Maximina Girão Ribeiro
Visitar a “cidade dos mortos”, pode parecer mórbido mas, a história da cidade também lá está representada, porque aí se encontra uma variedade incomensurável de referências relevantes, sobre os que lá repousam no sono eterno, assim como uma forma de linguagem representada em símbolos diversos, patentes em todo este vasto património cemiterial, rico em mausoléus, túmulos, arcas tumulares, jazigos, campas…
Em Portugal, as populações menos esclarecidas ofereceram resistência à criação de cemitérios públicos. A 21 de Setembro de 1835, foi publicado no Diário do Governo e, por iniciativa de Rodrigo da Fonseca Magalhães, o Decreto-Lei nº 442205, que proibia os enterramentos dentro dos edifícios religiosos e na sua envolvente próxima, obrigando à existência de cemitérios públicos, em todas as povoações do País, tendo em conta a defesa da salubridade pública e a necessidade de observação de normas sanitárias.
Por sua vez, as classes dominantes e com mais possibilidades económicas, aceitaram o cemitério como um espaço privilegiado para ostentarem o seu estatuto social, para além da sua morte, exibindo a importância que tiveram em vida, através da heráldica tumular (escudos e brasões), na estatuária alegórica, numa profusa ornamentação de motivos variados, nos epitáfios fúnebres e nas esculturas quase em tamanho real, representando o falecido. Tudo isto com o desejo de perpetuação do seu nome e o da sua família.

Neste sentido, este cemitério do Porto encerra uma das melhores colecções de arquitectura e escultura em que sobressaem as obras da autoria de Soares dos Reis e Teixeira Lopes.

Não é obrigatório que os cemitérios sejam vistos como lugares tétricos e lúgubres, pois, para lá da saudade, dor e sofrimento, aí se encontram a História e as “estórias” humanas, dignas de serem conhecidas, bem como as referências artísticas e arquitecturais de enorme valor. O cemitério do Prado do Repouso é, também, um museu a céu aberto, em que a arte funerária predominante é o neogótico, com a utilização do granito e a monumentalidade das representações, sobretudo dos jazigos-capela. Por todos estes motivos, está hoje muito em voga o turismo cemiterial, existindo mesmo uma rede europeia a que pertencem 179 cemitérios de 22 países, que fomentam as visitas guiadas a cemitérios.
Neste artigo, o que mais destacaremos é a capela mortuária do primeiro cemitério público do Porto, instalado num terreno que pertenceu a uma quinta de recreio da Mitra, conhecida como Quinta do Prado do Bispo. O cemitério foi fundado em 1839 e benzido, no mesmo ano, pelo Bispo D. Frei Manuel de Santa Inês.

A capela do Prado do Repouso localiza-se perto da entrada sul, que fica junto do Largo Padre Baltazar Guedes, e foi, há relativamente poucos anos, alvo de obras de conservação e restauro no interior e exterior. Tratou-se de um restauro e reabilitação da cúpula, bem como das artes decorativas, nomeadamente dos gessos e estuques, do interior.
Esta capela não é mais do que aquilo que restou de um enorme edifício, mandado erigir pelo bispo D. António de S. João de Castro (à frente da diocese do Porto, entre 1799 e 1814), que tinha em anexo uma igreja sob a invocação de S. Victor. O edifício foi construído para servir de Tribunal do Santo Ofício, que não exista na cidade, mas que também nunca chegou a funcionar e seria, igualmente, destinado para instalar um Seminário.
Mas, com as novas ideias políticas do Liberalismo e as muitas vicissitudes que a cidade foi sofrendo, o projecto acabou por não ser concluído sendo, mais tarde, derrubados o que existia dos edifícios, pois com as Guerras Liberais, entre 1832 e 1833, por iniciativa do prelado D. João de Magalhães e Avelar, o local foi abandonado e os edifícios incendiados, durante o Cerco do Porto, ficando apenas uma capela que é, hoje, a capela a que nos referimos e que, segundo estudos efectuados, é o que restou de uma das capelas do topo do transepto, do lado do Evangelho, da inacabada igreja de S. Victor. Assim, o projecto de construção de uma capela mortuária, feita de raiz, a localizar-se no fundo da avenida do cemitério, onde se encontra o Cristo Crucificado, nunca chegou a ser realizado e, a capela antiga, acabou por ser utilizada para este fim.

Interiormente de planta octogonal, a decoração é de estilo neoclássico, sobressaindo o pavimento de composição geométrica, a partir da utilização de pedra calcária de duas tonalidades, segundo as características do classicismo italiano. A decoração, à base de estuques brancos e dourados e de ornatos variados, são atribuídos a Luigi Chiari, artista italiano que trabalhou no Porto, na viragem do século XVIII para o século XIX.

Não podemos deixar de realçar a figura de Luigi Chiari, um artista italiano que deixou marcas relevantes, no neoclassicismo, em Portugal pois, como homem multifacetado, trabalhou como arquitecto, cenógrafo, entalhador, ornatista, pintor, decorador,… No Porto, deixou obra em numerosos locais, destacando-se a decoração da Sala de Jantar do Palácio das Carrancas (actual Museu Nacional Soares dos Reis), ou os estuques da Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco, considerada a mais interessante decoração neoclássica no Porto, com a qual a capela do Prado do Repouso possui algumas semelhanças. Trabalhou também em Lisboa, como cenógrafo, no Teatro de S. Carlos e teve ligações com a Corte portuguesa, sendo o autor do túmulo da Rainha D. Maria I, na capela-mor da Basílica da Estrela (1821-22), entre muitos outros trabalhos de grande mérito.
Com as obras de restauro desta capela mortuária, procedeu-se à intervenção de vários objectos já muito danificados, como quatro tocheiros, atribuídos a Luigi Chiari, assim como o altar e toda a zona envolvente, incluindo o Cristo crucificado e a porta do sacrário, onde se descobriu a pintura original, podendo agora ver-se o ostensório, ou seja, o receptáculo que guarda a hóstia antes de ela ser apresentada aos fiéis.
Como curiosidade, lembramos que nesta capela do Prado do Repouso está colocado um oratório, retirado em 2012, do Mercado do Bom Sucesso, na altura em que se procedeu à reconversão deste equipamento urbano. O oratório alberga a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, venerada pelos vendedores que a Ela recorriam pedindo sorte e sucesso, num quotidiano sempre incerto, ligado aos negócios.
Termino, frisando o lado histórico do Cemitério do Prado de Repouso e a necessária descoberta do muito que por lá podemos encontrar.
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01jul22