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Cegos, surdos e mudos

António Pedro Dores

 

 

“The ultimate tragedy is not the oppression and cruelty by the bad people but the silence over that by the good people.”

A tragédia maior não é a opressão e crueldade das pessoas más, mas o silêncio sobre isso das pessoas boas.

Martin Luther King Jr.

“Le fascisme, ce n’est pas d’empêcher de dire, c’est d’obliger à dire.”

O fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer.

Roland Barthes

 

 

A experiência norte-americana da presidência Trump e da persistência das suas políticas na direcção do Partido Republicano tem levantado a questão de saber quem são a metade dos eleitores norte-americanos que insistem em imitar os nazi-fascistas, os seus inimigos derrotados na Segunda Grande Guerra. Alguns analistas têm chamado a atenção da racionalidade da atitude desesperadamente violenta dos humilhados pelas políticas neoliberais de redução das pessoas a recursos humanos.

Os trabalhadores descendentes das vítimas da Grande Depressão, aburguesados e integrados na sociedade norte-americana pelo modo de vida americano – casa nos subúrbios arborizados e automóvel para ir trabalhar ou de férias –, incapazes de cumprir o sonho americano, querem vingança. Precisam da esperança de serem atendidos senão pelo estado que lhes disse sempre que cada um merece aquilo que consegue tirar da economia, por Deus que lhes disse serem seres superiores aos outros animais.

O amuleto com a representação de três macacos, em que o mudo tapa os olhos, o cego tapa os ouvidos e o cego e surdo tapa a boca, é uma excelente representação da condição humana impotente e desorientada. Perante a vertigem da conjugação de crises financeira, ambiental, pandémica, belicista, as pessoas adoptam o fascismo como modo de pensar e votar. Imaginam que meter a cabeça na areia, negar a ciência, é um acto democrático, um direito, uma liberdade, mesmo se for contra os direitos humanos.

Caro leitor, não olhe para o lado, a pensar que estou a convidá-lo/a a afastar-se com nojo das outras pessoas. O meu convite é para aprender a olhar o nazi-fascista com quem coabitamos no nosso corpo. Aquele que reclama “não somos gregos” durante a crise financeira, “não somos negacionistas” na pandemia, ou “não somos sírios” quando há refugiados, ou “não somos russos” ou “não somos império” perante a guerra.

É sintomático que a presidência dos EUA se tenha declarado como inimiga da expansão do império russo sem causar nenhuma gargalhada geral ou sequer um murmúrio ou espanto pelo império tomar a liderança da luta anti-imperial.

Infelizmente, há mais grave do que isso. Seguindo a presença mediática de Piménio Ferreira, 35 anos, engenheiro físico, dos raros licenciados ciganos em Portugal, activista anti-racista, dar-se-á conta de a sua denúncia do racismo estrutural ser interpretada como a sugestão de o combater participando no governo. No mesmo sentido, à sua denúncia da discriminação racista nas escolas segue-se a apologia da escola por ser instrumento da ascensão social. Como na síndrome de Estocolmo, os jornalistas interpretam as instituições discriminatórias como salvadoras das suas vítimas.

É certo que tais argumentos são usados em desespero de causa: na falta de se saber o que fazer, o melhor é pensar em subir na hierarquia social, esquecendo insistentemente as vítimas das discriminações institucional e escolarmente organizadas. É como reduzir a luta contra as desigualdades à luta das mulheres da elite pela visibilidade e pelo poder. É inverter o próprio argumento, subvertendo o sentido da crítica, recuperando-a de modo a evitar encarar a fonte dos nossos problemas: a desorientação do império, a falência irrecuperável da globalização, os desastres humanitários em curso e a sua amplificação para o futuro e na nossa direcção, por via da desertificação, do nuclear, do aumento do custo de vida e das mudanças climáticas.

Quem conta as suas histórias de humilhações de que foi vítima, por ser cigano, não suscita solidariedade social. Não suscita reflexão sobre as fontes das injustiças (direito) ou determinação em as combater (direitos humanos). Aos sobreviventes pede-se que se comportem como os náufragos: agarram-se ao pescoço de quem apareça por perto, movimentos anti-racistas, feministas, de ciganos, etc. Por não ser isso que acontece geralmente, as vítimas aspiram primeiro à sua dignidade, há quem nos movimentos as acuse de serem as culpadas da sua situação, por não se juntarem a quem as quer salvar.

O erro trágico da noção de populismo é confundir numa amalgama os adversários ideológicos do liberalismo, os movimentos sociais e os povos, é reabilitar o império dos seus gravíssimos e suicidários erros de liderança alegando falta de alternativas: os americanos ou os russos, a democracia ou o império, os bons e os maus.

Como na Guerra Fria original, vivemos a aliança dos impérios contra a natureza e contra as melhores condições de existência da espécie humana que a Terra conheceu. Ambos os impérios em luta querem explorar o máximo da Terra que possam. Em conjunto, aceleram mais ainda a transformação ambiental que está a extinguir muitas formas de vida e vai obrigar a humanidade a adaptar-se às novas circunstâncias. Enquanto isso, os estados, as escolas, as empresas, os profissionais continuam a trabalhar e a reproduzir as causas do desastre anunciado como se fosse o único destino possível das nossas vidas.

Falta a liberdade às pessoas para abandonar as velhas narrativas e práticas. Tal dissonância cognitiva torna impensável imaginar e acreditar que, nalguma medida, um futuro melhor ainda depende de sermos solidários. Que diferença faz se apoiarmos a guerra? Quem se opôs e quem se opõem à guerra? Quem se opôs e quem se opõem à dívida? Quem se opôs e quem se opõem à Europa fortaleza? Quem se opôs e quem se opõem à autodeterminação dos corpos das mulheres? Quem se opôs e quem se opõem à escolarização estigmatizante? Quem se opôs e quem se opõem ao racismo institucional?

 

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa

 

 

Foto: pesquisa Web

 

 

01ago22

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