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Vivem-se momentos difíceis nas redações do JN, TSF, DN e de O Jogo devido aos recentes ‘convites’ para rescisões! Sindicato dos Jornalistas condenou posição da administração, mas a ‘vassoura’ está já a ‘limpar’ a casa…

Depois de, em 2020, já ter realizado uma restruturação que se traduziu no despedimento coletivo de 81 trabalhadores, entre os quais 17 jornalistas, o ‘Global Media Group(GMG), que é detentor de títulos como o ‘Jornal de Notícias’, ‘TSF’, ‘Diário de Notícias’ ou o ‘O Jogo’, ameaçou, no início do passado mês de julho, uma nova “reorganização empresarial” devido, segundo o referido ‘grupo’, à “recente conjuntura, muito agravada pelo presente período da guerra”.

Estava, assim, no pretérito 08 de julho, lançado o aviso para mais uma onda de despedimentos, que o Sindicato dos Jornalistas (SJ) considerou de “ameaça velada”, por parte do GMG.

Mas, na verdade, nada do que aconteceu foi inesperado nas redações dos títulos geridos pelo grupo. Todavia, a ‘oficialização’ das ‘varredelas’ deixou muitos jornalistas, no mínimo, incrédulos com a situação e, extremamente, preocupados com o seu futuro.

 

Coração das mãos, e num ambiente de ‘cortar á faca’, os profissionais dos órgãos de informação controlados pelo GMG, tiveram a ‘institucional’ solidariedade do Sindicato dos Jornalistas, realçando, publicamente, que, “conforme se percebe pelo documento, em caso de não adesão voluntária (ao pedido de rescisão), os trabalhadores podem vir a ser abrangidos por qualquer medida de reestruturação sujeita a um regime menos favorável no futuro”, e que os funcionários “ou saem agora, com um bónus de 10 por cento sobre o mínimo legal em caso de despedimento coletivo, ou saem a mal depois”.

SITUAÇÃO CAÓTICA

O Etc. e Tal sabe que o ambiente, pelo menos nas redações do ‘Jornal de Notícias’ e de ‘O Jogo’, no Porto, em nada são propícias ao bem-estar laboral dos jornalistas.

Para já, há a salientar uma baixa de vulto no direção editorial do diário desportivo, por, alegadamente, não concordar com a reestruturação anunciada.

Pergunta-se: quantos outros e outras profissionais lhe seguirão as pisadas? É questão de difícil resposta, mas de fácil previsão, isto se se tiver em conta que há números em carteira que têm se ser cumpridos, ou a bem (com acordo) ou a mal… e o resto são ‘cantigas’.

‘Cantigas’ que levam ao centro do ‘palco’ o mediático administrador do GMG, Marco Galinha, que, de acordo com o SJ, está a “condenar os seus títulos à morte lenta e dolorosa na praça pública, ao continuar a optar por descartar trabalhadores, ano após ano, como se fosse possível fazer jornalismo sem jornalistas”.

O Sindicato vai mais longe e lamenta o facto da administração do referido grupo de ‘media’, “não ter aceitado receber os representantes dos jornalistas”, criticando ainda o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, pelo facto de, alegadamente, “não ter tido tempo” para “tomar conhecimento das dificuldades que enfrenta a Comunicação Social em Portugal”, alinhando, assim, “na política desenvolvida pela sua antecessora, Graça Fonseca”.

‘CONVITE’ POR E-MAIL

E a oito de julho, os jornalistas, entre os demais trabalhadores, recebiam um e-mail da administração para se iniciar, então, o processo de rescisão de contratos… por mútuo acordo.

“O Global Média Group tem vindo a desenvolver um programa de racionalização progressiva dos seus custos fixos, designadamente na área dos custos com pessoal, por via de Rescisão por Mútuo Acordo com alguns dos seus colaboradores, tendo em vista assegurar a sustentabilidade da empresaA recente conjuntura muito agravada pelo presente período de Guerra, veio agravar em muito a situação, pelo que se torna imperativa uma nova reorganização empresarial”.

Ainda no referido e-mail, o GMG salienta o seu objetivo de “conjugar os interesses do Grupo e dos trabalhadores”, pelo que “ a Administração decidiu desencadear um programa de rescisões por mútuo acordo com os trabalhadores que a ele desejem aderir.

A esse ‘acordo’ podem “candidatar-se os trabalhadores com idade até 61 anos (inclusive), com contrato sem termos celebrado com a empresa Global Notícias, Rádio Notícias, Notícias Direct, Naveprinter, Açormedia ou RCA há mais de 12 meses, e que estejam ao serviço na presente data”. Mais: “este programa não é aplicável aos trabalhadores em situação de suspensão de contrato de trabalho, designadamente requisição ou ausência prolongada ou com processos disciplinares em curso”.

CONDIÇÕES E PRAZOS

Assim, e ainda de acordo com o referido e-mail, ao qual o Etc. e Tal teve acesso, “serão tendencialmente aceites todas as propostas em que a saída do trabalhador não implique a sua substituição interna. Caso a caso terá de haver acordo por parte da empresa que, deste modo, se reserva o direito de não considerar as candidaturas”.

E as condições são várias, entre as quais, e “para além dos acertos de saídas, um valor correspondente à indeminização legal em caso de despedimento de acordo com as regras em vigor, acrescido de 10 por cento. Um prémio adicional líquido correspondente ao valor de dois meses de retribuição certa mensal líquida; o total apurado será disponibilizado, de forma repartida, em 18 prestações mensais iguais”.

Relativamente a prazos, “o período de apresentação de pedidos de adesão a este programa termina a 15 de agosto de 2022. As saídas dos trabalhadores, cujo pedido de rescisão seja aceite pela Administração, ocorrerão até 01 de outubro de 2022, exceto situações especiais em que poderá ser acordado outra data”.

COMISSÃO SINDICAL: “A PARTIR DE AGORA SERÁ DEFINHAR”

Foto: ‘Observador’

Ora, pois bem, quem não ficou satisfeita com o teor da ‘carta’ foi a Comissão Sindical (CS) do Global Media Group que manifestou, quase de imediato, “a sua profunda apreensão com o teor do mail enviado pela DRH, com o seu conhecimento às 19h35 de 08 de julho. O anúncio de abertura de um programa de rescisões por mútuo acordo é, por si só, questionável. O que é questionável é a possibilidade avançada no mail, de, em caso de não adesão, vir a ser tomada ‘qualquer medida de reestruturação sujeita a regime menos favorável’. Esta ‘construção’ deixa chocados os membros da comissão sindical por vários motivos”.

A posição da CS historiou todos os processos e revelou, ‘relembrando’, importantes números… “Em junho deste ano foi anunciada a grande performance do on-line do GMG com aumento de leitores. Da mesma forma que foi notificado em maio que a TSF obteve, no mês anterior, a melhor audiência dos últimos dois anos. As verbas do GMG subiram 9 por cento no ano passado, face a 2020, para 35 milhões de euros. O resultado positivo das vendas resultou de um plano de reestruturação em 2020 direcionado para o corte de custos e procura de sinergias internas”.

Relembrando que a “reestruturação feita em 2020 significou o despedimento coletivo de 81 trabalhadores, entre os quais 17 jornalistas”, a Comissão Sindical refere que “desde 2020, até à data, saíram das empresas que compõem o GMG dezenas de trabalhadores por sua livre vontade, o que representa, por si só, uma diminuição dos custos com o pessoal”. E salienta que o GMG “contratou uma equipa para dirigir o GriDigital – Grande Reportagem e Investigação – do Grupo Global Media dotando o projeto de orçamento próprio”. 

Por outro lado, “os jornalistas que saíram não foram substituídos. Houve apenas a contratação pontual de jovens licenciados em comunicação social para estágios profissionais através do IEFP”, o que, e “perante tudo isto”, a CS “não se percebe se afinal, há ou não, dificuldades. A Comissão Sindical questiona ainda o motivo que é apresentado para a necessidade de redução dos custos com o pessoal, porque considera que as dificuldades financeiras decorrentes dos efeitos da guerra na Ucrânia, com o aumento da inflação, dos combustíveis, da energia, afetam todas as empresas e famílias”.

“Afetam também os trabalhadores do grupo, que há 16 anos não são aumentados em termos gerais e que, através dos delegados sindicais, lhe enviaram há mais de um mês, uma proposta de aumento salarial à qual não obteve resposta (…)”

E a CS refere ainda que “dois meses depois da invasão da Ucrânia por parte da Rússia, o GMG já estava a exigir aos diretores um corte de 50 por cento nas colaborações. Tal exigência só é possível por parte de quem desconhece a realidade das empresas.

Sabemos do aumento do preço do papel e do que isso representa para o setor, mas sabemos também que não é através da sistemática redução de pessoal que as dificuldades se ultrapassam”.

Assim sendo, a CS entende que “há um limite de pressão para qualquer redação no caso das do JN, DN, TSF e O Jogo cujas direções continuam a aguardar discussão e aprovação de orçamentos, eesse limite foi ultrapassado há muito tempo. A partir de agora será definhar”, concluiu.

PROJETOS E MAIS PROJETOS

Com o emblemático edifício do “Jornal de Notícias”, na portuense Rua de Gonçalo Cristóvão, a preparar-se para ser transformado num hotel de luxo do grupo ‘Marriott’, sabe-se que os jornalistas, que restarem a trabalhar nos somente quatro dos dezassete andares do referido prédio – com os restantes pisos, praticamente, ao abandono, e, ainda o facto de, dos três elevadores existentes, só um estar a funcionar -, poderão vir a ser transferidos para um local, que, em concreto, só Galinha e companhia sabem, mas que, ao que tudo indica, será perto da zona do Carvalhido (Ramalde-Porto).

E, isto depois de já ter estado prometida a deslocalização das redações para uma antiga garagem na Rua de Latino Coelho (Bonfim-Porto), projeto do qual o GMG, entretanto, desistiu.

Desistiu, é verdade, mas não deixou, porém, de desembolsar cerca de 15 mil euros mensais de renda, durante um bom par de anos, e, até mesmo, durante a crise pandémica que obrigou muitos dos jornalistas a trabalharem a partir das suas casas.

Aquela que iria ser a sede dos jornais do GMG, na Rua de Latino Coelho, no Porto

Do ainda edifício JN, há ainda registar o ‘desaparecimento’ do Centro de Documentação e a deslocalização da Biblioteca (processo idêntico aos efetuados em outros jornais que, entretanto, encerraram as suas portas). Há quem mesmo intitule este tipo de ações de “janeirização”, ou seja, de um processo idêntico ao levado a cabo no já extinto, por insolvência, jornal “O Primeiro de Janeiro”.

A TRISTE SINA DA IMPRENSA DIÁRIA COM SEDE NO PORTO

De realçar, entretanto, que, dos órgãos de comunicação social propriedade do GMG, só dois têm ‘sede principal’ no Porto (‘JN’ e ‘O Jogo’), podendo a cidade – pelo andar da carruagem – vir a perder, em papel, mais dois títulos de informação diária, criados e desenvolvidos na Invicta, isto, quando, em meados do séculos passado, mas já com a corda na garganta, ela contasse com duas referências da Imprensa diária em Portugal, como foram os jornais ‘O Comércio do Porto’ e ‘O Primeiro de Janeiro’.

O primeiro edifício-sede de ‘O Comércio do Porto’, na portuense Avenida dos Aliados

 O Comércio do Porto foi fundado, no Porto, em 2 de junho de 1854. Quando se deixou de publicar, em 2005, era o segundo mais antigo jornal português, a seguir ao ‘Açoriano Oriental’.

Após o 25 de Abril, em pleno Processo Revolucionário em Curso – PREC, chegou a imprimir 120 mil cópias. Só que nos anos 90 do século passado teve uma contínua descida das tiragens e, em 2001, foi vendido ao grupo espanhol ‘Prensa Ibérica’.

A última edição de ‘O Comércio do Porto’

Apesar da tentativa de viabilização empreendida pelos seus novos proprietários, o jornal acabou por não se revelar economicamente viável. A sua última edição (na foto acima publicada) foi impressa em 30 de julho de 2005, fez recentemente, 17 anos.

O ‘JANEIRO’

Relativamente a ‘O Primeiro de Janeiro’ – título que é muito ‘caro’ a quem vos escreve -, com a morte de Manuel Pinto de Azevedo Júnior, em 1978, o jornal entrou numa espiral de instabilidade a nível de direção, perda de leitores e publicidade, passando, em 1991, a jornal de cariz regional, sob a direção de Nassalete Miranda.

Em 30 de Julho de 2008, os cerca de 30 jornalistas da redação do jornal foram informados de que o título encerraria em agosto para uma reformulação gráfica, voltando em setembro numa nova empresa.

Em editorial, a diretora Nassalete Miranda anunciou a interrupção da sua publicação pelo período de uma semana.

O primeiro edifício-sede de ‘O Primeiro de Janeiro’, na central Rua de Santa Catarina, no Porto, há anos transformado em centro comercial
‘O Primeiro de Janeiro’, na Rua de Coelho Neto, no Porto

No dia 3 de Agosto de 2008 surge novamente nas bancas com um novo diretor, Rui Alas Pereira (jornalista que assim passou a dirigir para além do jornal “O Primeiro de Janeiro”, o jornal Motor e o jornal “O Norte Desportivo”), tendo fechado definitivamente sete anos depois, em 2015, sob a administração de Eduardo Costa.

 

E, pronto, é esta a realidade do jornalismo em Portugal, e no Porto em concreto, cidade que teve, e ainda vai tendo, pelo menos um, dos títulos mais influentes do País.

A realidade pela qual atravessa a Imprensa em Portugal, e as más – senão, péssimas -, condições de trabalho dos jornalistas (incluindo ordenados, mesmo quando pagos a tempo e horas) é a que atrás pôde ler, e de mais casos poderíamos ter tratado… mas ficamos por aqui, pois já custa escrever mais sobre este leque de atentados. Tovaia, voltaremos, em breve, ‘à carga’…

Fazer jornais sem jornalistas é cada vez mais possível para determinadas empresas, cujos administradores percebem de jornalismo, como, quem vos escreve, de mandarim.

 

 

Texto: José Gonçalves

Fotomontagem – destaque: Hugo Sousa

Fonte: Wikipédia

Fotos: pesquisa Web

 

01ago22

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