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O Cemitério do Bonfim e os seus cruzeiros

Maximina Girão Ribeiro

 

Subindo a íngreme ladeira que é a rua do Monte do Bonfim encontramos a Norte, do lado esquerdo da Igreja Paroquial do Nosso Senhor do Bonfim, o cemitério do Bonfim que ocupa uma considerável área no alto do Monte de Godim, local de onde se pode observar uma vasta panorâmica do espaço envolvente e até imaginar o que poderá ter sido este local, em tempos muito remotos, com grande arborização, existência de moinhos de vento, fontes…

Sobre este local, Camilo Castelo Branco escreveu o seguinte” […] quantas vezes eu ia do átrio do Bonfim, pasmar os olhos naquelas serras que ficam para lá, para o nascente! “

Acede-se ao cemitério por um conjunto de degraus arredondados e um portão de ferro bem trabalhado.

Escadaria e portão de entrada no cemitério

O cemitério foi estabelecido em 1849/1850, pela Irmandade do Santíssimo Sacramento e do Senhor do Bonfim e da Boa Morte. Trata-se de um cemitério com preocupações urbanísticas, localizado num ponto alto e arejado e, relativamente afastado de habitações, seguindo os conceitos preconizados num contexto ideológico, proveniente do movimento Iluminista do séc. XVIII, que pretendia acabar com os enterramentos no interior das igrejas.

O espaço do cemitério estende-se por vários socalcos, separados entre si por escadarias, seguidas de patamar, possuindo um conjunto de sepulturas e jazigos de grande valor patrimonial, além da existência de três cruzeiros graníticos, deslocados de outros pontos da cidade e colocados aqui, em 1869.

Pormenor do Cruzeiro do Senhor da Consolação
Cruzeiro do Senhora da Consolação

Logo quem entra no cemitério, no primeiro patamar encontra, do lado direito dois cruzeiros, encostados a uma parede branca. O primeiro é considerado o mais antigo aqui exposto, pois tudo indica que seja do séc. XV e representa o Senhor da Consolação que se encontra no cimo de uma coluna facetada onde existe um lampião de feição mais recente. No passado estava colocado na Ramadinha, espaço entre a Praça dos Poveiros (anteriormente, Largo de Santo André), muito próximo do jardim de S. Lázaro. É um cruzeiro gótico, de cruz florida e o Cristo delicadamente expressivo.

Ainda, na mesma parede, num canto absolutamente inestético, existe outro cruzeiro que, tudo indica que possa ser seiscentista, tendo como particularidade o facto de o Cristo crucificado estar com os pés afastados e não sobrepostos, como é comum. A cruz assenta num bloco granítico paralelepipédico e decorado nas faces por pequenas bolas. A coluna apresenta um lampião metálico. Este cruzeiro esteve colocado na Rua do Poço das Patas, junto da Estrada Real, numa espécie de encruzilhada, onde confluíam a antiga Travessa da Nora e a também já desaparecida Rua da Palma, no exacto ponto em que se iniciava a via sacra que terminava, depois, na cruz do Bonfim. Trata-se do cruzeiro do Senhor do Divino Amor e Almas.

Cruzeiro do Senhor do Divino Amor e Almas

No topo norte do cemitério, no corredor central, existe um outro cruzeiro que era diferente da maioria dos outros que estavam espalhados pela cidade, pois a figura de Cristo não era esculpida na pedra, mas pintada.

Cruzeiro de 1818

Pormenor onde se localiza a dataTrata-se de um grande cruzeiro de granito, datado de 1818, que foi trazido para este cemitério e está assente sobre um pedestal de degraus, seguido de dois blocos graníticos, singelamente trabalhados, onde se apoia uma peça ornada com volutas, peça que deve ter tido outra utilização, talvez introduzida aqui para dar maior grandiosidade ao conjunto, pois parece-nos ser anterior à data que o cruzeiro ostenta. Pelas suas características é, provavelmente, uma peça do século XVIII. É nítido que o cruzeiro sofreu grandes alterações ao longo do tempo pois, modernamente, foi-lhe aposto um Cristo de metal.

Este conjunto escultórico é rodeado por um gradeamento de ferro forjado de fino recorte.

Estes padrões, como também são chamados, foram símbolos de crenças e de respeito entre as populações que os veneravam.

Uns, demonstram uma simplicidade quase ingénua, mesmo talhados no granito rude, outros apresentam uma expressão artística relevante, muitas vezes elaborados no mármore fino, ostentando a imagem de Cristo pintada ou esculpida, em alto-relevo ou em pleno corpo.

Estiveram colocados nas bermas dos caminhos, nas praças, no alto dos montes, perto das povoações ou isolados, no adro de igrejas, ou em encruzilhadas, em praças, ou cemitérios.

“Ouviram” histórias tristes ou dramáticas, “escutaram” muitas preces doridas, pedidos de protecção contra salteadores que atacavam nos caminhos sinuosos, ou contra influências maléficas e feitiçarias,… Mas, também, receberam agradecimentos por “milagres” acontecidos, ou promessas feitas em horas de angústia e sofrimento.

Os cruzeiros aqui referidos, existentes no cemitério do Bonfim, continuam a ser venerados, embora sem o esplendor de outros tempos, pois apresentam um certo ar de abandono, estando tristemente encostados a um muro, num injusto esquecimento em relação ao que, outrora, representaram na devoção dos crentes.

 

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc. e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01ago22

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