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Escritos na pele

Miguel Correia

 

Quando uma qualquer conversa ocasional aborda o tema das tatuagens, vem-me à ideia aqueles rabiscos simples, mas de carácter permanente, que os nossos bravos soldados receberam durante a Guerra de Ultramar. Sem qualquer especialização, cuidados de higiene ou conhecimento dos efeitos nocivos da tinta, as únicas preocupações do tatuador eram, para além de não trocar as letras do “amor de mãe”, manter o soldado em plenas condições para combater, sem nenhuma infeção.

Alguns artistas da agulha, naquela altura, aventuravam-se a tatuar um ou outro símbolo (sereias ou âncoras), mas a maioria dos recrutas escolhiam nomes de familiares chegados ou datas de aniversário – sinal revelador de problemas de memória e falta de concentração. Talvez por isso, alguns quisessem gravar o código do multibanco, mas desaconselhado pelo clima de guerra. Desde então, a arte da tatuagem evoluiu de forma muito significativa. Recordo a série: Prison Break (2005), na qual Michael Scofield tatuou o mapa da prisão no corpo (camuflado por outras imagens) e assalta um banco para ser enviado para junto do irmão, no corredor da morte…

Nos dias de hoje, ter uma tatuagem é quase um evento viral. Não há desenhos impossíveis ou locais proibidos no corpo humano. A agulha motorizada consegue chegar a todo o lado. Apesar de muitos continuarem a escolher o nome ou data de nascimento dos filhos (mais uma prova que continuam os problemas de memória) há quem não se contente com apenas uma e queira ter, na sua pele, desenhos macabros, citações famosas ou até excertos de poemas.

Por entre braços, omoplatas, pernas e tornozelos, a verdade é que existem corajosos que indicam locais anatómicos mais reservados e escondidos. Quase como uma descoberta destinada a alguns sortudos.

Não tendo nada contra as escolhas pessoais de cada um – principalmente envolvendo o seu próprio corpinho – tenho de imaginar como seria viver um desses momentos mais tórridos em que, lentamente, se começa a despir a mulher e, sem aviso prévio, dar de caras com uma panóplia de frases e desenhos. Se já encontro uma dificuldade olímpica perante os colchetes de um soutien, ficar especado a analisar as instruções (como num móvel do Ikea) é motivo, mais que válido, para estragar o ambiente e terminar sem ter começado.

 

 

Foto: pesquisa Web

 

01ago22

 

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