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A cobertura da guerra

António Pedro Dores

 

A guerra moderna é sempre a respeito dos direitos de exploração da Terra e dos seus recursos, incluindo os recursos humanos. Os combustíveis fósseis são, frequentemente, motivos de discórdia. Outro motivo de conflito são os mercados – os financiadores e os consumidores. Pensou-se – erradamente – que um sistema financeiro globalizado pacificaria a humanidade. As populações que vivem relativamente imunes às flutuações dos mercados contrastam com as populações à mercê das fomes e das deslocações forçadas que dão lucro aos mercados. As primeiras estão em condições de ajustar os respectivos modos de vida, cortando se for caso disso em bens supérfluos. As segundas são inelásticas: os rendimentos disponíveis não chegam para manter uma vida digna e segura.

A falência do sistema financeiro global, em 2008, tornou claro para os portugueses que o nosso país, apesar das profundas transformações das últimas décadas, continuava pobre. Mesmo as pessoas de mérito, como os jovens licenciados, perderam as ilusões de poder manter uma vida digna, sem cumprirem o fado dos nossos antepassados recentes, como os emigrantes e refugiados da guerra colonial (também conhecidos por refratários) dos anos 60. Uma onda de emigração em volume semelhante repetiu-se em Portugal, na segunda década do novo século, levando, entre outros, enfermeiros e médicos cuja falta se faz hoje sentir de modo dramático na redução da esperança de vida e na inversão da curva de melhoria da sobrevivência dos nascituros e das parturientes.

Face à crise de 2008, os políticos alemães reflectiram o pânico dos seus eleitores perante a perspectiva de repetição da instabilidade financeira que viveram entre guerras – e que não esqueceram. Usaram a sua posição de força na União Europeia para assegurar que as populações a viver na Alemanha não iriam cair na pobreza em massa, lançando na miséria gregos, portugueses, espanhóis, no processo divididos entre portugueses bem-comportados e gregos mal-comportados.

As mesmas estratégias assistencialistas e punitivas aplicadas nas lutas contra a pobreza, de dividir para reinar, foram elevadas à condição de política europeia. Isso viria a merecer, em 2015, a condenação da ONU por violação dos direitos humanos dos migrantes sírios, entretanto entregues pela União Europeia ao regime turco. Regime que não serve para aderir à União Europeia, mas serve de tampão para os movimentos de sobrevivência das populações na fronteira.

Embora as tecnologias façam maravilhas e transformem a vida das pessoas, para as produzir continua a ser preciso dividir para reinar.

A convergência entre os indicadores estatísticos dos países da UE deixou de ser um objectivo, substituído pela defesa da estabilidade financeira em risco e pelo reforço da dureza das fronteiras. O ressurgimento do fantasma neo-nazi-fascista nas eleições tem sido alimentado, sobretudo, pelas crises de fronteira. Reforço das fronteiras de classe (cada vez há mais multimilionários e mais pobres) e nacionais (criminalização dos estrangeiros pobres), que estimulam a ideia de ser necessário separar as pessoas de bem das outras.

O aumento do medo causado pelo empobrecimento de novas camadas da população, em razão da falência financeira global, é estimulado pela dramatização das fronteiras como modo de – com sucesso – perpetuar as políticas financeiras falidas através da coordenação das elites entre si. De onde, a remuneração das elites – com novos multimilionários – acompanha o aumento da pobreza, da miséria, da falta de esperança e … da guerra.

A globalização (anos 90) trouxe, por pouco tempo, a esperança de a humanidade poder viver em paz, numa aldeia global. Um serviço de policiamento da ONU – na altura designado por intervenções humanitárias – seria suficiente para evitar a guerra e a violação dos direitos humanos em qualquer parte do mundo. Foi chão de pouca dura.

A guerra de fronteiras na Europa sacrificou a Jugoslávia, logo nos anos 90, e sacrifica agora a Ucrânia. Além dos mortos, há os refugiados, os veteranos de guerra, a contaminação do meio ambiente que reduzem as vidas a escombros por décadas, motivos de sofrimentos indizíveis reforçados por aumentos de tráficos humanos, as violências de género, as brutalidades das orientações patriarcais dominantes.

Entre essas duas guerras na Europa, em 2003, George W. Bush, Blair e Aznar, recebidos por Durão Barroso nos Açores, declararam guerra indefinida ao terrorismo islâmico, com o regozijo de Putin na sua guerra contra os tchetchenos e da China contra os uigures, tibetanos e outros. 

Como explicou George W. Bush, ao dar ordens para invadir ilegalmente o Iraque, havia que levar a guerra para longe do território norte-americano. Hoje, sobretudo depois do abandono do Afeganistão à sorte dos extremistas islâmicos, sabemos que a guerra foi uma calamidade global que serviu para levar a cabo uma globalização que faliu financeiramente e que, para salvar a face, estar a permitir – há quem diga que está a incentivar – o ressurgimento de políticas do tipo fundamentalistas e nazi-fascistas.

A cobertura da guerra feita pela comunicação social, além de unilateral, violando os princípios básicos do jornalismo, mostra as violências da guerra como se os únicos impérios existentes fossem o russo e o chinês. Por isso fala da guerra da Ucrânia como a primeira guerra na Europa no pós-guerra – como se a guerra da Jugoslávia não tivesse existido, só porque foi conduzida pela NATO. Fala da integração da Ucrânia na União Europeia como um acto de vontade, ignorando os processos de adesão que esperam a sua vez e os processos de adesão cujas finalidades estão a ser questionadas pelas divisões internas. Não fala do acolhimento dos milhares de crianças não acompanhadas que será, na melhor das hipóteses, tão bom ou tão mau quanto a institucionalização das outras crianças em risco.

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do jornal “Etc. e Tal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Web

 

01jul22

 

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