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“O jornalismo é o oxigénio da sociedade! Sem ele a democracia esvai-se” – Luís Humberto Marcos, diretor do Museu da Imprensa, e defensor de uma… “emergência mediática”

Luís Humberto Marcos é diretor do Museu Nacional da Imprensa. Jornalista e professor na Universidade da Maia -ISMAI. Foi secretário-geral da Associação Ibero- Americana de Comunicação – AssIBERCOM. Licenciado em Psicologia, mestre em Ciências da Comunicação e Doutor em Ciências da Informação pela Universidade Complutense de Madrid, é ainda cofundador do Centro de Formação de Jornalistas, da Escola Superior de Jornalismo e da Associação Museu da Imprensa- AMI, no Porto, e do European Multimédia Forum (Bruxelas).

Mas, o nosso convidado – madeirense do Funchal -, é também organizador do PortoCartoon-World Festival e autor de vários estudos sobre história da imprensa, tecnologias da informação, censura e humor gráfico, assim como de vários projetos internacionais, entre eles, o Concurso Universitário Luso-Brasileiro de Cartoons e o Museu sem Fronteiras da Imprensa da Lusofonia, em fase de desenvolvimento.

Ora, com um curriculum destes, Luís Humberto Marcos, que iniciou a sua atividade jornalística no secular, mas já extinto, “O Comércio do Porto”, tendo passado ainda, pelo também desparecido “Diário de Lisboa”, é um homem respeitado no mundo do jornalismo, e sobre jornalismo tem, como sempre teve, ideias muito próprias, entre as quais a da “emergência mediática”, que destaca e defende.

Para além da paixão pelo Museu Nacional da Imprensa, do qual é um dos fundadores, o humor através do cartoon é para Luís Humberto Marcos algo de muito especial. Muito mais poderíamos, desde já, referir sobre a entrevista que se segue, e que deve acompanhar com a atenção devida, pois por aqui vai saber muito acerca da profissão que oxigena a democracia… e sobre o Museu Vivo da Imprensa, que é, hoje, uma referência mundial.

 

José Gonçalves            Francisco Teixeira

                                         (texto/entrevista)                       ( Fotos)

 

Esteve na fundação do Museu Nacional da Imprensa, em abril de 1977 e a partir daí, e até hoje, é o seu mais destacado diretor.

Antes de abril de 1997 já atuamos em prol da criação do Museu da Imprensa, pois tivemos que procurar espaço.

Como é que lhe aparece essa ideia de fundar um Museu da Imprensa?

A ideia surge no Centro de Formação de Jornalistas, aqui no Porto. Este é, portanto, um projeto que nasce do jornalismo. Não nasce da técnica; nasce, digamos assim, do trabalho dessa profissão que movimenta o mundo, como é, de facto, o jornalismo. Como havia algumas máquinas, mas não havia museu, começou a gerar-se a ideia de que valia a pena constituir, primeiro, uma coleção, e, depois, começou-se a pensar no museu concretamente. E nas reuniões da direção – na altura presidia ao Centro de Formação de Jornalistas -surgiu a proposta para se avançar com o museu. Havia alguma descrença: como é que nós tínhamos capacidade para avançar? Foi preciso, por um lado, sermos determinados, e foi preciso confiar nas estrelas que nos acompanham. Quando se começou a falar no projeto, começou a haver pessoas de empresas que tinham equipamentos e que mostraram disponibilidade para os doar, e, depois, era preciso encontrar um espaço adequado.

Aí aparece o primeiro problema?!

Foi o primeiro grande problema. Chegámos a ter um pequeno terreno em frente ao Centro de Formação de Jornalistas, ali na Rua das Águas Férreas, ao pé da Rua da Boavista. Depois pensamos na casa onde tinha vivido o Oliveira Martins. Chegou a ver-se se havia meios para comprá-la…

Não estava sozinho nessa caminhada?

Não, de maneira nenhuma! Estava a equipa da direção do museu, que teve como ponto de partida o Centro de Formação de Jornalistas. Aí o gene; e gere o seu próprio desenvolvimento. Como não podia ser o Centro a desenvolver isto, tivemos que formar uma associação. Associação que acaba por ser criada em 1996: a Associação do Museu de Imprensa…

Que ainda hoje existe.

Existe, claro. Ela é que é a legítima proprietária, detentora, do Museu. E a associação era, então, fundamental para se poder avançar com o projeto. O que é que fizemos? Juntámos num só, os quatro jornais centenários que existiam na altura – o “Diário de Notícias”, de Lisboa, e os três do Porto: o “Primeiro de Janeiro”, “O Comércio do Porto” e o “Jornal de Notícias” – e a associação dos industriais gráficos, que era uma associação fortíssima e que reunia os donos das tipografias…

DEPOIS DE CONSTITUÍDA A ASSOCIAÇÃO FICOU DEFINIDO QUE O MUSEU DA IMPRENSA FICARIA NO PORTO

Como o sindicato dos gráficos, que tinha muita, mas muita, força…

Sim, também. O Sindicato não chegou a entrar porque o que nós precisávamos era de máquinas, de peças. E, então, nessa altura, criou-se a associação, facto que não foi fácil. Depois de avançarmos com a criação da associação, houve a necessidade de fazer com que o museu ficasse no Porto, porque havia a possibilidade de, eventualmente, ficar em Lisboa. E houve ainda tentativas para não ser nem em Lisboa, nem no Porto, e ser em Leiria. Nessa altura, ainda não havia museu nem da rádio, nem da televisão. Então, foi acertado, em conversação com representantes do Governo, que o Museu da Imprensa ficaria no Porto, porque havia toda a razão para isso acontecer devido à história do desenvolvimento das artes gráficas no Porto. E, pronto, ficou, assim, definido. A partir daí foi, então, preciso encontrar o espaço adequado.

Qual o papel da autarquia do Porto, leia-se Câmara Municipal, no meio disso tudo?

A autarquia entra para a associação, porque o, então, presidente, Fernando Cabral, era colaborador na imprensa e por ela tinha uma grande estima. Quis entrar na associação, e fez questão da Câmara ser sócia fundadora e fazer parte da Direção. E assim se fez. A reunião foi no Centro de Formação de Jornalistas. Cria-se a associação, e a Câmara entra por causa da exigência de Fernando Cabral, que, mais tarde, até foi bastante útil, porque encontramos este espaço, que era uma ruína. O que resta, atualmente, desse edifício é a superfície. O resto era ruína que nós tratámos de reconstruir.

Isso já se passou numa outra fase do processo…

…Essa fase já se passou com Fernando Gomes, como presidente da Câmara. Quando lhe íamos dar as boas-vindas como líder da autarquia, colocámos, logo em cima da mesa, a hipótese de ficar com este espaço, que estava completamente abandonado. Sabíamos, de antemão, que era da Câmara e que a Câmara o tinha comprado por tuta e meia.

Antes disso, eu vim aqui, a este local, com o senhor que dele tinha conhecimento – o senhor Hermenegildo. E isto porque andávamos à procura de um sítio para guardar as máquinas que, entretanto, tinham sido doadas, e que se encontravam nos jardins do Centro de Formação de Jornalistas. Precisávamos, dessa forma, e urgentemente, de um armazém, ou de qualquer local com condições para as guardar. Sabíamos que, de futuro, a alma do Museu iria ser as máquinas, e não propriamente as paredes.

Esse senhor veio, então, aqui, a este local, comigo. Ao vê-lo fiquei assustado com a ruína em que se encontrava, mas, ao mesmo tempo, com a ideia que, no futuro, isto poderia vir a transformar-se um sítio excecional. Nesse dia tínhamos uma reunião com o presidente da Câmara às 15 horas. Antes desse encontro reuni com os meus colegas no café mesmo ao lado da Câmara e disse-lhes que tinha encontrado um sítio fabuloso. Decidimos colocar essa proposta ao presidente da Câmara, que disse nada ter para a zona, e que aceitava a hipótese, isto se nós fizéssemos, e entregássemos, o projeto dentro de pouco tempo.

Foi rápido…

Sim. O encontro aconteceu num dia 08 de março, e tínhamos de entregar o estudo prévio do que poderia vir a ser o Museu da Imprensa, até ao final do mês. Foi andar a uma considerável velocidade. O arquiteto Fernando Lanhas foi o escolhido – um grande artista, matemático e arquiteto. Foi ele que fez o estudo prévio. O Pereira de Sousa, fotógrafo do Jornal de Notícias, fez, por seu turno, os registos do local, mostrando que isto estava num estado altamente ruinoso e que precisava de uma transformação. O processo foi entregue dentro dos prazos. Acontece, depois, que as reuniões demoraram a acontecer, o que levantou alguma inquietação…

Por causa de…

…nunca mais ter havido uma reunião com a autarquia após a entrega do projeto. Viemos, então, a saber que o projeto tinha desaparecido. Quando soube disso, disse logo que não haveria problema já que depressa se entregaria uma segunda via. E pronto, a segunda via foi entregue em mão. As coisas foram-se desenvolvendo até maio de 1994, pois só nessa altura é que assinámos a escritura pública. E essa escritura tinha várias regras, várias condicionantes, uma delas é que tínhamos que abrir o museu no espaço de cinco anos, caso contrário perdíamos a concessão. Em 1997 estávamos a inaugurar o Museu Nacional da Imprensa!

HOUVE ALGUMAS RESISTÊNCIAS À CRIAÇÃO DO MUSEU

Em abril de 1977 era inaugurado o Museu.

Sim. Houve, na realidade várias peripécias que não interessa estar aqui a falar. Houve várias dificuldades. Via-se que houve algumas resistências, isto já depois da decisão. Entretanto, surge a recuperação do Palácio do Freixo. O arquiteto Távora queria arrasar completamente este espaço, e desmontar a fábrica ‘Harmonia’, deslocando-a para outro sítio, de forma a destacar o Palácio. Na altura, houve muita polémica, e este edifício, o do Museu, esteve para ser arrasado…

Mais um desafio.

Mais um desafio, verdade! Opusemo-nos. Tínhamos a escritura pública. A partir daí deu-se a inauguração…

A inauguração do… ‘museu vivo’.

Do museu vivo, onde as pessoas podiam, e podem, mexer nas máquinas, tocar, imprimir. O próprio Presidente da República, Jorge Sampaio, que inaugurou o Museu Nacional da Imprensa, chegou mesmo a fazer papel. O Museu continuava, contudo, num local inóspito da cidade. Esta era a zona mais degradada e esquecida do Porto. Era e ainda é! Trata-se, no fundo, de um polo de desenvolvimento, mas ainda tem muitas situações de ruina visível. Portanto, nunca foi um sítio bem aceite por várias pessoas. Recordo-me que alguém com responsabilidades me disse: ‘mas que loucura, levar um museu para essa zona, porque não é no centro da cidade? Isso é uma zona horrível!’ Pois, deixe passar uns anos, reagi.

Era uma zona realmente deserta, ao abandono.

Sim. E atenção que ainda não havia a Ponte do Freixo. Depois de vir a ponte, este sítio tornou-se no mais próximo do País. Tornou-se, assim, a instituição cultural mais próxima do país inteiro. Pode-se vir do norte da Galiza até ao Algarve, e pela ponte passar, e o museu está aqui à beira. A ponte do Freixo trouxe um grande desenvolvimento a esta zona e fixou, de outra maneira, o olhar sobre o próprio museu.

COMECEI NO JORNALISMO A ESCREVER RELATOS NA SECÇÃO DE DESPORTO DE ‘O COMÉRCIO DO PORTO’

Para si, um homem dedicado à comunicação social, ao jornalismo, foi, por certo, importante a criação desta instituição. E mais, quando se sabe que se dedicou, desde sempre, e com muita paixão, ao jornalismo… independentemente do valoroso percurso académico até agora realizado?

Antes de ser docente, comecei no jornalismo a escrever relatos na secção de ‘desporto’ de ‘O Comércio do Porto’, e fiz algumas coisas também para ‘A Bola’. Naquele tempo tentava-se publicar as peças em vários sítios. Entretanto, no ‘Comércio’ viram que eu gostava, tinha capacidade e jeito, e convidaram-me para a Redação. Sempre fui muito inquieto… sempre gostei de fazer coisas novas!

Já agora, é natural de onde e há quantos anos?

Sou natural da Madeira, do Funchal. Tenho aquela idade que é a idade dos sonhos já feitos e dos muitos que ainda vou fazer. (risos) No ‘Comércio do Porto’ comecei, então, a fazer várias coisas.

A paixão pelo jornalismo, já vinha da Madeira?

Não. Por lá, gostava muito de escrever. Tive um bom professor de português.

O percurso académico foi feito em paralelo com o do jornalismo?

Sim, sempre em aparelho com o do jornalismo. Fiz licenciatura em psicologia, uma vez que não havia sociologia no Porto. Achava a sociologia mais importante para o jornalismo, mas, a psicologia, para a conhecimento das pessoas, deu-me valores significativos no ponto de vista do conhecimento da sociedade. Estive no Comércio do Porto até 1976. De realçar que ‘O Comércio’ foi o primeiro jornal a declarar-se em autogestão, isto em 1974/75. Nessa altura também escrevi teatro… umas peças. E depois, em 1976, fui convidado para fazer um estágio no ‘Le Monde’. Sou dos primeiros jornalistas a fazer estágios no estrangeiro.

O SINDICATO É MELHOR QUE A ORDEM. A ORDEM É PARA OUTRO TIPO DE PROFISSIONALISMO

Um mundo completamente diferente?!

Tive uma experiência magnífica no ‘Le Monde’. Mas, antes, houve um problema, quando, no ‘Comércio’, não me deixaram fazer um estágio de valorização senão em férias. Ter que meter férias para fazer formação?! Achei aquilo muito esquisito. Como já tinha um convite para ir para o ‘Diário de Lisboa’, fiz a rescisão. Quando cheguei de Paris fui para o ‘Diário de Lisboa’, mais concretamente para a delegação no Porto. Não me esquecendo do ‘Comércio’, escrevi uma carta de despedida, feita em estêncil, pois ainda não havia fotocopiadoras.

Entretanto, fui fazendo o curso de psicologia, para, mais tarde, ir para Lisboa e lá ficar durante algum tempo. Por lá fiz uma coisa que gostava muito: a cobertura de campanhas eleitorais. Aliás, o ‘Diário de Lisboa’ foi o primeiro jornal a seguir os líderes partidários, no início da década de 1980, e isso foi muito interessante. Fiz entrevistas muito variadas… ‘fiz’ o Parlamento. Depois também fui dirigente sindical, estando presente em diversas conferências internacionais…

… pelo Sindicato dos Jornalistas?!

Sim.

Que, na altura, funcionava.

Sim, funcionava. Fizemos a primeira manifestação…

… contra a Ordem de jornalistas?

Não! Já, na altura, se dizia que era melhor o Sindicato que a Ordem. A Ordem é para outro tipo de profissionalismo. Recordo que a primeira manifestação que fizemos foi a seguir ao 25 de Abril de 1974, no 1.º de Maio, em que dizíamos: ‘Abaixo a Censura Interna!’, porque começou a haver uma certa censura interna…

…diz-se que perdura.

E parece que perdura! E, então, recordo-me de um chefe de redação ter dito algo assim: “mas, o que é isso de censura interna?”, e eu só lhe respondi “abaixo a censura interna! (risos). Senti-me bem no ‘Diário de Lisboa’, mas, uma vez na capital, diga-se que não gostei muito do ambiente… do ambiente de Lisboa. De um dia para o outro tive de decidir: ou vou definitivamente para o Porto, ou fico definitivamente em Lisboa, porque não podia vir para cá todos os fins-de-semana… era uma vida complicada, principalmente, a nível familiar. Quando cheguei ao Porto decidi não voltar para Lisboa. E fiquei no Porto, onde já se tinha criado o Centro de Formação de Jornalistas (CFJ), resultado do segundo Encontro de Jornalistas do Norte, em 1982, no qual eu tinha estado envolvido. O CFJ é criado em 1983, e depois, em 1985, venho de Lisboa e decidi, como referi, ficar no Porto. É no seio do Centro de Formação de Jornalistas que se desenvolve este projeto, o projeto do Museu Nacional da Imprensa.

COM A ESCOLA SUPERIOR DE JORNALISMO SURGEM AS MULHERES NAS REDAÇÕES. HOJE, ELAS JÁ SÃO A MAIORIA!

Entretanto, surge a Escola Superior de Jornalismo do Porto…

A CFJ cria a Escola Superior de Jornalismo, da qual também fui sócio e fundador.

E que cria uma geração de jornalistas que está, aí, a liderar ou chefiar projetos. Aparece, nessa altura, uma grande fornada de jovens mulheres que até, então, não se viam nas redações.

Exatamente. Olhe, a Fátima Campos Ferreira foi minha aluna, e surgir na primeira fornada. E é verdade o facto de, até então, as redações terem muito pouco mulheres. Hoje, elas já são a maioria. E é bom que isso aconteça.

Algumas já chegaram (e bem) a diretoras.

Finalmente! Aliás, hoje em dia, há muitas diretoras. Só o grupo ‘Global’ tem logo duas: a Inês Cardoso (Jornal de Notícias) e a Rosália Amorim (Diário de Notícias).

NÃO HÁ HUMOR SEM IMPRENSA

Regressando ao Museu. Como é que ele surge em termos de construção, como algo de palpável?

O Museu Nacional da Imprensa teve mais apoios fora do Porto do que dentro dele. As entidades, eram de fora. Os ministros da Cultura e os presidentes da República vieram cá todos, isto depois dele se ter criado. Antes da criação, só o Presidente Mário Soares, pois tinha assistido ao miniprojeto que lançámos no Palácio de Cristal. Este projeto tem uma diretriz própria. Este foi um Museu que nasceu ligado ao Humor…

Aí, o PortoCartoon.

Aí, o Porto Cartoon, mas logo no dia em que inaugurámos o Museu, foi também inaugurada uma exposição de humor. Muito antes do PortoCartoon.

Humor é, para si, algo de muito importante?!

Sim. A vida sem o humor, é uma vida desenxabida. O humor faz-nos sempre vibrar e acreditar que há mais mundos para além deste.

“A vida sem humor, é uma vida desenxabida”

Por isso, a relação umbilical do Museu Nacional da Imprensa com o PortoCartoon. Verdade?

Exato. O PortoCartoon é criado em 1998, ano em que se lança. A primeira exposição é realizada em 1999 – com a presença do Presidente da República, Jorge Sampaio, na inauguração -, que é dedicado ao tema dos ‘Oceanos’, tema esse relacionado com os ‘Descobrimentos’.

O PortoCartoon nasce porque não há expansão do humor sem a Imprensa. O grande veículo da expansão do humor no mundo começa por ser a Imprensa através da litografia. A arte da pedra litográfica veio permitir que os jornais publicassem estórias humorísticas porque a impressão era relativamente fácil nas tais pedras litográficas. Até aí eram gravuras pequeninas.

É por isso que surge uma grande figura como Daumier e o próprio Rafael Bordalo Pinheiro, que faz os seus jornais com pedras litográficas. Portanto, não há humor sem Imprensa. A partir daí criámos uma ligação fortíssima. O humor tem de estar neste Museu, não só porque é da sua matriz que ele nasce, como também é uma outra forma de ver o Museu da Imprensa. Desenvolvemos o Museu com estas duas valências: com a maquinaria e com o humor.

Georges Wolinski

Por isso o Wolinski adorava vir cá ao Museu. Ele chegou a sugerir ao ministro da Cultura de França que fizesse lá um museu idêntico a este, em que o Humor convivia com a Tipografia.

Ele foi, durante onze anos, presidente do júri do PortoCartoon. Ele morre assassinado a 07 de janeiro de 2015, no massacre terrorista efetuado ao jornal ‘Charlie Hebdo’. O último PortoCartoon que ele veio foi em 2014, precisamente no ano em que inaugura-se a Casa do Cartoonista, hoje, com o nome de Wolinski. E foi ele mesmo a inaugurá-la. Era para ele ficar, no ano seguinte, a passar uns dias. Adorou a ideia, pois era a primeira casa dedicada ao cartoonista a nível mundial. É um apartamento belíssimo, com uma grande sala e um terraço virado para o rio Douro, e com todas as comodidades mínimas, indispensáveis, para ali se viver. Já vieram vários cartoonistas lá passar alguns tempos.

Relativamente ao PortoCartoon, Jorge Sampaio estava reticente: ‘acha que isso anualmente vai vingar?! Vamos ver…’ O que é certo, é que pegou e tornou-se num dos maiores certames de humor a nível mundial. A maioria dos grandes cartoonistas está aqui connosco.

QUEREMOS QUE O MUSEU DA IMPRENSA FAÇA DE PORTUGAL O PAÍS DE GUTENBERG

Essa relação forte com o humor, fez com que o próprio Museu tivesse uma outra forma de ser entendido. Associámos a isso as miniaturas. São posteriores e são arte. Temos a maior coleção de máquinas. E ainda associamos depois a este projeto vivo, uma outra dimensão que o singulariza: é um Museu que quer ser o Museu de Gutenberg. Ou seja, quer fazer de Portugal, o país de Gutenberg… assim é que é! E por quê? Como é que isso se consegue? Não apenas pelo património que temos aqui, mas porque estamos a criar núcleos em vários sítios, onde há história e há memória.

Que futuramente poderá ser uma rede?!

Exatamente. Uma rede com núcleos concretos.

Autónomos?

Autónomos… sim. Ligados a nós, mas com autonomia ligada à região a que pertencem. Começámos com o de Celorico de Basto, foi o primeiro, em 2001, que fica perto da Biblioteca do atual Presidente da República, e, depois disso, o Museu da Imprensa da Madeira, que é um projeto nosso, que está em Câmara de Lobos. Em outubro do ano passado, inaugurámos um outro núcleo, desta feita, em Lousada, e estamos a pensar na inauguração de mais museus. A filosofia inerente a isto, é que, de facto, um museu é um polo irradiador de cultura. E, portanto, se eu criar ‘braços’ ele irradia muito mais. Como? Analisando a história das regiões.

É o “singular” que identifica o Museu …

Que o singulariza, sim. E que faz uma coisa que é muito importante nas regiões e do ponto de vista cultural: valoriza o património! Isso é importante para as escolas; é importante para a população. As pessoas, às vezes, não sabem o valor que tem, e que teve, o seu território. O património da Imprensa tem um papel extraordinário no desenvolvimento das regiões. Nós, ao falarmos da importância da Imprensa em cada um dos núcleos, estamos a falar da importância daquilo que é a matriz dinamizadora das próprias regiões onde eles estão.

Estamos abertos a fomentar esta atividade! Temos diversas máquinas. O nosso armazém está cheio de máquinas. Não vamos aumentar muito este espólio, e assim, espalharemos pelo país algumas máquinas, sempre tendo em conta a importância de algo que é caraterísticos deles. Por exemplo, em Lousada, descobriram uma peça, que nós fomos ver o que era, e a partir dessa peça criámos um núcleo. Na Madeira, a mesma coisa. Lá, havia muitas peças, e temos um museu fantástico, muito bonito e muito singular.

Isso capta o interesse de outras pessoas para também dinamizarem a ideia…

Exatamente, e com a particularidade de que não nos interessa ter núcleos parados, núcleos em que as pessoas vejam uma vez e à segunda digam que já tinham visto aquilo… ‘já visitei’! Não! Ligamos, então, esse núcleo a nós, através de exposições temporárias que vamos levando, e isso é o que aconteceu e está a acontecer. Aconteceu na Madeira, em Celorico e em Lousada, e a ideia é criar uma dinâmica que vai permitir a circulação da cultura, e o prazer da cultura se vá desenvolvendo de núcleo para núcleo. A descentralização cultural efetiva pratica-se desta maneira. A nossa ideia é ampliar o Museu, progressivamente, para fazer de Portugal o país de Gutenberg. Portugal é o único país, neste momento, que pode fazer uma coisa destas. Por quê? Porque há memória, e ainda há muitos equipamentos que estão, minimamente, protegidos.

TEMOS A IDEIA DE CRIAR UM MUSEU SEM FRONTEIRAS, OU SEJA O MUSEU DA IMPRENSA DA LUSOFONIA

‘Portugal, o País de Gutenberg!’ Será essa a bandeira dos 25 anos do Museu Nacional da Imprensa?

Podia ser…

As comemorações, a realizarem-se, serão já para o ano.

Sim. Para já temos esses nossos núcleos, e a ideia é para o ano termos mais um… estamos a preparar isso. Esta mesma ideia avançou para uma outra, que é ainda mais germinal, ou seja, a de criar um museu sem fronteiras… o Museu da Imprensa da Lusofonia. Já falámos com todos os países da lusofonia, e já assinámos um protocolo com os responsáveis desses países…

Mostraram-se recetivos?

Sim, mostraram-se recetivos. Mas, se a nossa ideia, a nível nacional, de criar uma rede, é muito difícil… criar uma a nível internacional mais difícil se torna. Já falámos com a CPLP; já desenvolvemos variadíssimos contactos, mas a Cultura para muitos países não é prioridade…

E a Imprensa, por vezes, assusta certa gente…

Já temos o registo de algumas máquinas de Cabo Verde, de Moçambique, de Angola e de São Tomé… do Brasil – claro!-, somos países irmãos. Fizemos protocolos a vários níveis. Temos, assim, procurado fazer com que a descentralização não seja só nacional, mas também internacional. O Museu tem vários eixos, e é nessa multivariedade, nessa riqueza variada, que ele, no fundo, se vai impondo; se vai singularizando a nível nacional e internacional. Agora, este é um projeto com muito futuro…

TODOS OS JORNAIS SÃO UMA LUZ FUNDAMENTAL PARA A SOCIEDADE…

Têm apoios? Parceiros?

Não temos muitos. Todas as iniciativas que saem do Museu têm de ser apoiadas. O Museu é uma associação sem fins lucrativos. Eu próprio sou voluntário. Sou diretor, mas sou voluntário. Tenho a minha atividade, tenho o meu sustenho. O meu sustento afetivo é o Museu. O meu sustento material é a minha vida académica.

Quando se fala em atividade local, fala-se também, e por certo, no jornal da paróquia – o jornal ligado diretamente à Igreja?

Claro! Todos os jornais são uma luz fundamental para a sociedade.

Mesmo os controlados pelos caciques?

Bem, esses podem ser um perigo, uma ameaça à democracia. Nesta época de populismos podem ser terríficos.

Mas, eles existem?!

Existem! Mas, quanto mais consciência social houver, mais protegidos estaremos.

TEM-SE FALADO DA EMERGÊNCIA SANITÁRIA, DA EMERGÊNCIA CLIMÁTICA… AGORA, TEMOS DE FALAR DA “EMERGÊNCIA MEDIÁTICA

 A Imprensa em Portugal tem meios para sobreviver, ou seja, para que se crie o tal jornal que represente a verdadeira liberdade de expressão?

Tem que ter! É fundamental! O jornalismo é o oxigénio da sociedade! Sem ele a democracia esvai-se completamente. Tenho defendido, ultimamente, uma ideia que estou a espalha-la por Espanha, pela Argentina e por outros sítios, que é a de defender a emergência mediática. Ou seja, tem-se falado em emergência sanitária; climática… agora, temos de falar da emergência mediática.

E os jornalistas estão preparados para isso?

Para eles, isto era uma grande tábua de salvação! Porque isso era pensar que esta situação que nós vivemos de fragilidade económica que é muito significativa, e de ainda não termos um modelo sustentável de informação eletrónica, digital…

… que está a dominar por completo a comunicação social.

Mas, é curioso também reparar que, com a pandemia ,verificámos como era muito importante a informação jornalística – Rádio, Televisão, Imprensa….

FALTA JORNALISMO DE INVESTIGAÇÃO

 Na Imprensa, o papel terá de ter outro papel?

Exatamente. Caminhamos para a atualização permanente de algumas notícias em alguns jornais…

O trabalho exclusivo, que envolva estudo, algo que seja singular, pode fazer vingar um jornal…

Por exemplo, as reportagens. Muitas delas podem ser feitas com um cheirinho digital, e depois, para se ler o trabalho completo, é lê-lo no papel.

Refiro-me ao jornalismo de investigação, que se perdeu na nossa Imprensa, isto salvo raras e honrosas exceções. Está, ou não, a faltar mais jornalismo de investigação?

Falta, e falta porque o jornalismo de investigação exige meios financeiros. É preciso disponibilizar pessoas, equipas, para isso…

Depois, não é um trabalho para amanhã…

Pode durar meses. Mas, felizmente, estão a aparecer equipas… cooperativas de jornalistas internacionais, que estão a fazer trabalhos de investigação e que depois os vendem a vários jornais. Temos tido vários casos desses.

Freelancer?!

Ultrapassa isso. Não é o jornalista sozinho, é um conjunto que faz investigações a vários níveis e que as faz para diversos jornais de diferentes países. Ora, isso torna mais rentável a própria investigação. Se não houver investigação haverá um jornalismo de fraca qualidade, porque o jornalista passa a ser o propagandista de ideias, de soluções, que são impostas por porta-vozes que controlam as situações. O jornalismo de investigação é fundamental para a sobrevivência do próprio jornalismo.

E haver liberdade para tal…

Sim.

A COMUNICAÇÃO SOCIAL É FUNDAMENTAL PARA A NOSSA EXISTÊNCIA COMO SERES HUMANOS

O apoio do Estado à comunicação social, e, no caso específico que estamos a tratar, aos jornais, pode condicionar a liberdade de trabalho nas redações?

Não. Se houver distâncias. Para a indústria e para o comércio há vários apoios e que não comprometem de maneira nenhuma as empresas.

Mas, o jornal que quer criticar negativamente algo relacionado com a atividade governamental, não está condicionado por causa desse apoio que o Governo lhe dá?

Pode ser, se não houver uma verdadeira consciência democrática! São precisas instâncias que controlem essas hipotéticas tentativas do poder controlar a imprensa. Em qualquer parte do mundo, e ao longo dos tempos, o Estado sempre quis controlar a Imprensa, porque, assim, controla o ‘oxigénio’ da própria sociedade.

Há pouco falava de “censura interna”, ainda que relacionado com outros factos e em tempos passados, mas continua, ou não, a haver essa censura?

Há estatutos editoriais. Se eu não gosto de algum estatuto editorial, vou para outro jornal, saio. O pluralismo é fundamental para esse oxigénio. Agora, que nunca seja a publicidade o poder dos apoios, que não devem ser apoios, devem ser responsabilidades sociais dentro daquela perspetiva da ‘emergência mediática’. Não são precisos apoios para evitar os problemas relacionados com o nosso clima? Não são precisos apoios para desenvolver estruturas para que a saúde dos cidadãos seja otimizada? São. Então, faça-se também isso para a comunicação social, porque ela é fundamental para a nossa existência como seres humanos.

A Liberdade de Imprensa, de expressão, não corre mais riscos nos órgãos de informação locais ou regionais, onde o poder da autarquia faz-se sentir muito de perto, assim como a presença do cacique?

É horrível. O caciquismo é péssimo…

O JORNALISTA TEM, MUITA DAS VEZES, UMA BOA FORMAÇÃO TÉCNICA, MAS, ÀS VEZES, FALTA-LHE ESTOFO ÉTICO PARA PRESERVAR OS VALORES ESSENCIAIS DA PROFISSÃO

O caciquismo também já se modernizou… também trabalha de forma eletrónica.

Exato! (risos) Há uma coisa aqui fundamental: a consciência profissional pode ser um obstáculo a isso. É preciso ter bons jornalistas; boa formação, sobretudo do ponto de vista ético. Os jornalistas não se podem deixar vergar…

Mas, o desemprego é uma chatice!

“É! Há aqui uma situação que demonstra bem a fragilidade da nossa democracia e da consciência democrática, porque o emprego não deveria ser dependente da submissão a determinados princípios que não fossem os valores da democracia; que não fosse a cedência a determinadas visões discricionárias.

O jornalismo – como está a ser gerido – parece que anda zangado com a meritocracia.

É mau que isso aconteça, e acho que pode acontecer em alguns casos. Mas, apesar de tudo, hoje, temos muito bons jornalistas; muito bons especialistas…

A formação está a ser boa?

A formação, em geral, está a ser boa. Hoje em dia, temos jornalistas muito mais bem preparados do que tínhamos há 30 ou 40 anos. Agora, os riscos podem ser, às vezes, maiores se o jornalista não tiver uma estrutura moral, no sentido ético, muito forte e muito segura para não se deixar abater. O jornalista tem, muita das vezes, uma boa formação técnica e às vezes falta-lhe estofo ético para preservar os valores essenciais da profissão.

E isso é fundamental?!

É fundamental!

HOJE VIVEMOS NUMA SOCIEDADE A QUE CHAMO DE ‘ECRÃVIDÊNCIA’”

Esta questão da falta de estofo ético discute-se, por exemplo, no Sindicato dos Jornalistas?

Penso que sim. Fazem-se debates. A verdade é que hoje os debates passaram para os ecrãs. Os debates, mesmo de grupos socioprofissionais, mais corporativos, vão parar aos ecrãs. Antigamente, os órgãos de comunicação social iam aos debates para os reproduzir, hoje, os debates acontecem dentro dos próprios meios de comunicação social. O que é curioso. Aliás, alguns são promotores de grandes debates… isso é uma outra novidade. Os jornais estão a promover debates de grandes temas que nos preocupam socialmente. Acho que, atualmente, vivemos num outro tipo de sociedade, que eu chamo a sociedade da ‘ecrãvidência’, que é, no fundo, a sociedade marcada pela informação do ecrã. O ecrã que está espalhado pelo mundo inteiro. O ecrã é a realidade… é o instrumento mais presente em todo o mundo, na atualidade.

Esperemos que não transmitam muitas “montagens”…

São riscos. Às vezes a cópia é melhor que o original.

Estamos a falar num mundo verdadeiramente complexo.

Muito complexo. E a complexidade, começa a ser uma realidade em finais do século XX, desde 1995, a partir do momento em que a internet apareceu, aí, em força… Mas, sobretudo, neste século, as transformações são brutais, exigindo sempre uma coisa que é fundamental: a capacidade de distinguir o trigo do joio.

Tudo isso é feito por pessoas… pessoas de carne e osso…

Exato, e não são todos perversos! Nós, se trabalharmos mais nessa ideia da ‘emergência mediática’, vamos ter uma sociedade em que os média são considerados um elemento fundamental para podermos respirar… e vivermos a própria democracia. Se eles, os média, não existirem é como se estivéssemos a asfixiar completamente. Precisamos fazer com que todos os poderes resultantes da democracia sintam que isto é uma emergência. Onde existe democracia é fundamental que se crie esta ideia da ‘emergência mediática’.

SABER LIDAR COM AS FONTES É UMA ESPÉCIE DE BÚSSOLA ORIENTADORA DO JORNALISMO

Há já países avançados no cumprimento da “emergência mediática”?

Estão a surgir algumas ideias interessantes. Por exemplo: quando se começa a pensar que os paraísos fiscais são um cancro que afeta toda a humanidade, já só em pensar nisso, estamos a caminhar um bocadinho nessa ideia, porque tudo isto se articula. Nós, só temos uma sociedade democrática a funcionar bem, se não houver corrupção; se não houver sítios para onde a corrupção se possa escoar como se fosse legal. É o que acontece com os paraísos fiscais! São reservatórios legais da corrupção que muita das vezes até é legal! Esta legitimação do que é ilegítimo, que algumas instâncias no mundo permitem, e até considerando que é bem-vinda, é algo de muito preocupante. Outro exemplo: a questão dos impostos. As pessoas fogem de uns países para os outros por causa dos impostos. Ora, o que cria vícios em determinados locais é, exatamente, as fragilidades legais que existem nos outros, por isso as pessoas tentam escapar-se, e vão violando e corrompendo. Se fizermos comparações com o século passado…

…tudo se modificou! A Redação física, tal como ainda a conhecemos, vai desaparecer?

A Redação vai sempre existir como órgão. Agora, poderá ficar polarizada. A Redação como aquela que eu vi no ‘Le Monde’, que tinha dezenas e dezenas de jornalistas, e que só no Centro de Documentação tinha aquilo que hoje é uma Redação inteira num jornal português… isso não vai existir.

Os centros de documentação, praticamente, desapareceram.

Está a ver?! Mas, os centros de documentação são fundamentais e, como diz, estão a deixar de existir.

Vai tudo à Wikipédia…

A Wikipédia é boa, mas só em algumas coisas. É preciso saber usá-la, porque é preciso saber usar a internet, uma vez que há muita documentação que é preciosa para os jornalistas, temos é que saber escolher as fontes. As fontes são fundamentais no jornalismo.

Sempre foram.

Exato. Desde sempre foram. Temos de saber fazer o contraditório! Se não fizermos isso seremos, sem querer, propagandistas.

A CULTURA TEM DE SER O MOTOR DA SOCIEDADE E, NESSA PERSPETIVA, A CULTURA, NO FUTURO, SERÁ O CENTRO DAS CIDADES

 Esta nova geração de jornalistas está preparada para esse tipo de técnicas, de postura… de ação?

Isso é uma das coisas que é preciso insistir. Eu insisto muito com os meus alunos. Temos um jornal com a periodicidade ‘quandocalhário’ – é editado anualmente, mas quando calhar -, que é suplemento do ‘Jornal de Notícias’, sai uma vez por ano, mas às vezes duas, e pode ser publicado em maio como em setembro, é um ‘quandocalhário” -… e nós insistimos nessa praxis: o trabalho com as fontes é fundamental. Saber lidar com as fontes é uma espécie de bússola orientadora do jornalismo, seja em papel, na rádio, na televisão ou na internet. Hoje em dia temos de pensar que temos de saber trabalhar em vários meios. O que difere é a linguagem terminal, mas a preparação é quase toda igual.

Por falar em linguagem terminal… o jornalismo temático continua em alta?! Refiro-me ao jornalismo exclusivamente ligado ao desporto, ao turismo, ou ao ligado às notícias das ‘estrelas’ da TV… etc. e tal.

Tudo o que é de nichos vai continuar. Os ‘generalistas’ são para os grandes meios de comunicação social, mas, de facto, ao nível do papel, penso que os nichos vão ser o futuro com maiores condições… Por exemplo, a ‘Vogue’ é uma revista fantástica, que valoriza a fotografia, e tem jovens. A diretora, Sofia Lucas, escreve tão bem!

Vê-se que estudam a edição.

É tudo preparado. As pessoas precisam de informação é uma necessidade humana. Se não houver informação há turbulência; há desacerto; há ansiedade…

E foi a pensar nisso, na informação, que, na realidade, surgiram as máquinas que compõem este Museu…

Até hoje, e desde os primeiros copistas, o saber foi crescendo. A democratização do saber foi-se fazendo. A exposição que temos aqui é sobre a Liberdade de Imprensa, e estará patente até setembro. Pode haver uma prorrogação,… ainda vamos ver. É uma exposição que foi inaugurada, exatamente, em abril e a ideia é que ficasse até setembro com a particularidade de, todos os meses, ter peças novas. Nós gostamos de inovar. Levamos as nossas exposições para os centros comerciais! Fomos os primeiros a fazê-lo. A cultura tem de estar onde estão as pessoas. O Museu começa com uma prova da sua descentralização: a primeira grande exposição que fizemos foi em Lisboa, no Terreiro do Paço, na Feira do Livro em 1995 ou 96… isto, antes de inaugurarmos o Museu. Portanto, apostamos na descentralização. Temos, por exemplo, e às vezes, o PortoCartoon em vinte sítios diferentes da cidade do Porto. Em estações de caminho-de-ferro, do Metro, em cafés, restaurantes, livrarias… por quê? Porque, a cultura é líquida, e o mundo mudou de tal maneira que obriga as instituições a repensarem o seu objeto central.

Sente-se satisfeito com tudo o que tem feito até agora, aqui, no Museu Nacional da Imprensa?

Sim, mas ainda é pouco.

Para o futuro, há já algo de concreto para fazer?

Temos coisas pensadas para daqui a cinco, sete… dez anos. A atual exposição começou a ser pensada há três, quatro anos, porque isto exige muita investigação. Isto, no fundo, também é jornalismo. O jornalismo é nós sabermos o tempo, e, com ele, surpreendermos o leitor. Isso também é jornalismo. Estamos no seio da mudança do mundo. A cultura tem de ser o motor da própria sociedade, e, nessa perspetiva, a cultura, no futuro, será o centro das cidades. O centro da urbanidade será marcado pela cultura. Eu referi isso já na inauguração do Museu da Pedra, que se encontra em Alpendorada, e na inauguração estava lá estava o presidente da Câmara, Manuel Moreira. O centro da vida das cidades vai ser da cultura. Pode haver outras necessidades humanas, mas a cultura, o património, a identidade das pessoas é lá, no centro, que se vão encontrar… é para aí que nós caminhamos. Pode demorar séculos, mas é aí que nos vamos encontrar. Essa, eventualmente, poderá ser a última notícia que algum jornalista há-de dar. Quando houver, se houver, o fim do mundo, o jornalista será sempre o último a desaparecer, porque tem de contar a história.

O CIDADÃO-JORNALISTA NÃO É O VERDADEIRO JORNALISTA

De jornalistas – dizem – temos todos um pouco. Lá no bairro também há alguns jornalistas… sempre com “notícias” bem atualizadas sobre a vida de cada um… chamam-lhes, pelo menos aqui no Porto, de “cuscos” ou “cuscas”…

Há informadores. Sou um bocado contra o jornalista-cidadão, pois acho que é um conceito que não se devia aceitar, até porque sempre houve informadores para os jornalistas. Uma coisa é ser informador – pode ser por câmara, ou por telefone, como antigamente…

Mas há quem confunda.

Há, mas é mau! E há jornalistas que também confundem e eu acho mau. O jornalista-cidadão não é o verdadeiro jornalista! É um informador! É importante, e é bom, que exista, porque traz coisas ‘frescas’. Como era o colaborador dos jornais que estava numa freguesia e, à distância, telefonava para a redação a informar de algo ocorrido. Era uma importante fonte. Portanto, há pessoas que são boas fontes para o jornalista… são informadores, mas não são jornalistas. O jornalista é um profissional que tem uma quantidade de regras a seguir. Desde logo, ele tem de saber o contraditório; tem de saber qual a fonte fidedigna e confrontá-la com as outras. O papel do jornalista é indeclinável, e o jornalista vai existir sempre… até ao fim do mundo.

Era bom que alguns empresários de jornais soubessem o que é realmente o papel do jornalista?

Temos algumas boas situações em termos de empresariado, mas também algumas muito deficitárias, que não honram muito o papel do jornalista. Mas, não é isso que põe em causa o jornalismo. São pequenas doenças, podem ser enfermidades, mas não afetam aquilo que é o essencial, que é o jornalismo.

O JORNALISMO NUNCA VAI DESAPARECER!

O jornalismo está, então, para evoluir seja pela vertente eletrónica, seja pela do próprio papel… nesta caso da Imprensa?

Sim. O jornalismo nunca vai desaparecer! No século passado já se dizia que a televisão ia matar a rádio, depois era a televisão que ia matar os jornais. Hoje assistimos, é verdade, à omnipresença do ecrã que não é só a televisão, mas, mesmo com isso, o jornalismo da Rádio e da Imprensa não desaparecerão. Vamos ter, cada vez mais, que funcionar em moldes cumulativos… com instrumentos cumulativos que se vão variando e, assim, valorizando as sensibilidades e as maneiras de aceder à própria informação. Vivemos numa fase complicada, porque ainda estamos à procura de um modelo, mas ele será encontrado de modo a que se não anulem uns, para se verem os outros… Não se mata, incorpora-se! Há uma incorporação progressiva e essa incorporação progressiva vai fazer valer a democracia e aquilo que é essencial, que é o oxigénio mediático para a própria democracia.

 

Entrevista realizada no passado dia 19 de agosto

 

 O MUSEU NACIONAL DA IMPRENSA VISTO E APRESENTADO PELO… MUSEU NACIONAL DA IMPRENSA

 

Fotos de 

Francisco Teixeira

Único museu vivo do sector na Península Ibérica, o Museu Nacional da Imprensa reúne um dos maiores acervos museológicos de maquinaria gráfica do mundo.

Na sala principal, dedicada a Rodrigo Álvares – o Gutenberg português – está patente ao público a maior coleção mundial de máquinas de tipografia em funcionamento: “Memórias Vivas da Imprensa”.

 

Junto destas ‘memórias’, outra coleção singular, constituída por mais de 150 miniaturas de máquinas gráficas, da autoria de Américo Jorge Silveira.

 

O Museu organiza anualmente, desde 1998, o PortoCartoon-World Festival, considerado um dos três principais concursos mundiais de humor, de acordo com a FECO (Federation of Cartoonists’ Organizations) e tem feito do humor uma das suas bandeiras. Com ele, está em desenvolvimento, desde 2008, um Roteiro de Humor com esculturas que se vão espalhando pela cidade do Porto, proclamada Capital do Cartoon. A assinatura de Siza Vieira está presente no troféu do PortoCartoon e na 1.ª peça escultórica deste roteiro.

Imagens: pesquisa Web


 

O Museu dispõe do único espaço nacional permanentemente dedicado ao Cartoon – a Galeria Internacional do Cartoon – e criou o Museu Virtual do Cartoon (www.cartoonvirtualmuseum.org).

Na sua vertente internacional, o Museu já montou exposições em Espanha, França, Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador e México, tendo celebrado protocolos de cooperação com várias instituições.

O Museu tem a particularidade de estar aberto 365 dias / ano, sob o lema do Prazer da Cultura.

 

01set21

 

 

 

 

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5 Comments

  1. Fernando Saraiva

    É realmente um Museu extraordinário.
    Com um acervo invejável que merecia da parte da tutela outra consideração.
    Esperemos que a dedicação e o empenho do seu actual Director e colaboradores, façam o milagre da regeneração e do reconhecimento.

  2. Anónimo

    Museu fantástico que não conhecia. Tem que ser publicitado. É obrigatória uma visita. Os portuenses devem contribuir para este museu. Parabéns aos fundadores.
    JLMedina
    Porto

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