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A “Porta Solidária” serviu, só no primeiro semestre de 2021, mais de 73 mil refeições! O decrescente número de voluntários e de ofertas preocupam, agora, o padre Rubens Marques…

A paróquia da Nossa Senhora da Conceição, à Praça do Marquês de Pombal, no Porto, tem, há cerca de 12 anos, uma importante e ativa vida, paralela à da base religiosa, isto depois de ter sido criada, pelo padre Rubens Marques, a “Porta Solidária”, um organismo, que se pode já considerar instituição, pronta a ajudar, com alimentos, aqueles que deles mais necessitam.

Com este e outros exemplos, pode dizer-se, sem complexos, que ainda há gente que se preocupa com o próximo, que é solidária, presente, interveniente… amiga. O padre Rubens Marques, responsável pela “Igreja do Marquês”, como também é conhecida a paróquia da Nossa Senhora da Conceição, é tudo isso e mais alguma coisa; e mais alguma coisa é-o todos os dias através do trabalho que é desenvolvido pela solidária e, para muitos, mais que necessária “Porta”, que criou em 2009.

Desde a sua fundação e até aos nossos dias, não faltaram crises económicas e sociais, factos que levaram a valorizar a já importante ação da “Porta Solidária”, centrando-se a mesma no combate à fome de um sem-número de pessoas.

Se, em 2009, registou-se uma grave crise económica e, em 2015, outra situação do género que obrigou, inclusive, à intervenção da troika, hoje, é a pandemia criada pela Covid-19, a levar milhares de pessoas – algumas das quais que, até março de 2020, tinham uma vida economicamente “desafogada” -, a recorrerem ao apoio, em termos de alimentação, criado pela “Porta Solidária”.

Fomos, então, no passado dia 14 de julho, até à Igreja do Marquês, e ao encontro do padre Rubens Marques, que, mesmo não gostando muito de falar, abriu-nos a tal “Porta” que é cada vez mais importante para um crescente número de pessoas/famílias, na sua maioria vítimas da pandemia.

 

José Gonçalves                         Mariana Malheiro

(texto)                                                (fotos)

 

E eram 18 horas quando chegámos à Igreja da Nossa Senhora da Conceição. Já a essa hora era visível uma considerável movimentação de pessoas, que se iam colocando em fila, num espaço devidamente assinalado e reservado, em direção à “cantina”, para depois levarem, em método take away, a comida para casa.

“EM 2020, SERVIMOS MAIS DE 134 MIL REFEIÇÕES!”

Rubens Marques recebeu-nos no seu gabinete à “prova de Covid”, essencialmente para falarmos sobre o papel de um organismo/instituição que “começou a funcionar em 2019 e que está estritamente ligado à paróquia da Nossa Senhora da Conceição”, como fez questão de frisar o nosso entrevistado, isto no que concerne à sua “Porta Solidária”, “sua” porque foi ele o seu criador.

Uma “Porta” que está aberta todos os dias, e que todos os dias ajuda a alimentar milhares de pessoas. E os números são, verdadeiramente, assustadores! E mais assustadores se tornam quando se fica a saber que uma percentagem significativa de “carenciados” está diretamente relacionada com… crianças com menos de 10 anos de idade.

“Os números, desde março de 2020, tornaram-se muito preocupantes, basta salientar que nós, nesse ano, servimos mais de 134 mil refeições. Para ser mais preciso foram, no total, 134.301 refeições… no valor de 604 mil e 935 euros. As refeições são, por nós, contabilizadas a quatro euros e meio. Sendo que dessas refeições, 8.306 foram destinadas a crianças com menos de 10 anos. O ano passado, e este primeiro semestre de 2021, foram muito dramáticos, já que, de um momento para o outro, a média de 65 refeições diárias disparou, em março de 2020, para as 400, chegando depois mesmo a atingir as 640 refeições.”

Números dramáticos estes os revelados por Rubens Marques, e que, se ainda hoje, o deixam preocupado, a verdade, é que em matéria de preocupações, as coisas não são de agora para o pároco da “Igreja do Marquês”…

“Abrimos a ‘Porta Solidária’ no meio de uma crise económica, em 2009. Foi quando se agravou a fome em Portugal, e já criámos a ‘Porta’ por causa disso, ou seja, com o objetivo de ajudar os sem-abrigo e outros pobres”.

O MAIOR PROBLEMA DA CIDADE DO PORTO NÃO SÃO OS SEM-ABRIGO, SÃO OS IDOSOS!

E quando fala em “outros pobres”, refere-se a ‘pobres’ de uma cidade que, segundo o nosso entrevistado, “tem uma população muito idosa; uma população de reformados pobres, para os quais a reforma só dá para pagar o quarto da pensão, e, assim, têm de se socorrer em outros locais, sobretudo, para se alimentarem. Na cidade, esses idosos, geralmente, vivem sozinhos. Assim sendo, ou tendo em conta esta realidade, o maior problema da cidade do Porto não são os sem-abrigo, são os idosos!”

O ano de 2009 foi um marco na vida de Rubens Marques, que, desde outubro de 2000, estava já à frente dos destinos da paróquia da Nossa Senhora da Conceição, isto depois de ter sido ordenado padre, a 12 de julho de 1987.

E foi um marco, porque, aquele que é hoje o nosso entrevistado, e que teve sempre uma enorme atenção pelas questões sociais, conseguia, nesse ano, criar algo de importante para ajudar quem mais precisava.

“Em 2009, criámos a ‘Porta Solidária’ porque começámos a sentir que havia muita fome! Depois, em 2015, no pico de mais uma crise – durante a qual até houve a intervenção da troika -, chegámos às 320 refeições por dia. Algum tempo depois, o número de refeições baixou, como que estabilizou, passando a uma média de 70 por dia, voltando, contudo, a disparar com a pandemia, a partir de março do ano passado”.

O NÚMERO DE REFEIÇÕES BAIXOU A PARTIR DE MAIO, MAS AINDA É ALTO…

Viveram-se já, pelos vistos, momentos marcantes na vida da “Porta Solidária”, que não é assim tão longa quanto isso, mas que já regista marcas assinaláveis na sua história.

E ainda vivendo em tempos de pandemia – sendo que ninguém sabe ao certo por quanto tempo mais -, o padre Rubens Marques sente-se satisfeito, com o facto de, “desde maio, os números têm vindo a baixar. Andamos numa média diária de 420 refeições”. E o número baixou porque, de acordo com a opinião do nosso entrevistado, “reabriram os empregos”.

“Repare que vinha cá muita gente ligada a cabeleireiros, esteticistas, massagens, trabalhadores de esplanadas sem contrato, e, ultimamente, ainda que aos poucos, foram regressando aos trabalhos, e isso fez com que deixassem de cá vir”.

“Mas, mesmo assim” – enfatiza Rubens Marques -, “os números ainda são altos. É certo que diminuíram, mas ainda são elevados, pois 400 refeições por dia, supera em muito aquilo que é previsível para um serviço que foi pensado para 40. E a verdade é que nunca se serviu 40 refeições. Desde o primeiro dia que se serviu sempre mais. Claro, que a partir de março de 2020 tivemos de nos adaptar o nosso serviço, com o ‘Take Away’, que é assegurado pelos nossos voluntários”.

ACEITAM-SE VOLUNTÁRIOS, PORQUE, DEVIDO ÀS FÉRIAS E À RETOMA DOS EMPREGOS, O NÚMERO TEM VINDO A DIMINUIR. ESTAMOS MESMO A PRECISAR!

E é essa questão do voluntariado que está, presentemente, a dar algumas dores de cabeça a Rubens Marques…

“Temos cerca de 25 voluntários por dia. Claro que muitos, felizmente, repetem a sua ação em outros dias. No total devemos ter, neste momento, 85 voluntários. Mas, estamos recetivos a mais pessoas, porque os voluntários estão a diminuir, uma vez que, parte deles, retomaram os seus os empregos e deixaram, assim, de ter horário compatível com serviço que desenvolvemos”, explica o pároco.

Para colmatar o problema, a “Porta Solidária” está a fazer um apelo, sobretudo aos jovens, mas não só, para que ajudem no trabalho da instituição.

“E estamos a fazer esse apelo porque também temos muitos voluntários universitários, só que, entretanto, foram de férias para as suas terras. Assim sendo, pensamos contar com a adesão dos jovens da cidade e da região do Grande Porto. Este é um apelo muito forte – muito importante! -, uma vez que estamos mesmo a precisar de pessoas para o voluntariado!”

 AS OFERTAS ESTÃO A BAIXAR, E… SEM OFERTAS NÃO TEMOS OUTRA MANEIRA DE FINANCIAR ESTA AÇÃO. NÓS VIVEMOS DAQUILO QUE NOS DÃO!

E se o número de voluntários tem vindo a diminuir, a decrescer está também o número de ofertas, facto que representa outra preocupação para Rubens Marques.

“Nesta altura não temos o ritmo de ofertas que já tivemos. As ofertas estão a baixar! E, a realidade, é que não temos outra maneira de financiar esta ação. Nós vivemos daquilo que nos dão! As pessoas pensam que temos subsídios, apoios estatais, mas não temos! Neste momento o Estado só apoia as cantinas sociais que já existiam. Não abriram novas! E não há nenhum protocolo previsto com instituições do género da nossa. Penso que o Estado deveria ter em conta as cantinas sociais, abrindo mais – com outro nome, com outro projeto, o projeto que for melhor entendido – mas deviam abrir mais!” O apelo do padre Rubens Marques que, mesmo assim, entende que o serviço prestado pela sua solidária ‘Porta’ “para já, permanece bem assim: sem intervenção estatal”.

A NOSSA ‘POPULAÇÃO’ VAI MUITO PARA ALÉM DAS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE SEM-ABRIGO…

E a abertura de novos centros, ou cantinas sociais, que Rubens Marques defende, pode ser depois “desenvolvida partilhando a nossa experiência. Estamos disponíveis para isso. E sobre isso – ainda que numa diferente vertente-, a comunicação social, no ano passado, esteve muito presente e fez com que se demonstrasse o grande interesse na partilha deste serviço.”

Um serviço que vai contando também com o apoio da autarquia – leia-se Câmara Municipal do Porto –, através de um núcleo de planeamento considerado deveras importante para a ação que a “Porta Solidária” desenvolve.

“Fazemos parte do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo – NPISA que trata das pessoas sem-abrigo, e que está diretamente relacionado com a Câmara Municipal. Mas, a ‘nossa’ população vai muito para além das pessoas em situação de sem-abrigo. A Câmara apoia-nos com policiamento municipal diário, para que não se registarem desacatos na distribuição das refeições. Estão sempre presentes dois agentes da Polícia Municipal. E também nos apoia, desde o princípio, com materiais, como gradeamentos, para criar caminhos, de modo, a que as pessoas se protejam uma das outras, algo que é muito importante nos tempos que vivemos”.

O PAPA FRANCISCO TEM QUASE GRITADO SOBRE O AUMENTO DA POBREZA E DA FOME! A IGREJA ESTÁ ATENTA E TENTA CRIAR RESPOSTAS…

Padre há 34 anos, Rubens Marques poderá ter passado por algumas situações socialmente preocupantes, mas como a da pandemia que se vive, decerto que não. Assim, pergunta-se: como é que um homem da Igreja encarou de início, e como hoje encara, todas os “danos colaterais” da Covid-19, principalmente o relacionado com a fome?

“Para a Igreja esta situação é muito preocupante. O Papa Francisco tem quase gritado sobre o aumento da pobreza e da fome no mundo inteiro! A Igreja está atenta a esse fenómeno e tenta criar respostas conforme lhe é possível. Agora, isto não pode só depender da Igreja, já que compete a outras instituições da sociedade civil, e depende, outrossim, da postura e atitude do Estado”.

Como ativas estão, para além das instituições, algumas empresas, sendo, no entender do nosso entrevistado, necessário mudar a legislação, de maneira q que, por exemplo, as grandes superfícies comerciais ligadas ao ramo alimentar, não enfrentem condicionalismos na ajuda da luta contra a fome.

“Temos, na realidade, algumas empresas que colaboram connosco. Entretanto, era necessário mudar a legislação, porque a vigente não permite que as ‘grandes superfícies’ ofereçam os produtos que sobram ao fim do dia. Há, produtos com um dia de validade que nós poderíamos, perfeitamente, fazer a sua distribuição imediata. Mas, isso não é permitido! Penso, contudo, que estarão a pensar nessa alteração”.

FOI POR CAUSA DAS CRIANÇAS QUE SE ABRIU A ‘PORTA SOLIDÁRIA’”

E se a fome, em Portugal, é uma realidade, mais difícil ela se torna quando se sabe que a mesma envolve crianças, ou seja, os tais jovens com menos de 10 anos de idade, que, há pouco, Rubens Marques salientou. Eis um facto que, no mínimo, é de bradar aos céus.

“Foi por causa das crianças que se abriu a Porta Solidária. Nós, desde 2003, organizamos um jantar de Natal para os pobres. Sentados eram 425 pessoas, porque não tínhamos mais capacidade para sentar tanta gente e servi-la ao mesmo tempo. Acontece que, em 2007, começaram a aparecer muitas crianças nesse jantar de Natal, o que nos criou muita preocupação. Esse facto pôs-nos a refletir, e foi a partir dessa reflexão que decidimos arranjar maneira para dar de comer todos os dias, até porque já havia crianças com fome. Portanto, o aparecimento das crianças é que despoletou esta reflexão e a abertura da Porta Solidária”.

Porta Solidária que dá outros apoios sociais aos carenciados, para além do alimentar.

“Desde 2003 temos aberta a Sala de Atendimento Social, que funciona como um termómetro quanto à situação que se vive. A sala de Atendimento Social tem um banco de roupa; ajudamos em alguma medicação, e também em questões burocráticas. Portanto, ali temos um termómetro relativamente à situação social, ou seja como ela evolui: se para pior ou se estabiliza. E, na verdade, ao evoluir para pior, isso levou-nos a descobrir que, para além da roupa, e de outras necessidades – as vezes era só atualizar uma fatura de água ou de gás –, o que era necessário era a comida”.

FOI DE DEUS A MAIOR AÇÃO QUE TIVEMOS!

E toda esta atividade solidária praticada na Igreja da Nossa Senhora da Conceição está dirigida, essencialmente, para a população do concelho do Porto, se bem que, as “fronteiras” se tenham vindo a alargar, como realça Rubens Marques.

“Estamos vocacionados para intervir junto da população do concelho do Porto, mas no pico da pandemia veio gente de Gaia, da Maia, de Matosinhos, de Ermesinde… vieram muitas pessoas desses concelhos vizinhos. Para o número refeições diárias chegar a 640, tiveram de vir pessoas de muitas partes.

E como é que se reage a um impacto pandémico, que surge e evolui de um momento para o outro, obrigando a respostas imediatas a quem o quisesse, ou tivesse a obrigação de o atacar?

“De 12 de março até abril do ano passado não tivemos mãos a medir. Mas – e como acreditamos na providência divina -, estamos convencidos que foi de Deus a maior ação que tivemos. De repente, apareceram voluntários; de repente, tivemos entrada de ofertas, e isso não foi obra nossa! Nós, quando muito, fomos e somos as mãos, a cabeça e o coração que torna isto exequível, porque, como costumamos dizer, temos uma procissão grande de pobres para ir comer, mas temos outra procissão grande de ofertas que chegam. Neste momento a diminuir, mas esperamos que volte a aumentar”.

O CONSELHO QUE DEMOS FOI QUE NINGUÉM ABDICASSE DA SUA CASA POR CAUSA DA COMIDA!

Entre as largas centenas de pessoas que, diariamente, procuram o apoio da “Porta Solidária”, nenhuma é igual à outra. Há, por certo, que saber lidar com diferentes feitios, atitudes… opiniões, e, acima disso tudo, com graus diferentes de gravidade em termos sociais. Neste contexto, há quem não consiga esconder a vergonha de ter caído na situação em que caiu!

“Há, realmente, populações diferenciadas. Perfis diferentes. Temos as pessoas que vivem em situação de sem-abrigo, que estão nos passeios ou em casas abandonadas, e esses aparecem cá com menos vergonha, porque perceberam que se não vierem cá passarão fome. Depois, temos os novos desempregados relacionados com pandemia, que cá chegaram com vergonha, mas, como foram sentindo bom acolhimento, uma boa receção, foram-se, no fundo, adaptando – com muito esforço interior, é verdade -, e, assim, conseguiram chegar ao equilíbrio. Apareceu muita gente nessa situação!”

Situação originada, em termos digamos que de “problema mor”, na habitação. “Ou pagavam a renda/prestação da casa e não investiam dinheiro em comida porque não tinham; ou começavam a abdicar da casa. E o conselho que lhes foi dado, foi que deviam manter sempre a casa como prioridade. A alimentação, nós, aqui, ajudamos; a Câmara também tem três restaurantes sociais a funcionar à noite. Nessa altura as carrinhas de voluntariado que andavam nas ruas pararam, pelo que surgiram esses picos. Ora, o facto de não haver distribuição de alimentos por associações voluntárias na rua complicou, sobremaneira, a situação. Mas, depois o serviço foi retomado, isto já em setembro/outubro do ano passado. Portanto essa situação de optar pela casa foi o que mais aconselhamos. Para essas pessoas a economia doméstica não dava para tudo…”

TIVEMOS VÁRIOS UNIVERSITÁRIOS A PRECISAR DE AJUDA ALIMENTAR

E chegamos ao Verão de 2012… às férias! Há quem diga que as coisas, lá mais para o final de agosto podem acalmar em termos de aumento de casos relacionados com a Covid-19. Outros há, que dizem que não. No entender do nosso entrevistado, e pela experiência, pela prática, no terreno, que tem vindo a desenvolver, as coisas poderão mesmo piorar nos próximos tempos.

 “Do modo como estão, agora, os números da pandemia, a época que aí está não vai ser mais calma, pode até aumentar um pedaço para pior. A Porta Solidária está atenta à situação. Temos um registo diário de quem vem buscar a alimentação – de homens, mulheres e crianças – e já aparecem caras novas. É de relevar também o facto – agora já não, mas durante a época de estudos -, que tivemos vários universitários a precisar de ajuda alimentar. E gente da Erasmus! Foi um número considerável. Notou-se muito a presença dessa população. Aliás, é também por isso que a Federação Académica do Porto nos apoia bastante”.

RECEIO QUE O ESPÍRITO DE SOLIDARIEDADE GERADO PELA PANDEMIA ESTEJA A DIMINUIR…

Como todo este trabalho, é natural que, nos últimos tempos, a “Porta Solidária” tenha sido o centro das atenções no que concerne ao trabalho de apoio junto das vítimas, diretas e indiretas, da pandemia. Rubens Marques vai mais longe quanto à presença da instituição na sociedade civil, e agradece, a propósito, o trabalho efetuado pela comunicação social. Mas…

“A Porta Solidária é um dos centros de atenções, porque a sociedade civil começou a ter conhecimento dos números quanto ao apoio que demos e damos às pessoas, através da comunicação social – a quem agradecemos muito -, e começou, assim, a inteirar-se da realidade tornando-se sensível à mesma. É bom que se diga que a pandemia criou também solidariedade. Fez crescer, sem dúvida, a solidariedade entre as pessoas!”

“Temos, contudo, receio”, continua Rubens Marques, que esse espírito solidário, que foi gerado pela pandemia, esteja a diminuir. As pessoas estão a retrair-se mais! É uma segunda fase de pandemia em que aquele espirito de que temos de cuidar todos uns dos outros está a diminuir. É um fenómeno que ainda não sei explicar, mas, contra o que estava previsto – pois falamos muitas vezes, que sairíamos da pandemia mais unidos e solidários -, os sinais, de agora, são ao contrário”.

Poderá esse comportamento estar relacionado com a vacinação, e as pessoas sentirem-se mais seguras, e, consequentemente, menos interessadas na ação comunitária?

“Esta questão põe-se ao nível do sentir. Que nós temos de cuidar do outro. Que juntos estamos melhor do que sozinhos…  e esse espírito diminuiu um bocadinho na atual fase da pandemia. Isso está para além da vacinação. Este facto é, para nós, em particular, muito preocupante, até porque somos das instituições que vive, essencialmente, da caridade”.

A verdade, contudo, é que ainda se sente muita esperança no futuro e em tudo de positivo que ele trará em breve. O padre Rubens Amorim acredita que as coisas vão melhorar, enfatizando, ao mesmo tempo, um outro trabalho que a sua paróquia desenvolve, o da distribuição de cabazes familiares.

“Penso que o Estado está preocupado com a grave situação que se vive, nomeadamente a Segurança Social que tem apoiado muita oferta de cabazes familiares, que é outra realidade na nossa instituição. Apoiamos, quinzenalmente, com esses cabazes, 58 famílias. O cabaz é composto por leite, cereais, enlatados, ovos, massa, frango… é um bom cabaz! O problema é que não temos hipótese de dar todas as semanas, e para nós, 58 cabazes já é muito!”

NESTE PRIMEIRO SEMESTRE JÁ SERVIMOS 73. 592 REFEIÇÕES

Sem fim à vista, mas com medidas que se esperam, gradualmente mais desconfinadas, a pandemia continua a dar trabalho a quem luta contra ela direta e indiretamente.

Os índices relativos à proliferação da pandemia, vão-se medindo, também através do número de pessoas que recorrem não só aos hospitais, mas também aos centros de apoio, que de uma forma menos direta mas não menos importante combatem os efeitos da Covid-19.

Um deles é a Porta Solidária que, embora – como já referiu Rubens Marques nesta entrevista – tenha registado uma diminuição de pessoas a necessitar de apoio desde o último mês de maio, teve, contudo, no primeiro semestre do presente ano, um número bastante significativo de refeições servidas, como destaca o seu responsável.

“A Porta Solidária, neste primeiro semestre, já serviu 73 mil e 592 refeições. Estes são os nossos números. Haverá, por certo, outros, de outras instituições, que também abriram as suas portas para servirem as pessoas sem-abrigo e estão também a alargar o seu serviço a muitas outras pessoas”.

Aliás, e de acordo com Rubens Marques, “pode, na realidade, haver pessoas que vão a mais que uma instituição pedir refeições, mas não estranho, até por cá já conversámos sobre isso, mas isso é natural, pois a comida que nós damos, e a comida que é distribuída em outros locais, para quem trabalha, por exemplo e sobretudo, na construção civil, não chega! Eles têm, assim, de ir buscar a mais que um sítio! A comida que nós damos não chega para eles jantarem, e muito menos para guardaram para o almoço do dia seguinte. Acho muito bem que eles vão a mais que um sítio buscar comida!”

A POBREZA TORNOU-SE CRÓNICA EM PORTUGAL

Com estes números; com estas necessidades… estes problemas sociais, será – perguntámos – que um padre, solidário, sempre atento aos problemas que afetam os seus paroquianos, mas não só, consegue dormir descansado(?). A resposta foi direta.

“Sim, eu durmo descansado, no sentido que estamos a fazer o que podemos. Estamos todos preocupados com a situação social em Portugal, porque a situação de pobreza tornou-se crónica em Portugal. Nós só damos respostas de emergência, pelo que, agora, são precisas respostas estruturais urgentes e essas não podem depender de instituições como a nossa”.

“No contexto europeu”, continua Rubens Marques, “há boas notícias em relação ás pessoas em situação sem-abrigo, porque estão a ser feitos estudos e pretende-se dar uma resposta de modo a que, em breve, não haja pessoas a dormir na rua. O NPISA do Porto está a trabalhar muito bem, está mais bem organizado, e as respostas estão a aparecer cada vez mais. Para as pessoas sem-abrigo há esperança, o que já não acontece tanto com a fome e pobreza crónica”.

E além da pobreza crónica, há, pelos visto, também a… hereditária.

“São precisas respostas estruturais, que nós desejamos e pensamos que estão a ser estudadas, quanto mais não seja apara acabarem com a pobreza hereditária.

Essa pobreza, dizem certos estudos, que, em Portugal, não cresceu muito com a pandemia, mas meso não crescendo, os números já eram assustadores antes da pandemia. As grandes cidades são sempre mais problemáticas, porque não há retaguarda familiar, nem há relação de vizinhança. Em outras localidades há sempre alguém que acorre a quem sente fonte…”

Ainda que nesse sentido solidário, e no Porto, existam casos a ter em conta, principalmente nos seus bairros. “Mas cada vez menos”, retorquiu o padre Rubens Marques, “sobretudo em relação aos idosos que estão sozinhos. Numa cidade, sem a necessária relação familiar que muitos não têm, e sem a vizinhança… fica tudo mais atingido!”

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA AJUDOU, E MUITO, A COLOCAR A QUESTÃO DA POBREZA NA AGENDA POLÍTICA

Visita do Presidente da República à “Porta Solidária”, foto: pesquisa Web

A verdade, porém, é que “nunca podemos desanimar e temos também que provocar os políticos. Quando aceitamos aparecer nos meios de comunicação social foi no sentido de pôr na agenda política a questão da fome durante a pandemia, e penso que isso foi conseguido: está na agenda política!”

E como está na agenda política, e logo em pré-campanha eleitoral para as “Autárquicas”, os “políticos têm falado muito comigo, mas, antes disso, o senhor Presidente da República quis que nós fossemos a uma entrevista para se inteirar mais da questão relacionada com a pobreza e o trabalho que desenvolvemos, até que ele depois veio cá, para ficar mais bem situado em relação a esta questão. O Presidente da República mostrou-se muito interessado com o que viu e sentiu, começando a receber instituições deste género e a visitá-las, facto que ajudou, e muito, a colocar esta questão na tal agenda política”.

UM TRABALHO VOLUNTÁRIO, SOLIDÁRIO, APAIXONANTE… FEITO POR NOBRE GENTE

E, pronto, para quem nos disse que não gosta muito de falar, o padre Rubens Marques além de falar, e bem, colocou o dedo em determinadas feridas que dão que pensar, além de doerem a quem delas padece, e são milhares que as têm.

Para ajudar a cicatrizar essas feridas, há uma equipa de voluntários que, todos os dias, não pára de trabalhar para dar a quem precisa a refeição com a qual sobrevive.

É um trabalho de paixão, feito por gente apaixonante, que olha para o futuro a pensar no próximo, em quem mais necessita.

São pessoas nobres, essas que, neste caso na “Porta Solidária” dão tudo de si aos outros, sem estar á espera de qualquer recompensa, a não ser a justa consideração que devem, pelo seu voluntarismo, ter pela sociedade de que fazem parte integrante e ativa.

As imagens que se seguem são bem elucidativas do trabalho que é efetuado, diariamente, na solidária “Porta” criada pelo padre Rubens Marques…

 

E para terminar, não nos custa nada, em revelar relevando, e porque a “Porta Solidária” vive, essencialmente, de donativos, o IBAN da instituição, para se quiser – sim, você, cara(o) amigo(a) que nos lê! – ajudar, o possa fazer sem qualquer tipo de problemas. Tome nota:

PT50 0010 00008111 716000 171

 

 

01ago21

 

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