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“Movimento Rio Douro” defende urgente melhoria da qualidade das águas endereçando fortes críticas à Agência Portuguesa do Ambiente! No estuário do Douro, com meia dúzia de praias, só na da Lomba são autorizados banhos…

Foi criado em… 2021, este ano, precisamente! É um polo aglutinador, neste caso, de 11 associações, e além de ter objetivos muito concretos, tem também, como certa, e pela frente, uma árdua luta para conseguir alcançar, pelo menos, o seu principal desiderato. De que organismo estamos a falar? Quais são os objetivos que o levam a existir?

 

José Gonçalves     Carlos Amaro

(texto)                     (foto)

 

Estamos a falar, concretamente, do recém-criado Movimento Rio Douro – MovRioDouro, uma associação que, quem a corporiza, não assume cargos específicos, e que, segundo um dos membros, Paulo Silva – com quem falámos na fluvial praia de Ribeira de Abade (Gondomar) – tem como “grande objetivo trabalhar de forma a melhorar a qualidade das águas da bacia hidrográfica do Douro”.

Paulo Silva, membro do Movimento Rio Douro

Ora, aí está a principal meta do MovRioDouro, que para ser alcançada obrigará a, como refe o nosso entrevistado, “trabalhar em quase todas as áreas que permitam melhorar o ecossistema do Rio Douro e dos seus afluentes. Isto, desde a qualidade da água – que é o essencial -, à qualidade das margens, como, por exemplo, a remoção de barreiras. E, depois, contribuir também para divulgar iniciativas de âmbito cultural associadas à vivência”.

Ao Movimento Rio Douro dão-lhe corpo, como atrás se referiu, onze associações que, como explica Paulo Silva “são de toda a bacia hidrográfica do Douro. A maioria está ‘sediada’ perto da foz do Rio Douro e de afluentes do rio também junto à foz, mas temos outras, como por exemplo de Bragança e de Vila Real. Não temos é uma internacionalização, ou seja ainda não temos associadas ao nosso movimento organizações de Espanha”.

PARA CÁ DA BARRAGEM CRESTUMA-LEVER, A ÚNICA PRAIA QUE ESTÁ CLASSIFICADA COMO ZONA BALNEAR É A DA LOMBA. TODAS AS OUTRAS ESTÃO DESACONSELHADAS A BANHOS!

A ideia e criação do movimento surgiram há relativamente pouco tempo, mas já foram desenvolvidas algumas iniciativas de alerta para os problemas que afetam as praias da bacia hidrográfica do Douro

“Na primeira iniciativa pública concentramo-nos à volta da qualidade das águas do Rio Douro, aqui no estuário mais perto da foz. Brevemente, iremos calendarizar outras iniciativas, à volta de outros rios da bacia hidrográfica”.

Qual é, então, para já, a grande preocupação do movimento e as linhas-mestras de atuação a breve prazo? “A recuperação de ecossistemas e a remoção de barreiras obsoletas, que nada contribuem para o correto ecossistema do meio hídrico. Refiro-me, assim, a tudo o que está à volta dos rios e suas envolventes, porque o rio não existe sozinho. É claro que se o rio não estiver bem… se estiver desequilibrado, não nos adianta muito fazer um cenário de equilíbrio à volta dele…” e “estamos a falar, basicamente”, salienta Paulo Silva, “de concelhos como Gondomar, Porto e Gaia”.

E, a verdade, é que, de acordo com o nosso convidado, “temos um rio que poderia ser um cenário quase paradisíaco, com grande qualidade, e não o é. A atestar isto, temos o facto da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), no estuário do Douro – em praias que estão para cá da barragem de Crestuma-Lever -, ter classificado como zona balnear somente uma praia, a da Lomba … mais nenhuma! Todas as outras estão desaconselhadas a banhos, como se pode ler ali, numa ‘micro-pequena’ placa da APA, a dizer que o banho é desaconselhado”.

 TEMOS UMA PLACA A DIZER QUE OS BANHOS SÃO DESACONSELHADOS, MAS NÃO TEMOS ACESSO A NENHUMA ANÁLISE OIFICAL DA AGÊNCIA PORTUGUESA DO AMBIENTE

As praias estão desaconselhadas a banhos, mas o desaconselho não é tão visível quanto isso. São as tais “micro-pequenas placas” que informam os banhistas. O problema, porém, não é só esse, como realça Paulo Silva.

“Não há sinalética de bandeira! Essa sinalética de bandeira, e a existência de caraterização como zona balnear, é dada pela APA. A Agência Portuguesa do Ambiente é a entidade responsável de, antes da época balnear se iniciar, fazer um conjunto de análises e, depois, classificar o espaço como zona balnear. Quem é responsável por fazer as análises nas áreas que estão classificadas como áreas balneares? É à APA. Todavia, o que acontece de estranho é que, em plena época balnear, temos uma pequena placa a dizer que os banhos são desaconselhados, mas não temos acesso a nenhuma análise oficial da APA nesse sentido. Só temos acesso ao documento relativo às áreas que estão classificadas como zonas balneares – que nesta região é a Lomba -, e a praias marítimas, quer do Porto, quer de Gaia, e de Matosinhos”.

E nessas praias da orla marítima, como enfatiza o membro do Movimento Rio Douro, também “acontecem, por vezes, problemas, como o que foi, recentemente, notícia, em Espinho, na praia da Baía… Nesses casos são hasteadas as bandeiras vermelhas, é público que estão proibidos os banhos, mas, mesmo assim, sem se saber qual razão. Há sempre uma nuvem à volta deste tipo de assuntos. Todavia, ainda mais nubloso é o que acontece com as praias fluviais, as quais são frequentadas, literalmente, por largas centenas de pessoas. Temos o Areinho de Avintes e de Oliveira do Douro, Zebreiros, Melres, e aqui, a da Ribeira de Abade, que são praias – em particular ao fim-de-semana – que, têm, cada uma delas, muita gente”.

E – o que é grave – “muita das vezes as pessoas nem sabem desta desclassificação, porque, em muitas praias, o aviso da APA encontra-se numa folha A4. Depois temos como vizinho dessa folha, uma grande placa a dizer zona de banhos delimitada com boias – por exemplo em Oliveira do Douro, em Avintes, em Zebreiros e em Melres. O que é que as pessoas veem lá? Veem umas placas patrocinadas pela APA, pelas câmaras municipais e pela agência Vodafone, a dizer para manter a distância de acordo com as regras anti-Covid. As pessoas olham para aquilo, veem em muitas delas a existência de um nadador-salvador com a sua cadeira etc. e, dessa forma, um cenário de aparente praia, de aparente zona balnear. Só que, na verdade, nenhum destes areais está classificado como zona balnear, exceção feita ao da praia da Lomba.

É importante dizer que a Lomba – que é a freguesia de Gondomar que fica do outro lado do rio, na sua margem esquerda, em frente a Melres -, é e única que, neste momento, está listada no ‘site’ da APA e aí estão disponibilizadas as análises das águas durante a época balnear… as das outras desapareceram!”.

 AS CÂMARAS ASSUMEM, QUASE SEMPRE, QUE NÃO TÊM QUALQUER TIPO DE PROBLEMA E RESPONSABILIDADE

Tendo em conta a gravidade da situação e o revelado e relevado laxismo da APA, não há quem reclame, quem alerte os responsáveis para a situação? “Nós reclamamos! As autarquias fazem o contrário”, responde Paulo Silva, explicando… “As autarquias fazem análises paralelas às águas. A ‘Águas de Gaia’, por exemplo, têm um conjunto de análises daquelas praias disponibilizadas no seu ‘site’. Só que, estranhamente, não disponibilizaram os problemas que aconteceram nas praias da zona de Francelos em plena época balnear. Não é possível, em época balnear marítima, haver um desequilíbrio sem haver um problema de um rompimento de um coletor de esgotos, ou um mau funcionamento de uma Estação de Tratamento da Águas Residuais – ETAR. O Meio tem capacidade para absorver a agressão, pelo que tem de ser mesmo uma agressão muito violenta para essa agressão se sinta nessas praias. As bandeiras vermelhas foram colocadas, depois foram removidas, e o que é que disseram à população? Nada!”

Paulo Silva recorda uma iniciativa levada a cabo em Oliveira do Douro e realça a postura da ARS-Norte.

“Nós, na primeira iniciativa que fizemos no areal de Oliveira do Douro – houve até uma notícia no Polígrafo sobre isso -, salientamos que a Administração Regional de Saúde do Norte-ARS tinha colocado uma folha A3 a dizer que foram detetadas salmonelas nas águas do areal de Oliveira do Douro, explicando que as salmonelas provocam isto e aquilo e mais aquilo e isto… Na realidade, vieram depois dizer que se calhar aquilo era pouco! Foram os únicos que responderam ao Polígrafo. As câmaras municipais fazem o contrário: assumem, quase sempre, que não têm qualquer tipo de problema e responsabilidade”.

UM PROCESSO QUASE KAFKIANO…

De acordo com os exemplos já vividos pelo “Movimento Rio Douro”, Paulo Silva chega à conclusão que “estamos num processo quase Kafkiano: temos uma organização, que é a APA, que tem a obrigação legal de fazer a classificação das praias – a maioria desaconselhada a banhos -, e depois essas praias são usadas por largas centenas de pessoas que ignoram o problema.

 Nós falámos com muitas pessoas (nas imagens acima publicadas), nas duas iniciativas que realizámos, e, muitas delas, disseram-nos que nada sabiam sobre estes alertas. Há também aquelas pessoas que dizem que ‘isto já esteve muito pior’, ou seja, a versão simplista de que ‘sempre aqui tomei banho e ainda não morri, pelo que vou continuar a tomar’.

É PRECISO QUE A A ‘APA’, A APDL E AS CÂMARAS TENHAM UM PLANO PARA FAZER UM DIAGNÓSTICO E UMA RECUPERAÇÃO DO RIO DOURO

 Paulo Silva salienta, entretanto, um facto importante, para que para as “águas” fiquem mais cristalinas quanto ao papel que o movimento de que faz parte, pretende e está já a desenvolver…

“Não estamos aqui para denegrir as praias que foram desaconselhadas para banhos. O que queremos é que essas praias tenham a qualidade exigida para permitir às populações, que normalmente são mais carenciadas – e, assim, não se deslocam para praias no sul de Portugal, ou para a orla marítima -, tenham acesso a uma praia de qualidade”.

E, então, pergunta e responde logo de seguida, Paulo Silva: “do que é que nós precisaríamos para que essa qualidade seja uma realidade?”

“Precisaríamos que as câmaras, a APA e a APDL tenham um plano para fazer um diagnóstico, e uma recuperação do Rio Douro. Eu não vou despoluir o rio, o que tenho de fazer é não poluir o rio! É não agredi-lo! Eu tenho de pegar no estuário e classificá-lo como zona sensível. A APA pode fazer isso!

AS ‘ETAR’ TÊM QUE GARANTIR UM NÍVEL DE CONTAMINAÇÃO MICROBOLÓGICA BAIXA, QUE NÃO VÁ TER GRANDE IMPACTO NO RIO, MAS ISSO NÃO ESTÁ A ACONTECER!

Quanto às ETAR, Paulo Silva defende que “têm de passar para um outro tipo de tratamento; têm que garantir que as águas, que vão colocar outra vez no rio, estão com um nível de contaminação microbiológica relativamente baixo e que não vão ter um grande impacto no Rio Douro. Isso não está a acontecer!”

O papel das ETAR é, em todos os aspetos desse processo de despoluição, ou de combate à poluição no Rio Douro, pelos vistos, fundamental, se bem que algumas delas tenham vindo a ser contestadas pelas populações devido, essencialmente, à produção de maus-cheiros, como acontece com a estação de Sobreiras, na foz do Rio Douro, e que este jornal já reportou.

De acordo com o nosso entrevistado, “a ETAR de Sobreiras, na Foz do Douro, deveria ser uma das melhores. Existem duas ETAR muito grandes ligadas ao Porto, são a de Sobreiras e a do Freixo. Essas são daquelas estações que, supostamente, em planta, têm equipamentos para fazer a desinfeção final das águas. Temos, entretanto, que separar duas coisas: o cheiro não está ligado à qualidade do líquido que as ETAR descarregam no rio. Em Gramido, também existe uma ETAR e as pessoas queixam-se, mais frequentemente, dos odores, mas os odores é algo que não está vertido no decreto-lei que invalida a qualidade das águas, e nem a qualidade microbiológica… o que é estranho!”

“As ETAR”, explica, “têm de passar para um outro tipo de tratamento; têm que garantir que as águas, que vão colocar outra vez no rio, estão com um nível de contaminação microbiológica relativamente baixo e que não terão um grande impacto no Rio Douro. Mas, isso não está a acontecer. Ou faz isso, ou temos que andar a fiscalizar as linhas de saneamento e ver se algumas delas estão a verter. Que é como quem diz: temos que criar um sistema que não permita haver uma agressão direta, ou indireta, ao Rio Douro, ou seus afluentes, nesta zona.”

TEM DE SE ARRANJAR UM SISTEMA QUE CONTROLE A POLUIÇÃO CAUSADA PELOS BARCOS TURÍSTICOS NO RIO DOURO

E Paulo Silva, destaca, então, a sua participação no movimento de defesa do Rio Tinto, que conquistou diversas metas da sua luta.

“Com o movimento em defesa do Rio Tinto, ao qual também pertenci, conseguimos que colocassem duas ETAR a descarregar diretamente no Rio Douro e não no Tinto, foi uma outra luta, e com êxitos. Mas, o que é que, agora, nós queremos no meio disto tudo? Queremos que os presidentes das câmaras não venham dizer que está tudo bem; queremos que os presidentes das câmaras não venham dizer que nada têm que fazer e que os problemas são só dos barcos turísticos, porque há dois anos que estamos em pandemia, que o tráfego de barcos, aqui no Douro, reduziu-se significativamente e os problemas continuam. Claro que a APDL tem de validar as descargas dos barcos, tem, porém, de se arranjar um sistema que controle a poluição causada pelos barcos turísticos no Rio Douro… claramente! Em termos de barcos particulares será mais difícil essa tarefa, mas quanto aos grandes barcos, eles têm de vir a ter um registo de descarga. Tem de haver uma fiscalização, porque se continuarmos a acreditar que tudo está bem, não vamos a lado algum. Se as câmaras tivessem coragem de proibir, não acontecia o que aconteceu em Espinho, ou em Gaia na zona marítima”,

“Agora”, continua Paulo Silva, “também imagino o que era em Oliveira do Douro, em Avintes, em Zebreiros, ou em Melres, chegar lá, a uma praia destas, ao fim-de-semana, e ser confrontado com a proibição de ir para o rio. Num determinado patamar, era economicamente complicado e politicamente um desastre. Por isso, qual é a solução que é encontrada? É fazer de conta que está tudo bem! Enquanto continuarmos a fazer de conta que está tudo bem, não vamos encontrar uma solução, e as pessoas que se deslocam para as praias, estarão sempre a correr um risco de saúde ao tomar banho no estuário do Douro”.

TEMOS, HÁ MÊS E MEIO, UMA REUNIÃO PEDIDA À ‘APA’, E HÁ MÊS E MEIO, REUNIÕES PEDIDAS ÀS CÂMARAS MUNICIPAIS E AINDA NENHUMA DELAS NOS RESPONDEU…

Quanto ao futuro, e a toda a luta que o Movimento Rio Douro” terá, por certo pela frente, Paulo Silva diz-se “otimista”, e isto “porque a maior parte das associações que estão connosco trabalham na área ambiental já há bastante tempo. Algumas com muita força, outras com menos força; algumas com lutas mais simbólicas, outras mais violentas… ‘violentas’ no sentido de maior confronto com o poder político, com a APA… com o Ministério do Ambiente.

Já tivemos a primeira iniciativa de expor um problema do movimento. Muitas outras ações se seguirão. A amplitude e a capacidade que acabámos por demonstrar ao fazer chegar estas notícias à comunicação social, revela-nos que isto é ouvido, porque a sensação que tenho – de acordo com um trabalho desenvolvido numa outra associação -, é que a comunicação social tem um papel preponderante. Se nós não formos ouvidos; se vocês não divulgarem as nossas ideias, os ‘outros’ vão fazer de conta que nós não existimos.

E Paulo Silva dá agora destaque à… “sala de espera”.

“Temos, há mês e meio, uma reunião pedida à APA, e há mês e meio reuniões pedidas às câmaras municipais, e ainda ninguém nos respondeu. As câmaras até entendo porque encontram-se em período eleitoral. Quanto à APA, já não consigo entender. E temos também um pedido à APDL, na mesma linha. Por isso, nós pretendemos falar com as instituições; foi e é assim que muitas associações trabalham, porque nós não conseguimos fazer nada sozinhos!”

 NÃO TEMOS MEIOS, MAS TEMOS A POSSIBILIDADE DE DENUNCIAR, DE ESCLARECER, DE SERMOS COMPETENTES TECNICAMENTE, E, ASSIM, DE NÃO DIZERMOS DISPARATES!

Sem grandes meios para poder desenvolver o seu trabalho, o “Movimento Rio Douro” tem, porém, e de acordo com Paulo Silva, a possibilidade de “denunciar, de esclarecer, de sermos competentes tecnicamente e, assim, de não dizermos disparates, e ser claros, objetivos, e também não pedir o absurdo. Não posso pedir para remover uma barragem que está a produzir eletricidade, isso é impossível! Agora, posso pedir para remover uma barreira de um rio que já não está a ter utilidade. Aqui, eu posso pedir para que comecem a estabelecer um programa de ação para que, num prazo realista, possamos ter, outra vez, todas as praias do estuário do Douro classificadas como zonas balneares… isso será a nossa vitória. Não é mais do que isso! Se o conseguirmos já valeu a pena o esforço, da mesma maneira que outros grupos conseguirão outras coisas no estuário e afluentes do Rio Douro”.

Ainda relativamente ao papel das câmaras municipais em todo este processo, o membro do Movimento Rio Douro refere que “tirando os problemas que resultam da contaminação das areias vindas diretamente da contaminação da água, até penso que as câmaras têm todas as condições para conseguirem a criação de estruturas de apoio para a recuperação dos areais. Parece-me que isso será, relativamente, fácil. Dessa forma, penso que a parte mais complicada é irmos para um nível de qualidade das águas do Douro que possa voltar a levar à classificação de todos estes areais como positivos”.

A DESCLASSIFCAÇÃO DAS PRAIAS ESTÁ, BASICAMENTE, RELACIONADA COM A CARATERIZAÇÃO MICROBIOLÓGICA

Nos últimos anos, verificaram-se várias alterações na paisagem das marginais do Rio Douro, principalmente das que dizem respeito às grandes cidades (Porto e Gaia) em termos de população a viver junto ao rio.

Com o desenvolvimento do Turismo, e consequente aparecimento de pequenos novos portos, à criação de passadiços, e outras coisas do género, tudo está diferente. Estas realidades afetam a qualidade das águas e, por conseguinte, a desclassificação das praias? Paulo Silva, responde…

“Basicamente a desclassificação das praias está relacionada com a caraterização microbiológica; com a presença de bactérias que são utilizadas como indicadores de contaminação via esgotos, que são as coliformes fecais e os e.cólicos. Os coliformes fecais não são bactérias patogénicas, mas sim um indicador de que há contaminação. São essas duas análises que são divulgadas das áreas balneares”.

“Com outras contaminações, como de gasóleo, produtos orgânicos, dificilmente o impacto será grande, mas também não são feitas análises, porque o que está em causa para a referida desclassificação são microrganismos que vêm de esgotos. Poderíamos ter aqui um problema relacionado com uma exploração agrícola, ou uma vacaria, mas não conhecemos tal situação. Ao longo do Rio Douro é diferente: existem outros problemas como a agricultura intensiva, a utilização de cobre, ou o uso de pesticidas. Mas, no caso, estamos a falar de outras coisas. Já há estudos sobre a presença de antibióticos e fármacos no rio, os quais têm capacidade para provocar alterações em muitos seres vivos, mas isso são coisas que já se sabe, já se estudam, mas não são esses indicadores utilizados para desclassificar as praias”.

SERIA INTERESSANTE QUE, NOS PRÓXIMOS ANOS, ÀS ‘ETAR’ QUE ESTÃO LIGADAS AO ESTUÁRIO DO DOURO, LHES FOSSE EXIGIDA UMA DESINFEÇÃO FINAL

Sendo assim, e de acordo com o nosso entrevistado, “temos de passar para um outro nível de exigência, que, penso, não se verificará nos próximos anos. Seria muito interessante que às ETAR, que estão direta, ou indiretamente, ligadas ao estuário do Douro, lhes fosse exigida uma desinfeção final, o que, atualmente, não acontece. A ETAR de Gramido, por exemplo, faz tratamento primário, secundário e os microrganismos vão ter em grande quantidade ao Rio Douro; a ETAR de Rio Tinto, que, agora, descarrega no Douro, faz exatamente a mesma coisa; já a ETAR do Freixo tem capacidade para fazer desinfeção. Se está a fazê-la, não sei, porque há uma grande falta de transparência na informação. Para termos acesso a informação temos de a pedir à APA. Depois, em Portugal acontece uma coisa estranhíssima: todas as análises são… autoanálises, ou seja são as próprias ETAR que fazem as análises. Só numa denúncia é que a APA intervém. Há aqui um cenário estranho”.

PRECISAMOS DE MELHORAR A FISCALIZAÇÃO, QUE É OUTRA COISA QUE O PODER POLÍTICO NÃO GOSTA

E vem, entretanto, ao de cima outra problemática questão: a cobertura de linhas de saneamento. Há concelhos nesta zona, em particular Gaia, e não tanto Gondomar, nem o Porto, que têm ainda problemas sérios quanto à cobertura de linhas de saneamento, e cuja percentagem é incipiente. Nos locais em que dizem que 95 por cento do sistema está ligado, não sei, na verdade, se isso acontece?! Esses números são apresentados de uma maneira muito subtil. Genericamente, uma ETAR precisa de remover 90 por cento da contaminação que lá chega dos esgotos, quer dizer que são 10 por cento que recoloca no rio. As pessoas acham que o esgoto é recolhido, vai para as ETAR e as ETAR recolocam no rio… água para se beber. Não, não é assim… está muito longe disso!”

Assim sendo, e para Paulo Silva, o necessário e urgente é “melhorar a qualidade desses tratamentos! Para tal precisamos de melhorar a fiscalização, que é outra coisa que o poder político não gosta porque, com ela, perde eleições. Se for, rua à rua, fiscalizar quem tem ligações ilegais cria um problema político, e tudo o que cria um problema político não é bom de tratar, é sempre mais fácil dizer quer tudo está resolvido”.

Mas, não será que as coisas evoluem, em termos de política autárquica de uma forma diferente, mais positiva?

“Aparentemente há boa vontade, mas depois, quando se analisa um problema em concreto, tudo custa muito dinheiro. E, na realidade, não estamos a falar de coisas que custem trinta ou quarenta mil euros, estamos a falar de algo que podem custar centenas de milhares, mesmo milhões, de euros. Então, as câmaras, a APA, a APDL nada fazem. É, nesse sentido, importante um plano de ação; queremos que se assuma que é necessário fazer alguma coisa para não voltarmos, o que acontece há três anos, em que a única praia classificada como zona balnear ribeirinha, nesta região, seja a da Lomba.

Praia da Lomba

 E relativamente à praia da Lomba, Paulo Silva enfatiza vários factos:

“A Lomba está validada pela Agência Portuguesa do Ambiente, e tendo em conta que foi validada, a APA destaca as águas da praia da Lomba durante a época balnear. As outras, como não as classificou… não existem! A Lomba não tem mais pessoas, nem menos, do que o areal do Areinho de Oliveira do Douro, muito pelo contrário. Ainda por cima, encontra-se num sítio de difícil acesso. E não tem mais gente que Melres! No entanto, acontece que, enquanto se conhece oficialmente as análises efetuadas na praia da Lomba, não se conhecem oficialmente mais nenhumas. A classificação é feita por um conjunto de análises antes de começar a época balnear e é, legalmente, a APA que tem essa responsabilidade, não são as câmaras”.

AS PESSOAS CORREM RISCO DE SAÚDE QUANDO TOMAM BANHO NAS ÁGUAS DO RIO DOURO!

Não são as câmaras municipais, mas estas não deixam de promover as suas praias, independentemente da avaliação efetuada… e a presença do nadador-salvador é uma das formas de promoção.

“As câmaras justificam a presença de nadadores-salvadores em zonas não balneares para evitar afogamentos. Cria-se, contudo, um cenário de que aquilo é uma praia. Vê-se o nadador-salvador; vê-se as bandeirinhas todas; vê-se no rio uma zona delimitada com boias… a que conclusão se chega? Depois, no canto da praia, há uma página A3 a dizer: Banhos Desaconselhados! Mas, entretanto, com aquele cenário todo…é praia para todos os efeitos!

E vamos ser realistas: mesmo havendo essa informação na tal página A3, e nem que fosse um pouco mais destacada, ela seria sempre desvalorizada por algumas pessoas, ou seja, pelas pessoas assumem aquela versão de que ‘eu sempre tomei banho aqui!’. A realidade diz, porém, que as pessoas correm riscos de saúde quando tomam banho no Rio Douro”, realça Paulo Silva.

O QUE FALTA PARA ESTAS SEREM GRANDES PRAIAS FLUVIAIS? ÁGUA COM QUALIDADE!

Praia fluvial da Ribeira de Abade

Já agora: quais os riscos?

“Quando existem bactérias quer dizer que existe contaminação de esgotos; se existe contaminação de esgotos pode haver toda uma panóplia de bactérias que não são analisadas, porque é impossível fazer análises a todas. E, com isso, estamos a falar de problemas de pele; de problemas nas vias oculares; estamos a falar de problemas de diarreia, e se forem, por exemplo, salmonelas ou coisas do género, a situação pode originar problemas gravíssimos e levar as pessoas ao hospital. Mas há quem tenha esses sintomas, mas não os querem associar à qualidade das águas. Aqui, junto ao rio, a água é mais agradável, é mais quente que a do mar, o vento é menos degradável que o que se sente na costa marítima, por isso, isto aqui, tem tudo para que sejam grandes praias. O que é que falta para serem grandes praias? Água com qualidade!

E o futuro é hoje, e como é hoje, pergunta-se: quais os contactos a efetuar, e com que instituições, para que a luta permaneça ativa?

“Vamos contactar com as instituições que podem agir sobre este assunto: as câmaras municipais, a APA, a APDL, o Ministério do Ambiente, ainda que a APA seja uma extensão desse ministério. Estas são as instituições com quem queremos, obrigatoriamente, falar. Esperamos ser recebidos e esperamos ter um plano. Ficaremos satisfeitos, se nos indicarem qual a estratégia para o ano. Sabemos que não se fazem milagres, por isso, temos que ser realistas, não podemos pedir o perfeito… estamos muito longe disso. Mas, temos de ir caminhando, pois se isso não acontecer, nunca mais vamos ter praias decentes no estuário do Douro”, rematou, Paulo Silva.

 

Entrevista realizada a 26 de agosto de 2021

 

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