Menu Fechar

João Ricardo de Aguiar, o mais novo presidente de Junta do Porto, diz-se “muito exigente” consigo próprio e avisa que vai tornar o Bonfim na ‘capital’ da Cultura da cidade!

João Ricardo de Aguiar, 44 anos, presidente, a tempo inteiro, da Junta de Freguesia do Bonfim, eleito nas listas do movimento independente de Rui Moreira, diz-se um homem exigente e defensor da descentralização de poderes locais, para, com acrescidos apoios e competências, fazer mais pela autarquia da qual é líder.

Os problemas sociais que afetam parte considerável da população residente (cerca de 23 mil habitantes), preocupam-no sobremaneira, como, por outro lado, é com satisfação que regista um crescimento da atividade cultural no Bonfim, chegando ao ponto de querer transformar a freguesia na ‘capital’ da Cultura da cidade do Porto.

 

José Gonçalves           Francisco Teixeira

(texto)                                (fotos)

 

Nesta primeira de uma série de entrevistas com os, e as, presidentes de juntas e uniões de freguesia da cidade Invicta, João Ricardo de Aguiar – o mais novo deles todos – realça também as excelentes relações com a Câmara Municipal, ainda que relembre que há muita coisa por fazer, prometendo, para o efeito, continuar o trabalho do seu antecessor, ainda que com “caraterísticas muito próprias”.

A sua atividade como autarca inicia-se na União de Freguesias do Centro Histórico, era presidente António Fonseca, eleito pelo movimento independente de Rui Moreira. Foi uma boa experiência? Aprendeu algo de importante com o, então, líder da autarquia?

Trabalhei com o António Fonseca, então, presidente da União de Freguesias do Centro Histórico, quando fomos eleitos em 2017. Já trazia do passado alguma experiência autárquica, e como político também. No Porto, essa experiência passou por trabalhar, como referi, com o António Fonseca, a partir de 2017, inclusive.

E essa foi uma boa experiência, ou nem por isso?

Foi boa! Eu considero que de todas as experiências que temos na vida temos delas retirar a boa parte, e o António Fonseca – apesar das controvérsias em que esteve envolvido – não deixa de ter o mérito de ter sido o autarca que foi. Isto mesmo com todos os contras que também os lhe apontei. Eu fui eleito pelo movimento do Rui Moreira, tenho a minha ideologia; as minhas crenças políticas…

… ‘crenças’ que estão mais próximas da social-democracia ou do ‘liberalismo’?

Depende de que significado quer dar a esse ‘liberalismo’, porque no liberalismo que a Iniciativa aprovou, revejo-me em algumas coisas, mas ele é desfasado do ‘liberalismo’ de que a nossa freguesia – Bonfim – é mãe. Na social-democracia revejo-me também em algumas coisas, assim como no socialismo democrático. Já disse, a algumas pessoas, que, lá por ter sido eleito por ‘a’ ou por ‘b’, eu fui eleito para servir os que cá estão, e não só aqueles que votaram em mim, ou seja, estou aqui para servir a população da minha freguesia.

E servir a população com o apoio do PSD!

Temos um acordo com o PSD. Neste momento, no executivo, tenho o Arlindo Maia como tesoureiro; o Nuno Gomes, advogado, é secretário e independente; a Graça Vasconcelos – que veio comigo da UF do Centro Histórico-, do CDS; e três elementos do PSD, resultantes de um acordo pós-eleitoral.

Inicialmente, eram dois social-democratas, mas, depois – quando tivemos que refazer a Assembleia, e consequente nova tomada de posse para regularizar a situação -, o PSD passou a ter mais um elemento no executivo, ou seja de dois passou para três. O acordo está a funcionar bem. Cada um tem as suas ideias, mas estamos alinhados!

GOSTARÍAMOS DE SER RESPONSÁVEIS DIRETOS PELA MANUTENÇÃO DOS ESPAÇOS VERDES DO BONFIM

Herdou o trabalho efetuado, durante oito anos (dois mandatos) pelo seu antecessor, José Manuel Carvalho, também eleito nas listas do movimento de Rui Moreira. Esse trabalho foi positivo? Está a dar seguimento a esse trabalho, ainda que com algumas particularidades?

Considero que foi feito um bom trabalho pelo meu antecessor. Este primeiro ano é de aprendizagem, é um espaço de tempo necessário para nos inteirarmos das realidades. Mesmo que tenhamos mais ou menos experiência política, temos de nos enquadrar com a realidade. Estamos a dar continuidade a tudo aquilo que consideramos dar resposta aos anseios dos bonfinenses, mas, entretanto, colocamos em prática as nossas políticas, as nossas ideias, sem que, com isso, se quebre, abruptamente, o trabalho que vinha a ser efetuado.

Foi feito – repito! – um bom trabalho pelo anterior executivo, ainda que não possa opinar sobre essa matéria de forma tão consistente quão a opinião que há pouco referi sobre o trabalho do António Fonseca, pois, nesse caso, colaborei diretamente com ele… aí, posso dar um parecer com mais conhecimento. Agora, aqui, pelo que fui constatando, fez-se um bom trabalho! Depois, é claro, pode dizer-se que se podia ter feito melhor aqui, ou ali, mas isso… é natural!

As juntas de freguesias têm as suas competências, mas também muitas limitações para as desenvolverem. Há mesmo competências que não lhes foram atribuídas. Isto é algo que constato nas juntas por onde temos passado em reportagem. No Bonfim, isso também acontece?

Uma das coisas que gostava de ter – portanto, da nossa competência -, era a gestão do cemitério do Prado do Repouso. Não é possível! Mas, entretanto, dou-lhe o exemplo muito prático de uma das coisas que nós temos trabalhado bastante, e que faço constantemente: tirar fotografias aos canteiros e jardins, aos espaços verdes, aos quais queremos dar-lhes mais qualidade. Gostaríamos, assim, de ser os responsáveis diretos pela manutenção dos espaços verdes, até porque, prontamente daríamos respostas às necessidades que aí surgem e devem resolvidas.

De salientar, contudo, que o trabalho com a Câmara Municipal do Porto tem sido impecável… muito positivo! Já cá vieram, praticamente, todos os vereadores. E, neste momento, também o relacionamento ‘inter-juntas’ tem sido excelente! Mas, gostaríamos, realmente de ter do nosso lado essa gestão… essa competência.

AS ‘ILHAS’ CONTINUAM A DAR IDENTIDADE À FREGUESIA”, AINDA QUE…

Nos últimos anos, o Bonfim ganhou, no Porto, uma centralidade sem precedentes na sua história. Isto, depois de décadas – e juntamente com Campanhã -, ter sido esquecido no contexto do desprezo dado à zona oriental da cidade. Essa nova centralidade, essa transformação, originou outras responsabilidades à autarquia? Tem sentido isso? Essa centralidade é positiva?

É! A centralidade é positiva.

Isto independentemente de, aqui ao lado, a Rua de S. Vítor, por exemplo, ter um sem-número de ‘ilhas’, tornando-se no maior arquipélago da cidade do Porto… É um contraste?!

Ainda bem que existe esse contraste, porque essas ‘ilhas’ continuam a dar identidade à freguesia.

E as condições em que vivem as… pessoas?!

Atenção: uma coisa são as ‘ilhas’, a sua génese. As ‘ilhas’ no século XIX serviam para dar resposta aos operários que aqui trabalhavam e aqui viviam…

…sobreviviam!

Sobreviviam, sim. Nunca nos podemos esquecer da história… daquilo que fomos! Mas, as condições têm de ser alteradas. Uma das coisas que fiz neste mandato, e que ainda não tem um ano, foi a reabilitação total de uma casa, numa ‘ilha’. Vemos essa questão das ‘ilhas’, em termos de condições de vida, como um flagelo onde se realça o facto de, em algumas delas, não haver sequer, uma casa de banho integrada nas casas. Isso ainda existe em pleno século XXI! Temos, assim, e acima de tudo, de dar condições às pessoas! Essa é uma das minhas bandeiras.

Bandeira que, pelo menos para a Câmara Municipal, continua a ser a das obras de reabilitação efetuadas no bairro da Bela Vista…

Sim. Depois, temos a Lomba. Bairro para o qual há um projeto pioneiro a nível nacional no que diz respeito à reabilitação das ‘ilhas’, e que será algo de fantástico. E estamos a trabalhar, há já algum tempo, na Quinta do Gama. A questão da Quinta do Gama é sensível. Quem está dentro do tema, sabe que estou preocupado, e focado, em arranjar soluções para o local. Soluções essas que terão a colaboração da Câmara Municipal, mais concretamente, da ‘Porto Vivo’. Se será do agrado de todos? A ver vamos, mas, já se sabe como são estas coisas.

AQUI, HÁ TOLERÂNCIA ZERO À DISCRIMINAÇÃO

 Quanto ao projeto das Eirinhas…

Está em andamento. No Bonfim, estamos, praticamente, no centro da cidade, e estamos a viver, de momento, um verdadeiro ‘boom’. Campanhã tira proveito da criação do Terminal Intermodal, que foi há pouco inaugurado, bem como, e brevemente, de todo o complexo do ex-Matadouro. Nós – Bonfim -, sendo o ponto de passagem do centro para a zona oriental, vamos também tirar proveito desse facto. Isto, além da freguesia já ter sido reconhecida, a nível, internacional, como tendo os bairros mais ‘in’ na sua zona central…

…mas, em termos de população, o Bonfim perdeu uma boa percentagem de residentes/eleitores.

Sim. Todavia, agora, está a crescer. No nosso mandato, por incrível que pareça – e refiro-me ao último trimestre de 2021-, crescemos em mil e tal habitantes. Mesmo assim, estamos longe daquilo que já foi a freguesia no século passado. Agora, as formas de ser e estar na política…

… têm de mudar, para se adaptarem às novas realidades?!

Exato. O ‘Porto Plaza’, por exemplo, terá, no Bonfim, até ao final do corrente ano, três mil e quinhentas novas pessoas a trabalhar. Ou seja, isso trará procura de habitação… dará um forte impulso à economia local. E já se começa a ver, locais que, há uns anos, eram esquecidos – estavam abandonados – e, agora, já têm procura… as pessoas já vão, por exemplo, à Lomba ver um concerto; já vão à Avenida Rodrigues de Freitas, ao fim de semana, por causa das atividades que aí se realizam. Depois, além destas novidades, convém destacar o facto que nós fomos a primeira junta da cidade a içar a bandeira LGBT. Ação que foi criticada. Fomos apupados por uns e elogiados, por outros.

É difícil agradar a todos!

Aqui, há tolerância zero à discriminação. Não tolero discriminação… em tudo!

TEMOS UMA POLÍTICA DE PROXIMIDADE! SE TODOS COM ELA COLABORAREM DAREMOS, POR CERTO, UMA RESPOSTA MAIS EFICAZ AOS PROBLEMAS

Na freguesia do Bonfim, entretanto, há mais problemas por resolver… em termos de, por exemplo, apoio social. Há pessoas a viver com muitas dificuldades!

Quando cá chegámos, e ainda não fez um ano, tínhamos duzentos cabazes para apoio social. O primeiro cabaz que demos foi logo em novembro do ano passado…  e, atenção, que tomámos posse em outubro. O que fiz, quase de imediato, foi reunir com a equipa ‘social’ e criar critérios para a atribuição dos cabazes. Pedimos às pessoas que os recebiam, para nos facultarem documentação, a qual revelasse as suas necessidades, e nós, dessa forma, as pudéssemos ajudar diretamente e de acordo com os seus problemas.

Acabei com a entrega de cabazes da forma que era feita… as pessoas para os receberem ficavam publicamente expostas. Penso que, acima de tudo, e nesta ação, temos de manter a dignidade, e não expor as pessoas à comunidade. Devemos, na realidade, salvaguardar as pessoas, e aquilo que elas são. Se precisam temos de ajudar, sem ter de as expor, para todos verem que estão na fila para ir buscar comida. Não, isso não!

Então, alteramos as coisas. As pessoas entregaram os seus documentos, constatando, depois, que de duzentos cabazes passamos para cento e quinze, ou seja, havia pessoas que estavam a receber os cabazes, mas que, efetivamente, já não precisavam deles. 

Então, o número de cabazes diminuiu?!

Diminuiu por uma questão de rigor! Ou seja, quem não veio entregar os documentos que lhes foram pedidos é porque não precisavam dos cabazes. Entretanto, a nível social estamos a dar ainda mais respostas. Neste momento temos, por exemplo, o Gabinete de Psicologia, que não havia até então. Esse gabinete é composto por três psicólogos, isto depois de um acordo que fizemos com a Universidade Lusófona, e tem tido muita procura.

Saiba, que a saúde mental na freguesia é crítica, e, para nós, é uma preocupação. Assim sendo, estamos a tentar ajudar as pessoas nesse sentido. Todavia, ainda há aquele tabu quanto à procura um psicólogo, ou um psiquiatra, pois para muita gente, ainda continua a parecer mal tal atitude. Mas, não, não parece mal.

O Bonfim continua a ter uma população, na sua maioria, envelhecida?

Continua! A propósito, criámos também a proximidade das pessoas com os centros de saúde sediados na freguesia. Fizemos também mais de cinquenta danças – no sentido literal do termo – com e para idosos. Trata-se de um tipo de ginástica, que se realiza todas as terças-feiras, para 45 pessoas, e que tem registado muita adesão, e existem ainda as danças de salão. Depois, estamos no terreno, com a Dr.ª Joaquina Soares, a Drª Leonor Rocha e a Dr.ª Irma Sousa, psicóloga e minha adjunta. Eu próprio, de vez em quando, também vou à casa das pessoas…  Aproveito também a ocasião para destacar o excelente empenho e trabalho de todos os colaboradores que, mesmo com a mudança, têm sido impecáveis.

Trata-se de uma política de proximidade?!

Claro que sim. Se todos colaborarem daremos, por certo, uma resposta mais eficaz aos problemas.

E os problemas, mesmo os considerados de somenos importância, não deixam de ser problemas a resolver…

Verdade! Olhe, tenho ali, mesmo frente ao edifício da Junta, um cartaz de um partido que está a poluir a zona. Não fica bem aquele cartaz ali, e seja destinado a que partido for. Vou até ao fim, até que o cartaz dali seja retirado. Os cartazes, naquele local, só deveriam ser colocados em época de eleições.

A ESTÁTUA DAS CARQUEJEIRAS NÃO VAI SAIR DO LOCAL ONDE SE ENCONTRA

 

Foto: arquivo EeTj

Entretanto, fomos informados – e já que fala em ‘deslocalizações’, gostaria também de ter a certeza – que tem a intenção de retirar a estátua em homenagem às Carquejeiras do sítio onde se encontra, ou seja, na Alameda das Fontainhas…

Eu?! Não! A estátua não sairá do sítio… nem pensar! Quem disse isso desvirtuou. Nunca foi dito que não gostava da estátua naquele local. Aliás, reuni com algumas pessoas – encontro do qual gostei muito – que formam um grupo muito interessante, e falámos sobre as carquejeiras, que também faziam parte do Centro Histórico.

Uma parte da rampa faz parte do centro Histórico, ou mais concretamente, da Sé, mas outra é do Bonfim…

Pronto. Mas, a estátua está lá e lá ficará!

E, depois, lá à beira, temos uma escarpa de criar vergonha, e, pior que isso, onde vivem pessoas sem o mínimo de condições…

Já lá estive com o vice-presidente vereador do Ambiente da Câmara Municipal, a ver as hortas que se encontram no local. Prontifiquei-me, então, e como presidente da Junta, a tomar a gestão dessas hortas, mas isso é, praticamente, impossível porque elas são de particulares.

Essa é uma zona adiada. A Linha da Alfândega, é disso um dos exemplos.

A Linha da Alfândega…

…está adiada, como a coitada ponte de Maria Pia, que há anos se encontra para museu, sem qualquer tipo de utilidade pública.

Isso não é bem da nossa competência, é mais da Câmara e da ‘Infraestruturas de Portugal’.

Mas, a Junta pode denunciar situações. Tanto a da ponte, como a da escarpa?

Vou dar-lhe o exemplo prático, também para desmistificar alguns rumores: comecei a questionar algo sobre quem eram os idosos que frequentavam o Centro de Idosos das Fontainhas. Verificamos, então, que noventa e oito por cento dos utentes não era da freguesia do Bonfim. Não obstante isso, esse centro de convívio servia somente para jogar cartas, tomar café, etc…. 

O centro convívio não tem mais de vinte metros quadrados. Informei, na altura, os frequentadores do centro que íamos entrar em obras, e que dali sairiam por um determinado espaço de tempo. Quando o centro reabriu ninguém lá mais voltou. Nós telefonámos a alguns dos membros, e para nosso espanto a reação foi esta: ‘não há problema, nós estamos na Foz, e por aqui ficaremos’… A gestão foi entregue à Associação Desportiva e Recreativa -ADR das Fontainhas, que está a crescer imenso, e que me orgulho muito em poder estar a ajudá-los. Ao invés do que tem acontecido com algumas coletividades da freguesia, que entraram em declínio, esta está num crescendo saudável, e a gerir esse espaço – destinado a crianças e jovens da zona-, de forma impecável. 

 Por falar em desporto – isto para além do Académico Futebol Clube, que é uma instituição de respeito e de reconhecido mérito na cidade do Porto, e não só -, como é que as coisas estão a evoluir nesse campo?

O Académico é, realmente, uma referência da freguesia e da cidade! Entretanto, continuamos a ajudar o trabalho que está a ser efetuado pela Associação de Moradores da Lomba, não só no campo desportivo, mas também, pela humildade e empenho demonstrado aquando das Rusgas de S. João, onde conseguiram, representando o Bonfim, um honroso segundo lugar, pelo que, aproveito a ocasião, para parabenizar, uma vez mais, o seu trabalho.

A Associação de Moradores da Lomba foi, é, e no que depender de nós, será uma instituição que terá sempre o nosso apoio, até porque, no momento crítico da preparação das rusgas – quando outras associações da freguesia se recusaram a ajudar -, foram os responsáveis pela Associação de Moradores da Lomba que de imediato se mostraram interessados em apoiar a iniciativa. E a verdade, é que, com somente um mês de trabalhos, conseguimos um honroso segundo lugar.

ATRAVÉS DA CULTURA CONSEGUE-SE DAR RESPOSTA A MUITA COISA

E em termos culturais?

Esse é um dos principais focos que tenho no horizonte. Além da área social, é a cultura. Primeiro, quando falamos da ‘área social’ falamos também da saúde mental; falamos de habitação, etc. Este trata-se de um trabalho muito abrangente. Portanto, um dos focos, é dar mais qualidade de vida aos bonfinenses.

Depois, vem a ‘cultura’. Acredito que a partir da cultura conseguimos combater o isolamento das pessoas. Através da cultura consegue-se dar resposta a muita coisa. E a ‘cultura’ não é só um quadro de um determinado pintor; não é só um cantor, é também alguém que escreve, é tudo isso e mais alguma coisa. Essa é, assim, uma das minhas grandes apostas.

Eu disse e reafirmo: ‘vou tornar a freguesia do Bonfim na capital da cultura da cidade do Porto’. Temos, aqui, no Bonfim, todas as condições para estarmos em destaque no campo cultural. O Festival Internacional de Expressão Ibérica-FITEI está quase a ter a sua sede na nossa Casa d’Artes. A Seiva Trupe’ está na Sala-Estúdio Perpétuo, ao Marquês… ou seja, nós já temos todo um nicho muito interessante, e quero mais… quero fazê-lo crescer! 

Portanto, o objetivo é transformar a freguesia do Bonfim na ‘capital’ da Cultura da cidade do Porto…

Sim.

SOU MUITO EXIGENTE COMIGO PRÓPRIO

Sente-se bem a trabalhar consigo, como presidente da Junta?

Sim! Sou muito exigente comigo. E como sou exigente comigo, o meu patamar de exigência é elevado, e quando é elevado, nunca estamos bem com tudo o que é concretizado, e isto porque quero sempre conseguir mais, e mais. Enquanto eu não vir que tenho todas as respostas dadas, não me sinto satisfeito, mas é sempre bom saber que para lá caminho.

Falámos já em relação a pontos concretos, digamos que emblemáticos da freguesia, e, a propósito, não nos podemos esquecer do Liceu / Escola Secundária ‘Alexandre Herculano’, cujas obras de reabilitação estão quase concluídas…

Fico, extremamente, contente em saber que, ali, está uma das melhores escolas da cidade do Porto e que, em breve, abrirá as suas portas. Era uma resposta que precisávamos há muito tempo. E destaco também os projetos para a freguesia, que estão ainda em gabinete, mas que, brevemente, estarão aí. O ‘Alexandre’ é, sem sombras de dúvidas, muito importante, até para atrair mais jovens.

Temos, na freguesia, três escolas do Ensino Básico, com cada vez menos estudantes, mas vamos ajudar a tentar contrariar essa tendência, oferecendo mais e melhores condições aos jovens.

O BONFIM SURPREENDEU-ME PELA POSITIVA

João Aguiar em plena campanha eleitoral

 O Bonfim surpreendeu-o?

Eu vivi no Bonfim quase 30 anos, sendo que, entretanto, surpreendeu-me pela positiva.

Com as responsabilidades que tem, vai descobrindo, por certo, outras coisas que escapam aos olhares mais comuns…

Sim, vou descobrindo outras coisas, e não só. Considerando-me uma daquelas pessoas que conhece a cidade do Porto como muito poucos – sou daquelas pessoas que ainda sabe os nomes das ruas-, o Bonfim surpreendeu-me pela positiva. Já essa questão das ‘ilhas’, que fez há pouco questão de abordar, eu não conhecia. Sabia da sua existência, passava por lá perto, mas não conhecia a realidade ao pormenor.

Há esses espaços escondidos que guardam também surpresas agradáveis…

Muito agradáveis!

E desagradáveis também…

É isso que nós, através da nossa política de proximidade, temos de contrariar. Mesmo não tendo as competências todas para o fazer, há que alertar a Câmara Municipal para essas realidades. Câmara que tem sido uma ajuda preciosa para o desenvolvimento do nosso trabalho, porque apoia as questões que levantamos, isto, naturalmente, depois dessas questões serem devidamente explicadas. Como o meu grau de exigência é elevado, se calhar tudo o que foi feito não foi com a dimensão que eu gostaria que fosse, mas a minha resistência também é grande.

A CDU TEM ESTADO SEMPRE NO CONTRA

Depois há o facto de um só mandato ser inconsequente, ou seja, há obras que ficam a meio e outras que não saem do papel…

Sim!

Pensa recandidatar-se à presidência da Junta de Freguesia do Bonfim, ainda que falte algum tempo para pensar, maduramente, no assunto?

É, realmente, cedo para falar sobre esse assunto.

Ainda, por cima, Rui Moreira não poderá recandidatar-se à presidência da Câmara, e pouco se sabe ainda sobre o futuro a dar ao movimento do qual ele é mentor, e pelo qual o João Aguiar faz parte foi eleito…

Não estou preocupado com isso. Neste momento estou preocupado – isso, sim – em fazer o meu trabalho.

Tem uma boa Assembleia de Freguesia?

Tenho! É malta nova que lá está. Logicamente que não estamos sempre de acordo com as propostas-ideias apresentadas.

Mas, há pontos convergentes?!

Sim. Temos dois deputados do Bloco de Esquerda, outros dois da CDU, o PSD com cinco e nós, igualmente, com cinco. O PS com quatro e um independente que era do PAN.

Por mais incrível que possa parecer, o partido, ou, neste caso, a coligação, que não tem dado um contributo positivo, é a CDU. O PS tem surpreendido pela positiva. O Bloco tem tido uma postura muito equilibrada, enquanto a CDU tem estado sempre no contra.

Casa d’Artes – foto: Mariana Malheiro

Em termos de orçamento. Como é que estão as coisas?

Estão bem. Esta minha veia jurídica com formação de gestão dá-me muita segurança, ao ponto de me perguntarem se sou um engenheiro de contas, ou que é que sou? Para trabalhar com as pessoas e com as realidades, tenho de trabalhar com números. Os números não se enganam, portanto: ou é, ou é! Somos a única freguesia que não tem receitas próprias…

Nem as dos cemitérios, como acontece com a maioria das outras…

Sim, nem essas. Mas, as receitas estão a aumentar, e vou conseguir mais. Vou dar-lhe o exemplo de algo concreto: fomos muito elogiados, aquando das festas do S. João, nas Fontainhas, por abrir os balneários e as casas de banho todos os dias, de manhã à noite. Houve, contudo, pessoas que contestaram o preço de vinte cêntimos que foi cobrado para utilizar o espaço, não percebendo, essas pessoas que a casa de banho estava limpa, que tem, assim, despesas de água; despesas com o funcionário que lá está; despesas com papel e líquido para as mãos. ‘Ah! É público’, dizem. ‘Ah é público’, mas o dinheiro público não é nosso, o dinheiro público é de todos, e tem de haver uma gestão de rigor para o utilizar. E para haver rigor temos de ser controlados. Mas, foi bom perceber que também nos deram os parabéns, pelo facto de terem visto, pela primeira vez nos últimos tempos, os balneários de portas abertas de manhã à noite.

E agora? Os balneários públicos estão a funcionar?

Estão sempre a funcionar. Como a do Campo 24 de Agosto que é a que melhor funciona.

E as casas de banho no sopé da igreja do Bonfim?

Vou pô-las a funcionar brevemente, até porque iremos ter, no início de setembro as festas da Santa Clara e de Santa Rita. Atenção que no Campo 24 de Agosto, além do balneário, há espaço para lavar e secar a roupa… ainda que muita gente desconheça essa realidade. Mas, mesmo nessa questão de lavagem e secagem de roupa há critérios: tem de ser freguês; que viva, por exemplo, sozinho; que não possa efetuar essa higiene em casa… portanto, as pessoas que têm dificuldades financeiras comprovadas, não pagam essa lavagem e secagem de roupa. Por isso, é que não podemos dizer que, aqui, temos receitas… efetuamos, na realidade, um serviço público!

Agora, quem vai ocupar o espaço na Casa D’Artes terá de pagar uma renda para lá estar, que, em boa verdade, não é, na verdade, uma renda, é algo de simbólico, mas que temos de cobrar. As nossas receitas são aquelas que vêm da Câmara e nada mais.

Entretanto, vamos fazer algo pela primeira vez no Bonfim, que é contactar todas as entidades da freguesia para que nas festas da Santa Clara…

…que eram, antigamente, um dos festejos de referência no Porto e arredores.

Vamos fazer um esforço, não digo que seja já este ano, para dar mais força e visibilidade à festa.

Festa que ‘morreu’ tal como o São João do Bonfim. Há que ‘ressuscitá-los’…

No São João já se conseguiu fazer qualquer coisa, apesar da controvérsia em torno do baile na Praça da Alegria…

Foi criticado?

Por pouca gente. Mas, convém esclarecer, que quanto ao São João na Praça da Alegria, as pessoas que lá vivem já sabiam que a direção do Agrupamento de Escolas não queria que os bailes fossem efetuados na escola. Ainda tentei que eles fossem realizados na praça, mas por questões de segurança etc. não foi possível. Consegui, então, que o diretor do Agrupamento cedesse o recreio da escola e autorizasse a realização de algumas atividades. E, lá, atuou o Rancho Folclórico do Porto, juntamente com outros ranchos. Depois tivemos a noite de São João que foi organizada pelo Praça da Alegria Futebol Clube. Contratamos grupos musicais para fazermos o espetáculo na Alameda Fontainhas, mas a adesão de público não foi a que esperava.

Nos festejos da Santa Clara vamos ceder espaços às associações da freguesia que se mostraram interessados em ocupá-los. Era impossível andarmos a contactar todas as associações da freguesia. Ao enviar email para todas elas, correria o risco de me esquecer de uma ou outra. Por um erro desses iria pôr em causa todo o rigor e transparência da Junta. Assim, tudo foi divulgado num cartaz, como também no site da Junta; na zona de editais, e nas redes sociais etc….

Para o ano, além de uma maior projeção a dar aos festejos da Santa Clara, queremos ganhar as Rusgas! Em boa verdade, vivi com intensidade as Rusgas deste ano! Absorveu-me bastante. Depois, foi muito bom realizarmos os ensaios em espaço neutro, ou seja, na Junta, pois as Rusgas são do Bonfim e não de nenhuma associação em particular. É claro que foi o estandarte da Associação de Moradores da Lomba, porque foi a única que se disponibilizou a organizar a rusga. Mas, todas as pessoas da freguesia vieram para cá para ver e participar nos ensaios… Depois, e quanto ao S. João, já estou a trabalhar na questão.

A ‘ANAFRE’ PODIA FUNCIONAR MELHOR!

Como é que estamos em termos de presença e participação do Bonfim na Assembleia Municipal?

O Bonfim, na Assembleia Municipal, tem estado ‘a tomar notas’, como dizia um célebre político inglês. O Bonfim já esteve em destaque com o hastear da bandeira LGBT, facto que não agradou a muitas pessoas. É bom recordar que, além do hastear, saímos daqui e fomos colocar umas flores onde foi morta a Felisberta, porque temos de nos lembrar do que aconteceu naquele mamarracho, que esperemos chegue, em breve, a uma conclusão definitiva.

E, pronto: somos uma freguesia que tem comunidades de vários pontos do mundo e que aqui se estão a radicar, e temos de tirar proveito disso. Acho que podemos conviver e aprender com elas. A nossa cidade está a transformar-se numa metrópole…

Capital do noroeste peninsular já é há algum tempo…

Sim, já é. Ainda bem que não entramos nesse tema político da descentralização, e na regionalização…

Não entramos porque, o princípio da descentralização, a nível nacional, deve começar nas cidades e pelas freguesias. E isso já foi abordado nesta entrevista. Já agora, a Junta de Freguesia do Bonfim faz parte da Associação Nacional de Freguesias-ANAFRE?

Sim, estamos na ANAFRE.

E a ANAFRE está a funcionar bem?

Podia funcionar melhor!

É um organismo importante?!

A ANAFRE como órgão que é, e representativo que é, deveria, muitas das vezes, tratar de importantes assuntos, como, por exemplo, a desagregação das freguesias, mas eu nem vou por aí, vou mesmo pelo tema da descentralização de poderes no Porto…

Sim, já o abordamos.

Precisamos dessa descentralização de poderes na cidade. Eu para fazer mais, faço-o com mais dinheiro… isto é como tudo. Mas, com mais competências teríamos mais recursos humanos, e teríamos outra capacidade de resposta, por exemplo na limpeza dos jardins…  Aliás, nesse âmbito da limpeza e do ambiente, a Câmara tem sido impecável. Nós recebemos, recentemente competências para os espaços desportivos, mas eu queria mais. Não quero tornar isto numa República do Bonfim (risos), mas que precisávamos de ‘gerir’ o jardim Paulo Valada, precisávamos, porque aquilo ali precisa de uma intervenção séria, na qual estamos a trabalhar…

É visível o desleixo.

O próprio jardim permite um anfiteatro natural. Temos também a Alameda das Fontainhas, que, no meu ponto de vista, está desaproveitada. Temos ainda uma Praça de Velásquez que tem um jardim com terra batida à volta. Quem vem à cidade do Porto, ou quem é do Porto, encontra-se no Velásquez, café, e não no jardim… na praça. Se o espaço fosse agradável, por certo, seria o ponto de encontro para muitas famílias. É um espaço enorme, tão enorme quão desaproveitado.

E, pronto, a nossa aposta é no campo social e tudo o que o mesmo abrange, desde as crianças aos mais idosos. Houve um partido que veio dizer que a Junta deveria estar mais preocupada com os sem-abrigo. Esse partido só levantou essa questão porque desconhece, por completo, o trabalho que nós fazemos. Os sem-abrigo que existiam nas Fontainhas já lá não estão. E fomos nós que conseguimos dar respostas para aqueles sem-abrigo.

Mas, há sem-abrigo que gostam de viver assim…

Sim. É o modo deles estarem na vida. Mas, nós mesmo assim, tentamos encontrar soluções, como no caso do Hotel Nave, que identifiquei, e já não estão lá como estavam. Acabou! Um outro exemplo, é aquele senhor que se encontra num banco da Praça Velasquez, não sai dali, não vale a pena tentar encontrar soluções”.

ESTE ANO NÃO HOUVE COLÓNIA DE FÉRIAS PORQUE NÃO HOUVE CONSENSO!

“Ah este ano não houve colónia de férias… não! E não houve, porque não houve consenso. As colónias de férias não podem ser só para uma zona da freguesia. A freguesia tem cerca de 23 mil habitantes, não são oitocentos, nem duzentos. Para minimizar a situação, colocamos os insufláveis que podem ser utilizados todos os dias úteis, de manhã à noite, e que têm tido uma afluência brutal… de pais que trazem os filhos e de avós que chegam cá com os netos. É verdade que isto não substitui uma colónia de férias, mas eu também não me sentia confortável a realizar colónia de férias com monitores que não têm qualquer tipo de preparação. ‘Ai! nunca aconteceu nada até agora’, dizem. Pois… ‘até agora’! Eu a olhar a oferta que tinha, com monitores com idades a rondar os 60 anos, e com um miúdo de dez ou onze anos a começar a correr praia fora, um monitor com essa idade não vai atrás do miúdo ou da miúda, não podia aceitar tais condições.

E depois, temos um workshop de fotografia para miúdos; temos ajudado as instituições, num trabalho que se pode considerar ‘invisível’, como a distribuição de pão, que algumas vezes a fiz sozinho. Outro facto, é que o Bonfim foi das freguesias que mais camiões encheu com destino à Ucrânia. De realçar que também trabalhamos em parceira com os escuteiros das Antas e do Bonfim. Temos ajudado os animais, principalmente os gatos que se encontram ao abandono nas ‘ilhas’… Nós ajudamos, e sinto-me, aí, bem e acordo com vontade para continuar, porque sinto que estou a fazer é para ajudar quem mais precisa. É este estilo e forma de estar que me carateriza e caraterizará.

 

 

17ago22/01set22

 

 

 

 

2 Comments

  1. Rosario Forjaz

    Gostava de ter lido nesta entre vista acerca da mobilidade na freguesia do Bonfim..da criacao de ciclovias.
    Não posso aceitar que das obras na Avenida Fernão Magalhães não tenha sido criada uma ciclovia que permita a circulacao segura de quem trabalho no Bonfim e se desloca para o trabalho.

  2. Alexandre

    Gostava de ter lido nesta entrevista qualquer referência à Conferência Vicentina Nosso Senhor do Bonfim, com mais de 125 anos de existência e que tem sido esquecida pela Junta de Freguesia neste mandato. Tanto se falou em Associações, instituições, entidades e não se menciona (nem por parte do entrevistador, nem do entrevistado) uma instituição das mais antigas da Freguesia? E que se encontra no âmbito do apoio social tão mencionado nesta entrevista?
    Será que há assim tanto conhecimento da Freguesia como se lê aqui?
    Bom…guarde-se o positivo desta entrevista…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.