foi recentemente acusada (mais uma vez) de servir os serviços secretos norte-americanos, nomeadamente para espiar as comunicações dos mais importantes líderes europeus. Não consta que isso tenha sido um problema nas cimeiras das organizações ocidentais e nos encontros entre espiados e espias. O caso da violação de direitos humanos de Julian Assange, organizado em conjunto pela justiça sueca, britânica e norte-americana, denunciado e condenado pela ONU, também não consta das agendas. O facto de Edward Snowden – quem denunciou o sistema de espionagem global organizado pelos EUA – continuar fugido das garras da retaliação imperial também é tratado com um “caso [de segredo de] de justiça”, que não tem nada a ver com direitos humanos.

A maior tristeza é a falta de esperança generalizada decorrente de cada um de nós se responsabilizar apenas por aquilo que julga saber que está a fazer, na sua especialidade, desresponsabilizando-se de tudo o que se passa à volta. Como profissionais, cada um de nós também não quer ser responsabilizado pelos resultados práticos das empresas que nos pagam o salário. Compreendemos muito bem, no mesmo sentido, que grandes devedores e grandes políticos façam figuras tristes, como as que faríamos ou faremos se nos responsabilizarem pela existência de sem abrigo, de crianças que só comem nas cantinas escolares, de idosos à mercê da sorte nos seus asilos, pelos escravos que estão um pouco por todo o lado. Que temos a ver com isso?

A sociedade em que vivemos faz-nos ter vergonha de nós próprios, perante a evidência da nossa colaboração pelo silêncio impotente e pela indiferença defensiva. Há trabalhadores que precisam de assistência para sobreviver, pois são considerados empresários pela lei. Trocamos olhares entre nós e dirigimo-nos ao estado para que os proteja. Não admira que nos falte a esperança que a dignidade pode dar.

 

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Web

 

01jul21

 

 

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