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Orçamento de…

Joaquim Castro

 

 

Nunca o Orçamento do Estado foi tão maltratado, como nos últimos tempos. Desde o presidente ao primeiro-ministro, passando pelo ministro das Finanças, e por muitos outros políticos do nosso país, parecendo que lhe querem alterar-lhe o nome para Orçamento “de” Estado. Uma espécie de desmazelo linguístico, que não se coaduna com quem pronuncia erradamente o nosso Orçamento. Até há que lhe chame Orçamento Geral do Estado, como no tempo da outra senhora! Mas este mal não afeta só o nome das nossas contas. Por exemplo, a Direção-Geral da Saúde é tratada por Direção-Geral “de” Saúde. O deputado Neto Brandão, do PS, além de pronunciar Orçamento “de” Estado, em 27.10.2021, acrescentou outros dois erros, “iquelíbrio” e “desiquelíbrio”, em vez de equilíbrio e desequilíbrio. Começa a ser muito preocupante, para quem dá importância ao rigor da Língua Portuguesa, o que se passa na Assembleia da República, no que diz respeito à qualidade linguística das intervenções dos deputados. A mesma palavra pode ser pronunciada de várias formas, consoante o deputado que esteja em “exibição”. Por exemplo, “acordos”, para uns, bem; pode ser “acórdos para outros, mal; “precariedade, para alguns, bem, poderá ser “precaridade”, para outros, mal; “rúbrica”, que alguns pronunciam, mal, é pronunciada por outros, “rubrica”, bem. O rol é muito extenso, mas fico por aqui. É só ouvir os debates com atenção e reparar o que por lá se diz.

RECOMENDAÇÃO E OBRIGAÇÃO

O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, declarou, na SIC, em 24 de outubro de 2021, que os paraquedistas não puderam cantar o hino “Pátria Mãe” durante o desfile do Dia do Exército, realizado na cidade de Aveiro, por recomendação das autoridades sanitárias. Ora, o que é uma recomendação? As recomendações não são normas, portanto, não são vinculativas. Ninguém é obrigado a obedecer a uma recomendação. Nesse caso, vale o sentido literal do nome.

A recomendação teria a intenção de os paraquedistas não espalharem o vírus, através do cântico. Por outro lado, se assim fosse, também o Hino Nacional não poderia ter sido cantado, como o foi. Além do valor das palavras, há também uma falta de coerência, pelo atrás referido. Resumindo, recomendações são, nada mais, nada menos, do que pareceres dos órgãos consultados que orientem os profissionais de como aquele órgão entende ser a melhor maneira de proceder com determinada atividade e os quais, caso seguidos, espera-se evitar qualquer intercorrência prejudicial ao trabalho.

Num hipermercado que frequento, em Ovar, há meses, que ouço uma recomendação gravada em áudio, mas que se transforma em obrigação. Eu explico. A mensagem diz: “para sua protecção, cumpra as seguintes recomendações”. Bom, se dissesse “siga as seguintes recomendações”, seria aceitável. Mas o “cumpra as recomendações”, já é uma obrigação. É uma contradição.

A PRETO E BRANCO

Nos meus tempos de escola primária, nos anos 50 do século passado, aprendi que havia quatro raças humanas: Branca ou caucásica, negra ou africana, amarela ou asiática e vermelha ou americana. No dia 23 de outubro de 2021, ouvi, na Antena 1, o apresentador de um programa musical referir várias vezes a expressão “cantor preto”, falando de música americana. Vivi em África 15 anos, sabendo que há africanos querem ser tratados por negros, a esmagadora maioria, mas há outros que querem ser tratados por pretos. Tenho um amigo africano, que diz ser mais apropriado referir as pessoas por negras, pois, diz, “existe a raça negra, mas não existe a raça preta”. Portanto, desconheço o critério que levou o apresentador da Antena 1 a falar em cantor preto, em vez de cantor negro. A minha preferência vai para negro, ou negra, e não para preto, ou preta.

“FOSSÉIS”

As autarquias e outras entidades deveriam garantir que as mensagens colocadas em espaços públicos do seu domínio, quer de publicidade, quer outras, sejam escritas em bom português. É absolutamente confrangedor ler essas mensagens, quando contêm erros ortográficos ou de forma. No dia 24 de outubro de 2021, foi confrontado com o termo “fosséis”, em vez de “fósseis”, no placar de uma exposição relativa a dinossauros, numa cidade do distrito de Aveiro. Aquele conteúdo não deve ter sido escrutinado pela autarquia que autorizou a exposição, de carácter cultural e científico, em espaço público. Que imagem se dá dos promotores e dos licenciadores, que permitem que se escreva “fosséis”, em vez de “fósseis”, que é a forma correcta de a escrever? Provavelmente, nem todas as autarquias terão funcionários com a função e a capacidade de zelar pelo bom uso da nossa Língua. Tanto mais, que tenho visto placas, nomeadamente, de anúncios e de execução de obras, que, sendo de sua autoria, aparecem com erros ortográficos e de forma.

UM JOÃO FELIZ

Este caso já tem sido abordado aqui. Mas, realmente, parece que nem todos acertam com a pronúncia do apelido do João. O jovem jogador, que já jogou pelo Benfica, está ao serviço do Atlético de Madrid. Num jogo recente, entre o Atlético de Madrid e o Futebol Clube do Porto, para a Liga dos Campeões, transmitido pela TVI, foi evidente o desacerto, entre o narrador do jogo e o comentador. Para um, era João “Félis”; para o outro, era João “Felics”. Finalmente, o Correio da Manhã, de 18 de setembro de 2021, titulou: “Famosos – Margarida Corceiro em Paris após rumores de separação de João Feliz”. Ou seja, nem “félis”, como se deve pronunciar, nem “Félics”, como não se deve pronunciar, mas “Feliz”! Que grande baralhada. Não compreendo de onde vem a dúvida, no que diz respeito à forma correcta de pronunciar “Félix”, ou seja, “Felics”.

“SOUDADE” VAI-TE EMBORA!

Saudade, vai-te embora do meu peito tão cansado/Leva para bem longe esse meu fado/Ficou escrita no vento esta paixão/E à noite o vento é meu irmão. Esta é parte de uma letra de uma música cantada por Amália Rodrigues. Contudo, a grande fadista portuguesa pronuncia “soudade”, vai-te embora, tal como outros cantores, que, geralmente, também pronunciam “soudade”, em vez de “saudade”, a forma correcta. Curiosamente, a irmã de Amália, a também fadista, Celeste Rodrigues, falecida, não há muito tempo, canta igualmente esse fado, mas pronuncia “saudade”, pelo menos, no disco que ouvi. No caso dos fadistas mais recentes, o uso da palavra “soudade” também está muito enraizada. Se gravada, uma música será sempre reproduzida com a “soudade”, uma palavra que não existe. A mais próxima desta palavra é a “sodade”, que se usa em Cabo Verde. Assim, este erro perdura, sempre que alguém o ouve, o que não deixa de ser um constrangimento para muitos ouvintes.

QUAL CRISE?

O actual estado da política em Portugal, com a anunciada dissolução do Parlamento, após a rejeição do Programa do Governo, apresentado na Assembleia da República, está a ser tratado como uma crise. Mas qual crise? De facto, tudo se está a passar de acordo com o estabelecido na Constituição da República Portuguesa, aprovada no Parlamento. Seria uma crise se algo se passasse fora dos preceitos da nossa Lei Fundamental, se houvesse um desvio do estabelecido na Lei. Portugal e os portugueses têm passado por muitas crises, ao longo da sua História, mas esta de eleições antecipadas, não é uma crise. É uma situação normal.

Em 1962, tinha eu 15 anos, e vivia em Luanda. Nessa altura, sim houve uma crise mundial, que eu segui com paixão e com temor. Foi a chamada Crise dos mísseis de Cuba, entre os Estados Unidos e a União Soviética. Foi um confronto que durou 13 dias, em que o Mundo esteve à beira de uma guerra nuclear, o que, felizmente, não chegou a acontecer. Essa crise surgiu em consequência da fracassada invasão da Baía dos Porcos, de 1961, e a presença de mísseis balísticos dos Estados Unidos, na Turquia e em Itália. Por isso, e por comparação, considero que em Portugal não há qualquer crise política e que está tudo sob controlo.

MODERNICES ORTOGRÁFICAS

Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia.

De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa.

Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim.

São muitos anos de convívio.

Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes CCC’s e PPP’s me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância.

Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora:  – não te esqueças de mim!

Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí.

E agora as palavras já nem parecem as mesmas.

O que é ser proativo?

Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato.

Caíram hifenes e entraram RRR’s que andavam errantes.

É uma união de facto, e, para não errar, tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em ‘há de’ há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem.

Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os EEE’s passaram a ser gémeos, nenhum usa (^^^) chapéu.

E os meses perderam importância e dignidade; não havia motivo para terem privilégios. Assim, temos  janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião.

Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.

As palavras transformam-nos.

Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos.

Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum objeto.

Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um C a atrapalhar.

Só não percebo porque é que temos que ser NÓS a alterar a escrita, se a LÍNGUA É NOSSA…? ! ? !

Os ingleses não o fizeram, os franceses desde 1700 que não mexem na sua língua e porquê nós?

(Enviado por José Amaral)

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Fotos: pesquisa Web

 

01nov21

 

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