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Ali vai um pouco de mim…

Ana Costa

 

O ano letivo terminou e com ele terminam as preocupações com planificações, correções, preparações, aulas, testes, cotações…Enfim… Um sem número de obsessões!

A verdade é que terminar um ano letivo e com sucesso é, de facto, um grande alívio. A palavra férias faz eco na minha cabeça já há muito, tal e qual como aprendi com Alice Vieira, em que uma das suas personagens soletrava férias muito devagarinho, só para poder saborear melhor, mas esse meu pequeno prazer está reservado só para o início de agosto.

O mês de julho é ainda de papeladas, mas é, este ano, cheio de pequenos instantes que conseguem ser amargos. Deixo uma turma de vinte meninos e meninas, que chegaram até mim pequeninos, com mundos fechados e, literalmente, “sem saber ler nem escrever”.

Ter uma turma de 1.º ano à nossa frente consegue ser assustador… Mas ter a sorte de acompanhar ao longo de quatro anos, o crescimento de uma criança (o que por si só já é muito bom), de poder participar de forma positiva na evolução saudável de vinte crianças, deixa-me num misto de sentimentos. Sim, tenho orgulho desta minha turma ser um pouco de mim. De já não ser preciso falar para me entenderem. De ter com eles/as uma relação de amor, amizade e carinho. Tenho orgulho que usem as minhas expressões a falar e que saibam brincar. Sinto vaidade quando os ouço falar de temas como o meio ambiente ou a guerra na Ucrânia. Quando me ouvem e valorizam as aprendizagens.

Em quatro anos vivemos tanto…. Fomos confinados e obrigados a estudar e aprender através de computadores. Fizemos coisas fantásticas, como por exemplo, aprender as horas e brincar às escondidas. Fomos isolados, infetados, fomos para casa…. Voltámos… E ainda sinto os primeiros abraços depois dos regressos…

Crescemos muito… Eles/as duplamente, eu já não, só interiormente.

Cada turma que tenho é um reflexo de mim e daquilo que tento ser na vida. E é por isso que este mês de julho tem um sabor menos bom…. Chegou a altura de os deixar ir, cada um com a sua bagagem, cada um com os seus sonhos, com a certeza de que essa bagagem os levará para outras viagens maiores, mas com a certeza também que estarei sempre presente (“Lembrem-se sempre que fui eu que vos ensinei a ler e a escrever!”).

Estarei presente não só nos conteúdos escolares que trabalhámos, mas sobretudo nos valores mais básicos da vida. Sim, eu cresci com eles/ase aprendi muito, mas juntos também fomos crescendo e o meu coração dói só de pensar em deixá-los…

Cada criança é um ser especial…E eu sou de facto uma sortuda em fazer o que faço e poder ser aquilo que sempre quis ser.

Estes meninos/as, que chegaram até mim pequeninos, são agora pré-adolescentes e eu vou deixá-los voar e seguir o seu caminho… Mas vou deixá-los e por isso o meu coração fica apertadinho…

Nas aulas, sempre que falámos de sentimentos, disse-lhes sempre que o nosso coração é como um grande armário, cheio de prateleiras e gavetas, onde vamos guardando as pessoas que passam na nossa vida.

As pessoas menos boas, estão na parte de cima do armário, arrumadas e, se possível, dentro de uma caixa fechada. As pessoas que gostamos, as que se cruzam no nosso caminho e queremos recordar, estão nas gavetas da frente.

Estes meus meninos e meninas (e outros que por mim já passaram) estão nas gavetas do meu coração. À frente! Empurrando-se uns aos outros, sem saberem que este meu armário é enorme.

Adoro cada um destes seres pequeninos e vou sentir a sua falta, e muito!

Vou deixá-los ir…Tem mesmo de ser…E eu?

Eu fico…. Esperando que um dia voltem…

 E eu vou estar aqui, sempre!

De gavetas entreabertas para cada um deles/as…

 

 

01ago22

 

 

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