Menu Fechar

Oligarquia e fascismo tratam da nossa saúde

António Pedro Dores

 

Durante 2019, esta coluna ocupou-se da denúncia das evidências da emergência do fascismo, quando isso ainda não era tratado nos debates políticos. Quando a discussão pública se passou a centrar no deputado eleito em representação dessa sensibilidade política, a discussão sobre o fascismo tornou-se tóxica, moralista.

O fascismo é uma coisa especialmente apreciada pelos fascistas. Isso é evidente. Porém, a experiência de viver o fascismo não depende só dos fascistas, nem a vida democrática depende só dos democratas. Por isso, durante décadas, incluindo 2019, enquanto não havia representantes fascistas na Assembleia da República, o fascismo foi avançando na sociedade até criar uma dinâmica de representação como aquela que catapultou o novo partido mais falado para um dos partidos mais votados, nas sondagens.

Com a declaração da guerra contra o terrorismo não identificado, supostamente islâmico, em 2003, o fascismo avançou de forma evidente. Disseram-no Freitas do Amaral, em livro (Do 11 de Setembro à guerra do Iraque), e Mário Soares. O anfitrião da declaração dos Açores, Durão Barroso, lançou-se numa meteórica e serviçal carreira internacional. O facto de os primeiros terem sido gozados e comparados aos velhos dos marretas pela opinião publicada, e o segundo louvado pelos seus sucessos “em representação de Portugal”, não invalida que os primeiros tenham tido razão todo o tempo, antes de tempo, como dizem os poetas.

Meia década após, nas sequelas da crise financeira de 2008, a Srª Merkel instigou o ódio racial e nacional na União Europeia, nomeadamente contra os países do Sul, tratados como PIGS, preguiçosos, marialvas e beberrões. Ódio acolhido em Portugal através do slogan “Nós não somos gregos!”, como forma de (não) explicar a razão pela qual se defendeu o sistema financeiro global falido, fazendo pagar os contribuintes, para as próximas longas décadas, os desmandos dos banqueiros que privatizaram, e continuam a privatizar, os créditos e os colocam na conta dos estados, usando reguladores que neles confiam e políticos que precisam deles.

O facto de a justiça andar agora, afanosamente, atrás dos prejuízos, depois de décadas em que os seus mais altos responsáveis diziam que a corrupção não era um problema, revela aquilo que foram esses tempos e, do mesmo modo que encobriu o que se passou nesse tempo, encobre o que são os tempos que vivemos. Ao contrário do que parece, ao ler as notícias, os crimes não foram apenas cometidos no tempo do Dono Disto Tudo. A intimidade entre financiadores, estados, organizações internacionais, reguladores chama-se oligarquia e continua a funcionar em pleno.

O facto do sr. Bush (filho) ter feito campanha contra o sr. Trump e da srª Merkel ter defendido os refugiados mostra que os protagonistas do fascismo podem não ser fascistas e sentir até repugnância pelos fascistas. De facto, foi o sr. Bush quem abandonou a convenção de Genebra, criou Guantanamo e tentou estabelecer legislação para legalizar a tortura; e que foi durante a liderança da srª Merkel que a ONU denunciou a União Europeia por violação dos direitos humanos, no caso dos refugiados no Verão de 2015, e que a política de fronteiras no Mediterrâneo se tornou intencionalmente letal para os imigrantes, como forma de dissuasão, oferecendo ao sr. Salvini a oportunidade de se tornar um herói político.

O fascismo continua a avançar nas sociedades actuais, ultrapassando Trumps, Bolsonaros e quejandos. A comunicação social faliu com a paragem da economia da Covid e tornou-se mais dependente da oligarquia, com consequências repugnantes e até ridículas. Desprezada pelo público, alega estar ultrapassada pela concorrência desleal das redes sociais e reforçou as suas funções de descarada propaganda. Isso é apenas um sintoma do fascismo que os fascistas não estão em condições de organizar – até o Twitter censurou Trump.

A censura a Trump, e a seja quem for que seja apanhado pelos algoritmos, tornou-se mesmo uma palavra de ordem, um projecto político global. Alguns meios de comunicação social, armados em defensores da democracia, organizam não a denúncia da censura, mas a verificação das evidências (fact checking). Fazem-no ao mesmo tempo que se ocupam a instigar o medo e a paralisia social face à pandemia, de forma eficaz, às ordens de quem lhes assegura o protagonismo.

Por exemplo, foi confirmado, bem cedo, por esses órgãos de comunicação democráticos, não haver alternativas à vacina para lidar com a pandemia. Foi confirmado também que o vírus teria passado de um animal selvagem para os humanos. Ora, recentemente, Biden pediu uma nova investigação por haver suspeitas fundadas de, como houve quem dissesse desde o início, o vírus poderia ter sido fabricado num centro de investigação, em Wuhan, sob financiamento misto chino-americano. A confirmação de haver tratamentos extremamente eficazes, testados, sem efeitos secundários e extremamente baratos para a COVID, antes de haver vacinas, continua a ser censurada e até reprimida por poderes obscuros que dominam a política internacional, em Portugal e no estrangeiro.

Depois de assistir ao enterro de milhares de pessoas à pressa, sem que os seus familiares lhes possam prestar homenagem, entupindo os sistemas de processamento de cadáveres, é impensável que não tenhamos sido vítimas de mais um ataque da natureza, através do vírus. Tal como aconteceu com o HIV, as interpretações morais sobre o “castigo” de que estaremos a ser vítimas, de acordo com ancestrais sabedorias que continuam a mexer connosco e politicamente utilizadas para oprimir, torna um insulto pessoal, individual, a hipótese de a pandemia ser resultado da resposta política (nada natural) que foi dada à presença do novo vírus.

Como qualquer pessoa vigarizada, ou sujeita à síndrome de Estocolmo, até prova em contrário, o vigarista apresentou um seu caso confirmado pelos sistemas de verificação da verdade oficiais. Como qualquer alemão ou polaco que vivia nos arredores dos campos de concentração, de onde saía um cheiro adocicado de carne humana queimada, também nós não queremos acreditar que tenha sido a ciência, por ter fabricado o vírus, o que tenha espoletado toda a mortandade que nos faz querer estarmos a viver uma pandemia. Não queremos acreditar que os reguladores dos serviços de saúde tenham decidido esconder as curas disponíveis dos médicos e dos doentes.

Porém, fizeram isso com sucesso no caso da falência do sistema financeiro. Primeiro afirmaram que era indestrutível, privado, gerido com todo o cuidado e sabedoria. Depois disseram que havia um problema moral: a ganância. Finalmente fizeram pagar tudo aos preguiçosos dos devedores. Porque não o fariam agora, outra vez? Teremos, porém, a liberdade para fazer essa verificação?

 

 Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Foto: pesquisa web

 

01ago21

 

 

Partilhe:

1 Comment

  1. José Oliveira

    O texto do António está óptimo e só gostaria de acrescentar uma pequena “achega”. Em conversa com diversos trabalhadores sobre o sentido de voto, constatei que muitos vão votar no Desventuras, não por terem de repente passado a defensores do fascismo, mas sobretudo por estarem profundamente indignados e revoltados com as caldeiradas dos saques bancários e futebolísticos que se sucedem imparáveis e que o povão tem de pagar com língua de palmo. Assim, a subida eleitoral dos “cheganços” é fundamentalmente um claro voto de protesto canalizado para a única agremiação que vocifera contra o status quo (ainda que não apresente soluções). Os donos disto tudo agradecem reconhecidamente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.