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“Quem Não Chora, Não Mama!”

Weihua Tang

 

Durante dezassete anos, tenho achado muito engraçado um ditado português, o mais falado de todos: “Quem não chora, não mama.”

Sem dúvida, este ditado é, certamente, não só um símbolo da inteligência do povo português, mas também a cristalização da sabedoria portuguesa. Coincidentemente, temos um ditado chinês  idêntico como o referido: “Quem sabe chorar, consegue mamar”. Aparentemente, a expressão idiomática do ocidente difere do oriente, contudo, o objetivo é, evidentemente, o mesmo — “Querer mamar”. Seja qual for o modo ideal, ou melhor, o que mais interessa é o resultado: atingir a meta desejada.

A meu ver, este ditado popular tem a ver com a sua história e a cultura original. Tradicionalmente, os chineses costumavam ter mais filhos na família. Entre eles, o que chorava mais, poderia chamar a atenção dos pais. Neste caso, os pais praticamente julgavam que o “chorão” ficava com fome, estava adoentado ou desconfortável. Aliás, esse conseguia, eventualmente, obter mais atendimento e aconchego parental que os outros . Gradualmente, as crianças aprendiam a utilizar esta “estratégia”, no caminho crescente e funcionava. Por isso mesmo, os chineses mencionam “saber”e não simplesmente “chorar”, na expressão idiomática. Que extraordinária a filosofia chinesa! Pois é !

Porém, tudo mudou, tal como o seu significado nos dias de hoje para acompanhar o passo da época. Ou, melhor dizendo, a teoria literal mantem-se, enquanto a interpretação se adapta amplamente nas diversas áreas. Por exemplo, na entidade de trabalho há sempre alguém que quer mostrar deliberadamente a sua parte de debilidade. Sabem porquê ?! Para suscitar piedade e compaixão nos outros e assim realizar os seus póprios desejos. Efetivamente acontece o mesmo nas sociedades contemporâneas, nos países e em todo o mundo como se fosse “uma chave do cofre”.

Há dez anos, fiz a inscrição para o meu marido ir aprender português na Faculdade de Letras. Ele não tinha direito ao desconto das propinas, pois este era apenas para ex-alunos da FLUP ou alunos da Universidade do Porto e ele não pertencia nem a um nem a outro grupo. Todavia, o responsável pela inscrição disse-me que poderia fazer desconto, caso recebesse a autorização da Senhora Doutora Diretora.

Quando contei ao meu marido sobre o meu plano, ele abanou a cabeça de imediato. Ele estava fortemente contra a ideia, por duas razões: primeiro, não era necessário; em segundo lugar, tinha vergonha, porque na sua mentalidade, iríamos perder a “face” se o meu pedido fosse recusado. Aos olhos dos chineses, às vezes, a “face” é algo tão importante como a “dignidade” e o “orgulho”. Preferem salvaguardar essa “face” em vez de serem alvo de troça pelas pessoas. Na minha opinião, se não tentarmos, não haverá nenhuma hipótese; mas pelo contrário, se tentarmos, já existe cinquenta porcento de possibilidade. A verdade é que não custa nada apostar numa “tentativa”. Então, porque não?! Se perdesse a minha “aposta”, o meu marido ia rir-se de mim ?! Talvez.

Tenho de confessar que foi mesmo preciso ter  persistência e  coragem. Entretanto, para justificar o tal pedido de descontinho, preparei um texto bem grandioso e explícito, no qual escrevi com o meu melhor português. E, ainda por cima, escolhi os vocábulos com muito cuidado, com a máxima prudência e a maior humildade. Além disso, estava convencida que o meu “português exótico” iria chamar a atenção da nossa excelentíssima Diretora.

Conseguem imaginar a minha reação, enquanto abria o novo e-mail na caixa “Inbox”?! Eu respirava fundo, enquanto pensava que devia constar minimamente uma frase formal quanto à resposta. Inacreditavelmente, fiquei de boca aberta e super impressionada pelo conteúdo curtíssimo, porque encontrei uma única palavra: “Autorizo!”

Afinal, quem é que é “beneficiária” de assimilar a cultura oriental e ocidental ?! Por um lado, tive a capacidade de aprender a “saber chorar”; e por outro lado, chorei e mamei!

 

Foto: pesquisa Web

 

01jul21

 

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