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Eu, o “(des)influencer”

Miguel Correia

 

Não me considero uma pessoa muito velha. É certo que nasci no século passado, mas tenho vindo a acompanhar (com algum custo) a tremenda evolução digital dos nossos dias. Quase tudo é gerido por uma qualquer aplicação no telemóvel e, pelo andar da carruagem, as poucas coisas que ainda resistem tendem a sucumbir. Se a bugiganga chinesa sabe quantas calorias queimei numa caminhada, um destes dias começa a monitorizar os intestinos e para além do aviso da vontade iminente, ainda vai indicar os sanitários mais próximos. Vai acontecer! A nossa vida passou a ser gerida por um maldito algoritmo.

Eu, na minha infinita ânsia de conhecimento, posso afirmar que não faço ideia do que seja um algoritmo. Mas, tal como as bruxas, existem e infernizam a nossa vida! A Internet parece um agente secreto ao serviço de uma entidade obscura. Pesquisaram casas no Google?! Pois muito bem, quando abrirem o Facebook vão levar com uma porrada de publicações de agências imobiliárias e ofertas de negócios que nunca imaginaram. Viaturas?! É o mesmo cenário! Tudo está interligado e talvez por isso, para evitar constrangimentos, a malta mais curiosa deve ter em atenção as pesquisas de catraias despidas. O sacana do algoritmo expõe tudo nas redes sociais e é difícil justificar algumas pesquisas…

A vida mudou-se para trás do ecrã. Qualquer “zé-ninguém” tem um canal YouTube e, segundo as estatísticas, a parolice garante audiências! Se no passado o “TV Rural” tinha interesse pela sua mensagem, nos dias que correm não durava cinco segundos aos olhos dos internautas. Teria de ser dinâmico, com repolhos falantes, beringelas dançantes e um apresentador que não faz ideia do que é uma sachola. Os canais televisivos perdem espectadores a cada mês que passa. A publicidade mudou-se para estas novas plataformas digitais – ser obrigado a assistir a dois anúncios miseráveis para conseguir assistir um vídeo no YouTube leva qualquer um ao desespero – e num mundo sem regras conseguem rentabilizar os seus produtos. As figuras públicas utilizam o Instagram como o novo fenómeno televendas. Mais que fotografias da vida pessoal, somos brindados com imagens alternativas tendo em conta o artigo a publicitar. Os seguidores apreciam e compram como se não houvesse amanhã!

Os “influencers” ficam com a conta bancária mais aconchegada e as marcas disparam as vendas. Porém, no meio de tanta facilidade, temos de recordar que é um meio hostil e agreste. Poucos conseguem reunir uma seita de seguidores, com carteiras em punho, disponíveis para cumprir a profecia das publicações. Há muitos, como eu, que escrevem para o boneco e mesmo assim ainda conseguimos perder alguns (dos poucos) leitores: os chamados (des)influencers da era digital. Para desfazer este anonimato pensei em assaltar ou dar um tiro em alguém – confesso que, numa primeira impressão, surgiram dois ou três nomes – mas, infelizmente, cheguei à conclusão que já passou na Netflix. Chama-se “Squid game”…

 

Foto: pesquisa Web

 

01nov21

 

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