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“Summa Iniuria” – Um grito de revolta do seu autor… o médico Valdemar Gomes

O médico Valdemar Gomes, um dos “rostos” do Movimento Cívico que, em 1999, encetou a contestação ao encerramento da Maternidade de Ovar e assumiu várias iniciativas e lutas em defesa do Hospital de Ovar e outras valências entretanto encerradas, como, Pediatria e Urgência-SAP. Apresentou no passado dia 18 de setembro, no Auditório do Orfeão de Ovar, o seu novo livro “Summa Iniuria, como um “grito” de indignação contra as injustiças de que é vitima há 22 anos ao ser excluído da carreira médica, como afirmou, por “ter participado ativamente neste movimento Cívico, paguei cara a minha civilidade participativa (…)”.

Pelo que, ainda hoje, “reclamo e peço justiça”, afirmou nas suas palavras finais de apresentação do livro, num Auditório cheio de solidariedade, amizade e admiração pela coragem e resistência de Valdemar Gomes, exprimida nesta sessão presidida por Djalma Marques, que falou da importância de “amar Ovar”, porque, como enalteceu, “tudo que o Dr. Valdemar Gomes tem defendido em prol do Hospital de Ovar e da preservação das suas valências tem demonstrado isso mesmo”, amar Ovar.

Djalma Marques, que deixou ainda o seu testemunho de ter nascido no Hospital velho de Ovar, referiu que como vareiro, “não podia ficar indiferente a este convite do Dr. Valdemar para apresentar o seu livro”. E a propósito da ética que tanto é lembrada no livro que foi apresentado, Djalma Marques lembrou o Dr. Mário Cunha a quem dedicou a Pós- Graduação em Direito da Medicina que obteve na Universidade de Coimbra e que, como realçou, “foi um exemplo de ética, que tanto amava o Hospital de Ovar”. Lembrou ainda, perante a surpresa em muitos dos presentes, que no antigo consultório do referido médico, “se encontra uma placa em bronze fruto de homenagem”, que o próprio lhe prestou como gratidão por lhe ter salvado a vida enquanto criança. Foi também lembrado por este orador o médico Abel Godinho”, outro médico de reconhecida dedicação à comunidade.

Das palavras de Djalma Marques ficaram igualmente mensagens que traduziram o sentimento partilhado na sala para a apresentação do livro “Summa iniuria”, ao referir que “atualmente, a maior parte das pessoas está tão perfeitamente adaptada ao Mundo que quase se torna inexistente, refletindo o carácter morno que define hoje a maioria das pessoas nos tempos que correm”, lembrando o Papa Francisco que diz que “um cristão do seculo XXI ou é radical ou não é cristão”, sendo importante hoje, referiu Djalma Marques, “mais do que nunca, lutar por ideais”, concluindo que, “a diferença entre ser humano e pessoa, sendo que seres humanos somos todos, mas que o atributo de pessoas apenas o terá quem tiver nobres ideais a pautar a sua vida”.

 “Summa iniuria” relata assim em pormenor todo o processo de desvalorização do Hospital de Ovar iniciado em abril de 1999, que começou pelo encerramento da Maternidade de Ovar e pela perda de outros meios humanos e técnicos da instituição, por decisão do poder político de então no governo, com a “colaboração ativa do Conselho Diretivo do Hospital”, como é afirmado, a exemplo dos autarcas da época. Políticas de esvaziamento de valências do Hospital Dr. Francisco Zagalo, que mereceram o repúdio das várias sensibilidades político-partidárias, dando força a transformar o movimento cívico inicial, “o mais abrangente possível, plural e independente, com a participação dos cidadãos da sociedade civil vareira”, como lembrou o seu autor, numa cronologia de acontecimentos, em que identifica a maioria parlamentar do partido socialista, que inviabilizou na Assembleia da Republica a reposição da Maternidade em Ovar.

Um longo processo de luta pelos serviços de saúde em Ovar que o médico Valdemar Gomes, Assistente Hospitalar equiparado a “clinico geral” em 1999, como denúncia, “de forma ilícita”, e sem direito a uma carreira, já que lhe continua a ser negado o direito à categoria de Assistente Hospitalar. Assume-se “vítima de violência psicológica (…) Um comportamento contra a dignidade e a integridade profissional de um médico, que apenas deseja dar o seu contributo e exercer a sua “legis artis” profissional”. Grito de revolta que atravessa o seu novo livro “Summa iniuria”, que tem prefácio de José Lopes, Miguel Viegas, Fernando Almeida e Álvaro Leite, como elementos que pertenceram ao movimento cívico de defesa da Maternidade.

Das palavras de solidariedade que marcaram a sessão de lançamento do livro “Summa iniuria”, aforismo sobre tanta injustiça e desejo de justiça, destacam-se os parabéns dados ao pai pelo filho Diogo Gomes, com 25 anos de idade, nascido na Maternidade do Hospital de Ovar, que afirmou, “o meu pai vai ganhar, porque tem razão. Deus é Grande… O meu pai é justo e muito corajoso e este livro é bem o exemplo disso”. Um sentimento de solidariedade reafirmado por vários intervenientes, incluindo colegas médicos, como Carlos Cortes, presidente da Secção Regional Centro da Ordem dos Médicos, que abordou a importância da “Saúde de proximidade”, que contrasta com politicas de centralização de serviços a exemplo da temática tratada nesta sessão, em que se manifestou sensibilizado sobre o que está a acontecer, testemunhado no livro e pessoalmente.

De todas as declarações e intervenções proferidas de forma “sentida” e “apaixonada”, como Djalma Marques começou por admitir que ali se iriam expressar, ficaram mais elementos para a História do Hospital de Ovar, que o ex-administrador desta instituição, Adelino Lopes de Almeida, sintetizou através de dados históricos vertidos da “História da Santa Casa da Misericórdia de Ovar” de Alberto Sousa Lamy. Fazendo referências da história do Hospital de Ovar “intimamente ligada à Santa Casa da Misericórdia de Ovar”, num enquadramento entre 05/10/1801, em que “o Príncipe Regente D. João (…), mandou construir um Hospital, em Ovar, (…)”, até 1966, em que segundo Adelino Lopes de Almeida, “com a complacência, se não mesmo a conivência de quem tinha por missão defender os interesses de Ovar, iniciou-se um processo de desmantelamento das estruturas do Hospital de Ovar”.

Foram testemunhos sentidos, que deixaram palavras de incentivo, reconhecimento, apoio e solidariedade, a quem continua a lutar contra as injustiças, que já não se limitam ao médico Valdemar Gomes sobre quem continuam a recair processos disciplinares. Como chamaram à atenção outros profissionais da saúde e intervenientes nesta sessão, para a falta de condições de trabalho existentes no Hospital de Ovar, Valdemar Gomes concluiu que, “impõe-se condições de trabalho condignas, favoráveis e essenciais ao cumprimento da missão de zelar pela saúde dos doentes, que tiveram sempre à sua disposição cuidados médicos diferenciados, mais atempados e de excelência, (…) porque, “urge, sobretudo, garantir a própria “sobrevivência” do Hospital, que tem grande importância geográfica, estratégica e social na comunidade local e regional”, concluindo, “Ovar é uma terra de encantar”, brindando os presentes com a projeção de imagens representativas do diversificado património cultural, social, ambiental e paisagístico, intercaladas por momentos das lutas travadas pela defesa dos serviços de saúde em Ovar.

 

01out21 

 

 

 

 

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