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Congresso da Região de Aveiro apresentou candidatura do barco moliceiro a património da UNESCO

A necessidade de sensibilizar para o reconhecimento sobre a importância cultural e histórica do barco moliceiro por parte da UNESCO, começou a despertar como ideia de candidatura, quando em 2001, se realizou em Portugal o congresso de embarcações tradicionais. Ideia que em 2006 voltou a ser apresentada como intenção por iniciativa da já extinta Região de Turismo da Rota da Luz, na altura, em parceria com a Associação dos Amigos da Ria que procurava contrariar o cenário decadente que dominava as margens da laguna, com imponentes barcos moliceiros abandonados e a degradarem-se até alguns dos exemplares se perderem para sempre.

Mas quase duas décadas depois, a ideia volta a ganhar forma, desta feita, no recente Congresso da Região de Aveiro, na sua edição de 2021, realizado durante o mês de junho e parte de julho, descentralizadamente pelos 11 concelhos que integram a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA), onde veio a ser apresentada a candidatura do moliceiro a património da UNESCO.

 

José Lopes

(texto e fotos)

 

Para sustentar esta candidatura, que acabou através da CIRA, liderada por Ribau Esteves, por ser abrangente aos vários municípios da região, ligados ao património ambiental e lagunar que a ria de Aveiro representa, tanto cultural, como social e economicamente. Destaca-se o interesse que entretanto os municípios de Estarreja, Ovar e Murtosa, vinham manifestando igualmente sobre uma candidatura a Património Cultural Imaterial da UNESCO, que para alem da característica embarcação da ria, era também alargada à vertente da arte da construção naval dos moliceiros, cujos últimos “mestres” resistentes na região, lamentam a aproximação de um fim inglório desta arte e atividade económica, com impacto na dinâmica que vem sendo desenvolvida nas últimas décadas, através dos passeios de moliceiro pelos canais da ria na cidade de Aveiro.

Determinante para o resgate deste património e o regresso dos moliceiros às águas da ria, a motor ou com as suas imponentes velas, incluindo as humorísticas e satíricas pinturas dos painéis na proa e na ré destes barcos, cujo aumento de embarcações a navegar se intensificou nos últimos anos, como um ex-libris e atração turística, a exemplo dos barcos mercantéis que se adaptaram às condições dos canais, no caso de Aveiro. Ficou a dever-se a alguns resilientes e apaixonados proprietários, autarquias e entidades como a Associação dos Amigos da Ria, que durante vários anos desenvolveram atividades e eventos para voltar a dar vida a muitas destas embarcações, que outrora estavam destinadas essencialmente à apanha do moliço para as terras agrícolas ribeirinhas. Destacando-se as tradicionais regatas de moliceiros, como momentos de afirmação dos tempos em que navegavam rasgando os ventos. Enquanto na área da construção naval de moliceiros, também foram sendo dinamizados projetos fundamentais, tanto na construção artesanal de novos moliceiros, como na recuperação e reconstrução de alguns exemplares que voltaram a ganhar vida e a colorir a ria, ainda que de forma intensiva e concentrada ao longo dos canais da cidade de Aveiro como garante da sua rentabilidade económica, depois de longos anos a morrer nas margens da ria sem moliço.

É neste cenário possível de valorização do barco moliceiro, bem mais dignificante, do que apodrecer numa rotunda, como acontece ironicamente no Carregal, município de Ovar, que integra a CIRA e subscreve as mais-valias da candidatura à UNESCO. Que, concluída a primeira fase do processo através da realização de estudos de base, se ficou a saber no Congresso da CIRA, que, a candidatura deverá estar pronta até ao final deste ano, para ser finalmente formalizada em 2022.

Com a espectativa de vir a ter um reconhecimento formal da candidatura através do “selo” da UNESCO, a CIRA divulgou que este processo representa um investimento financeiro de cerca de 400 mil euros, justificado pelos autarcas para atrair fluxos turísticos na região, que tem no seu território a ria, como património ambiental, social e humano a cuidar e preservar em toda a dimensão da área lagunar, com o moliceiro e a carpintaria naval, como património da UNESCO a conquistar, para “certificar” os cerca de 50 barcos recenciados atualmente, quando nos inícios dos anos 70 do século passado estavam registados cerca de 3000 moliceiros em atividade na ria de Aveiro.

 

01ago21

 

 

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