Menu Fechar

Negacionista

Joaquim Castro

 

 

Que ou quem nega ou não reconhece como verdadeiro um facto ou um conceito que pode ser verificado empiricamente. Que ou quem tem tendência para a negação sistemática de ideias, propostas, solicitações, etc. O mesmo que negativista. Negar a ciência, no entanto, não é um fenômeno recente. No início da Idade Moderna, autoridades religiosas negavam os avanços científicos e as reflexões dos filósofos humanistas. No dia 22 de junho de 1633, o astrônomo Galileu Galilei, considerado por muitos o criador do método científico, recebia a sua sentença frente a um tribunal da Inquisição. Pela acusação de defender o modelo de Copérnico, em que a Terra girava em torno do Sol, Galileu foi considerado um herético, forçado a repudiar as ideias heliocêntricas e sentenciado a prisão domiciliária, além de ter a sua obra Diálogo incluída no Índice de Livros Proibidos pelo Vaticano. Pouco menos de 400 anos após esses acontecimentos, 7% dos brasileiros acredita que a Terra seja plana. O número representa um movimento que ganhou impulso nos últimos anos, o dos chamados terraplanistas, que questionam o formato esférico do planeta, noção que já era consenso inclusive na época de Galileu. Num artigo publicado no OBSERVADOR, Helena Matos escreve: “Apelo aos jornalistas: deixem de colar o rótulo negacionista a tudo e a todos que não se comportam como determina a norma do dia que, convém não esquecer, pode ser absolutamente contrária à da véspera”.

EPIDEMIA DO “NÃO É?”

Começou devagarinho, como a Covid-19, mas tem vido a afirma-se, de modo galopante, em tudo o que é conversa ou discurso. Trata-se da famigerada expressão “não é?”, que nunca esteve tão em moda, como agora. O programa “Domingão”, da SIC, é também um bom exemplo deste novo “fenómeno” de linguagem. Mas em quase todos os programas, nomeadamente os da SIC, o “não é?” tornou-se um autêntico flagelo para os telespectadores, que, ainda assim, têm paciência para ouvir o “fenómeno”. Logo pela manhã, um par simpático, formado por José Figueiras e Ana Marques, apresenta o “Alô, Portugal”, que é um exemplo tenebroso desse vício de linguagem. Atrevo-me a dizer que em cada programa o “não é?” é proferido muitas dezenas de vezes. Como é que a gerência do canal SIC não olha para este grande “fenómeno” e alerta os apresentadores para que corrijam as suas normas discursivas?

“TERIA-ME DITO”

O seleccionador nacional, Fernando Santos, divulgou os nomes dos convocados para um jogo de apuramento para o Campeonato do Mundo de Futebol, a realizar no Qatar, em 2022. Respondendo à pergunta de um jornalista, o seleccionador disse que Ronaldo estava bem. E que, “se assim não fosse, “teria-me” dito alguma coisa”. Ou seja, ele deveria ter usado a expressão “ter-me-ia dito” alguma coisa. E não é a primeira, vez que Fernando Santos dá pontapés na gramática, tal como os seus jogadores os dão, mas na bola. Embora, muitos deles, também sejam bons a pontapear a gramática. Fernando Santos, que é engenheiro de formação, tem obrigação de ser mais cuidadoso quando se dirige aos portugueses. De facto, devido ao alto cargo que ocupa, como treinador da Selecção Nacional de Futebol, Fernando Santos nem sempre usa um bom português nas suas comunicações. Por mim, fico muito decepcionado com tanto descuido nos seus discursos.

“JANTA-MOS”

Um outro fenómeno de escrita é o aparecimento de um hífen, onde ele não é devido. Há muita gente a cometer esse erro, mas também já há alguma a brincar com a situação. Recentemente, li uma publicação no Facebook que retrata os efeitos de um caso desse, com esta frase: “ERA UMA GAJA LINDA, MAS DEPOIS ESCREVEU JANTA-MOS”. Pode ser uma brincadeira, mas é sabido que uma palavra ou uma frase mal escrita ou mal pronunciada pode levar ao fim de um relacionamento amoroso ou à perda de um emprego. Nas publicações do Facebook encontro frequentemente palavras que terminam em “mos”, com um hífen antes dessa sílaba, como, por exemplo, namora-mos, convive-mos, combate-mos, participa-mos…Claro, que este é um tipo de erro, entre os muitos erros ortográficos que aparecem nas redes sociais. Parece que é nessas redes sociais que se concentra toda a ignorância sobre a Língua Portuguesa.

“BÁCINA”

Ando aqui com um “problema” que só me tem “macaqueado” a mioleira. Então, é assim: em Abril deste ano, “apanhei” a segunda dose de uma certa “VACINA”, e, como tal, fiquei devidamente “VACINADO” e com direito a certificado. No entanto, tenho sido bombardeado nas TVs, por bastantes pessoas, que dizem ter tomado a “bácina” e, assim sendo, ficaram já “bácinadas”. E outras ainda tomaram a “vácina”, ficando, consequentemente, “vácinados”… Que grande chatice; será que eu tomei a coisa verdadeira? Ou entrei na porta errada? Não sei se é efeito da dita cuja, mas até me apetece plagiar algo que li em tempos:

Dá-se tanta silabada

Neste pobre português

Que deve ser bem fixada

A pronúncia de uma vez…

(Publicação de Carlos Lebre)

UM JÃO FELIZ!

Realmente, parece que nem todos acertam com a pronúncia do apelido do João. O jovem jogador, que já jogou no Benfica, está ao serviço do Atlético de Madrid. Num jogo recente, entre o Atlético de Madrid e o Futebol Clube do Porto, para a Liga dos Campeões, transmitida pela TVI, foi evidente o desacerto, entre o narrador do jogo e o comentador. Para um, era João “Félis”; para o outro, era João “Felics”. Finalmente, o Correio da Manhã, de 18 de setembro de 2021, titulou: “Margarida Corceiro em Paris após rumores de separação de João Feliz”. Ora, já havia o João Félix, o João “Felics” e, agora, há também o João “Feliz”. Mas o nome correcto é mesmo “João Félix”, que se deve pronunciar João “Félis”. Aliás, em termos futebolísticos, há sempre muito a dizer. No jogo Estoril-Sporting, em que o Sporting ganhou por 1-0, a certa altura, o narrador ficou extasiado com o movimento de um jogador, afirmando que ele deu uma volta sobre si mesmo. Acho que ele queria dizer que o jogador rodopiou.

“ACÓRDOS” DA CATARINA

A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, falou em “acórdos” com o PS para a Câmara de Lisboa. A verdade é que o plural de acordo é “acôrdos” e não “acórdos”. Contudo, este é um erro muito comum entre os políticos portugueses. Há sempre alguma hesitação quando se pretende pronunciar o plural de acordo. Isto, porque há nomes em que o plural se forma com vogal tónica fechada, mas há outros casos em que se formam com essa vogal aberta. Na comunicação social também se ouve muito pronunciar “acórdos” em vez de “acôrdos, mas o plural de acordos deve pronunciar-se com a vogal o fechada – como acontece com o singular. Há nomes cujo plural mantém a vogal o fechada do singular, mas há outros que no plural abrem essa vogal.

Os nomes com terminação em o átono, em que a vogal tónica é o fechado, geralmente, formam o plural com alteração do timbre da vogal tónica. Assim, o o fechado passa a o aberto: corpo/corpos, ovo/ovos, fogo/fogos. Outras palavras em que tal acontece: almoço, caroço, contorno, coro, corno, corvo, despojo, destroço, escolho, esforço, forno, foro, fosso, imposto, jogo, miolo, olho, osso, poço, porco, porto, posto, povo, reforço, renovo, rogo, sobrolho, socorro, tijolo, toco, tojo, tordo, torno, tremoço, troco, troço.

Mas há outras palavras que mantêm no plural o o fechado característico do singular: acordos, adornos, bolos, cachorros, cocos, colmos, consolos, encostos, engodos, estojos, ferrolhos, garotos, globos, gostos, lobos, moços, molhos, morros, mostos, namoros, pescoços, polvos, potros, rebocos, repolhos, restolhos, rolos, rostos, sopros, subornos. Nos nomes que têm feminino, o timbre da vogal na forma feminina é o que se mantém no masculino do plural. Por exemplo: (o aberto): poça/poços; porca/porcos… (o fechado): garota/garotos; lobo/lobos…

CONEXÃO

Cada vez mais, encontro o termo conexão, em vez do termo ligação. Conectado, daqui; conectado, dali; conectado, dacolá. Qual será a razão desta mudança para uma palavra de origem espanhola? Uma ligação pode estar associada a circuitos eléctricos. Neste caso, existe a caixa de ligação, que permite a junção de cabos condutores de electricidade, através da afixação ou do aperto, por meio de pernos roscados. Os cabos também podem ser ligados, através de caixas de junção. Antigamente, não era comum chamar conexão, em vez de ligação, união. Lembro-me de que, há umas décadas, não havia manuais em português, de máquinas, automóveis e de outros utensílios.

Os manuais eram apresentados em castelhano, a que chamávamos espanhol. Nesses manuais, a palavra conexão era rainha, pelo que se tornou muito familiar e compreensiva entre os utilizadores. Mas atenção, que esta palavra, conexão, também pode ter significados mais abrangentes, como a afinidade ou a semelhança de situações. Conexão, um substantivo feminino, pode ter muitas outras definições: ligar uma coisa a outra, ligar um computador a outro, fazer a troca de meio de transporte, por exemplo, em viagens longas. No fundo, ligação e conexão são a mesma coisa.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Fotos: pesquisa Web

 

01out21

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.