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Notas a uma leitura de férias: C. Rovelli, o tempo e a ação

Miguel S. Albergaria

 

Passei a idade em que damos conselhos como quem distribui rebuçados. Todavia, nesta época ainda de leituras de férias, arrisco uma sugestão a quem se disponha a voltar às questões básicas, sem querer mergulhar logo em argumentações ou demonstrações exigentes. O pequeno (grande) livro de Carlo Rovelli, ‘A Ordem do Tempo’ (Lisboa, Objectiva, 2020, 191 pp. mas com poucas palavras em cada p.), certamente a justifica. Por introduzir o estado da arte da reflexão sobre o tempo, e uma hipótese para um seu próximo passo, bem na velha esteira de Aristóteles (Física, IV).

Designadamente, a da associação do tempo a cada mudança, sem se invocar qualquer tempo cronológico absoluto. A minha primeira nota a esta leitura é que logo o “filósofo” grego – o maior polímata da história da humanidade – terminou perguntando se, dessa forma, haverá tempo se não houver a mente que meça a mudança segundo um antes e um depois.

 A desconstrução do tempo absoluto e orientado

Como aquele físico (e filósofo) italiano observa, só a partir de Isaac Newton – ou, observemos em complementaridade, desde a mundividência mecanicista Moderna, de que a mecânica clássica é uma expressão paradigmática – assumimos que haverá um tempo absoluto, fluindo por igual em todo o universo, mesmo onde nada aconteça ou mude. O grande matemático e filósofo alemão G.W. Leibniz bem insistiu nessa altura que não faz sentido postular um tempo desligado de qualquer mudança ou acontecimento. Mas, como ainda recentemente lembrou um famoso político ao ser deixado para trás, “quando o rebanho se move, move-se”.

Até nos chocarmos contra as teorias de Albert Einstein e as respetivas corroborações empíricas. As quais admitem a mecânica clássica, mas apenas na situação particular em que interagimos com as nossas pontes, comboios etc. Além dessas pequenas distâncias e velocidades relativas, porém, temos de nos reaproximar de Aristóteles e de Leibniz. Curiosamente, um século depois desta recolocação teórica, parece que a cultura popular (o “rebanho”) ainda resiste a segui-la. Mistérios da mente e ação humanas, perante os quais Aristóteles há dois milénios e quase meio e agora Rovelli quedam as suas investigações físicas.

Voltando ao âmbito dessas últimas, com as teorias da Relatividade explica-se como, assim que um corpo aumenta a sua distância em relação ao centro de outro corpo com grande massa, o tempo do primeiro se estende ou acelera, seja medido em relógios eletrónicos, celulares etc. Como ilustra a imagem anexa, importada da p. 75 do livro aqui sugerido. Assim como, se aumentar a velocidade de um corpo, o tempo dele se retrai ou abranda – daí a célebre experiência mental proposta por Einstein com um gémeo na Terra e outro numa nave estelar, para se reconhecer que, no reencontro, o primeiro estaria mais velho do que o segundo.

Em conformidade, não se concebe nem se corrobora a tal peculiar ideia Moderna de um tempo absoluto. Diferentemente, se bem consigo sintetizar, “tempo”, no caso de movimentos ou mudanças físicas, designa uma das quatro dimensões que compõem uma estrutura que, à falta de um termo melhor do que os tradicionais, se chama “espaço-tempo”. A qual, por sua vez, constitui o aspeto formal de uma entidade cujo aspeto mecânico, ou relativo ao efeito que produz no movimento, se chama “campo gravitacional”. De modo que a gravidade é simplesmente o espaço-tempo “encurvado” pela massa de corpos como estrelas e planetas, e o tempo é simplesmente uma das medidas que determina quão esses movimentos são afetados pela gravidade.

Nas palavras do nosso autor, “Aristóteles tem razão ao dizer que «quando» e «onde» são sempre apenas a localização em relação a algo” (op. cit., p. 75). Mas “Newton tem razão ao intuir que existe outra coisa além das coisas simples que vemos movimentarem-se e mudarem. O tempo verdadeiro e matemático de Newton existe, é uma entidade real: é o campo gravitacional” (ibid.). “A síntese entre o tempo de Aristóteles e o de Newton é a joia dos pensamentos de Einstein” (op. cit., p. 72).

Entretanto, a física dos séc. XIX e XX também desconstruiu uma “seta” do tempo no plano elementar, “microscópico”. Ou seja, não haveria nada estranho no caso dos átomos de Benjamin Button. Embora no caso do seu agregado, que constitui um homem, o retorno ao passado já seria estranhíssimo – isto é, muitíssimo improvável.

Só fará sentido falar daquela “seta” neste nível macroscópico em que nos encontramos enquanto interagimos. Portanto, ela verifica-se como uma propriedade emergente num nível complexo da matéria, não é uma propriedade geral desta última (cap. 5, 9). Conforme a única lei da física que estabelece uma assimetria entre passado e futuro: a Segunda Lei da Termodinâmica.

Uma sua ilustração macroscópica é a infeliz orientação única de alguma organização para a completa desorganização de muitos quartos de trabalho, como o meu. Mas Rovelli explica-nos que esta orientação decorre apenas de os sistemas compostos por cada um de nós (leitores e escrevinhadores desarrumados) e pelos nossos livros e papéis estarem (os sistemas) “focados” naquelas configurações destes últimos que nos facilitariam a interação com eles, “desfocando-se” de todas as restantes configurações possíveis da papelada. Que serão atravessadas pelo sistema, dada a energia que o mobiliza e a menor probabilidade de qualquer configuração peculiar (como a de uma arrumação perfeita). Mas, não fosse o jogo de focagem/desfocagem, e não se reconheceria uma orientação na mudança entre quaisquer configurações.

Na terceira parte do livro, o autor propõe uma pista de explicação dessa emergência da orientação do tempo tal como o experimentamos. Ainda na primeira parte, todavia, volta a um detalhe da substituição de um tempo absoluto por tempos locais para, na segunda parte, daí retirar a ilação metafísica que, se bem o interpreto, constitui o alfa e o ómega deste percurso reflexivo.

A saber: uma vez que os tempos locais se estendem em ritmos próprios, não há um presente comum aos diversos entes do universo. Um “agora” partilhado pelo que existe, distinto do passado que é próprio de tudo o que não existe, mas terá existido, e do futuro também próprio do que não existe, mas que eventualmente virá a existir. Por conseguinte, temos de assumir que cada “coisa” bem determinada existe e não existe, conforme os pontos de vista!

 Processos, não “coisas”

Como se constitui então, metafisicamente, tudo isto a que se aplica um tempo local, cuja “seta” é apenas emergente e que, na proximidade de um corpo com massa gigantesca, até se pode fechar como um círculo (num eterno-retorno)?

A tese da segunda parte deste livro é que não constituímos substâncias, “coisas” que atravessassem períodos temporais. Antes, por assim dizer, somos esses próprios atravessamentos.

Ou seja, nenhum de nós, os nossos PC etc., é figurável por um barco que se mantenha o mesmo entre a sua construção e o seu abate, independentemente de navegar ora junto ao Porto e Gaia ora em Entre-os-Rios etc., ora com a tinta ainda brilhante e sedosa ora com ela já baça e estalada…

Como se todas estas condições fossem “acidentes” de uma “substância” (na linguagem do filósofo grego sob cuja égide continuamos) que se manteria entre aqueles dois momentos. Diferentemente, se quisermos manter esta terminologia, a noção de “substância” apenas pode significar o próprio processo que evolui desde o seu começo até ao seu fim.

A este propósito, Rovelli (pp. 153-155) cita o diálogo entre o rei Milinda e o sábio N?gasena, no texto budista ‘Milinda Panha’. Complemento-o com a nota de que uma leitura que desenvolve (embora mais arduamente, já não num fluir estival) esta conceção do que existe é a de ‘Process and Reality’, do filósofo e matemático inglês Alfred North Whitehead.

Será então nas interações entre esses processos que estes se determinam, e os respetivos tempos emergem e se concertam.

 Uma construção do tempo tal como é experimentado

Como mencionei atrás, a terceira e última parte do livro propõe uma pista de conceção dessa emergência. Remetendo-nos para uma consideração do tempo psicológico, ou íntimo, à porta do qual Aristóteles nos tinha deixado, e que exploramos desde S. Agostinho (Confissões, XI).

Neste outro tempo, uma vivência presente pode integrar memórias do passado e expetativas de futuro. Como o sabor da madeleine que subitamente remeteu Swann às memórias da sua infância (Proust, ‘Em Busca do Tempo Perdido’, I). O nosso autor refere essa célebre passagem da literatura, assim como a cuidadosa descrição do tempo íntimo por Edmund Husserl, pelas quais reconhecemos que neste tempo, contrariamente ao cronológico, aquilo que se apresenta como passado, aquilo que se apresenta como futuro, e o presente em que precisamente se apresentam, não se excluem mutuamente.

A questão, como tem sido apontado, é por que e como se distenderá o tempo psicológico em passado, presente e futuro, precisamente na medida em que os contrai ou reúne – i.e. a que propósito se distingue um passado de um futuro e de um presente, quando este último se constitui como a imbricação dos outros dois nele? Julgo que esta questão inverte o trilho reflexivo aristotélico em ‘Física, IV’, que referi na introdução, agora desde a mente para as mudanças, mas com cada um destes trilhos a se constituir qual prova dos nove do outro.

Não me apercebo que Rovelli a enfrente diretamente neste seu livro. Em todo o caso, com uma brevidade, coloquialidade e metáforas certamente cativantes, mas que me parece também abrirem ambiguidades, introduz os conceitos de “tempo térmico” e “tempo quântico” que, se bem compreendo, supostamente permitirão explicar aquela distensão do tempo que virá a ser ordenado e reunido entre passado e futuro.

Infelizmente, a minha matemática queda-se bem abaixo da que ele utilizou no ensaio “Forget time”, premiado no concurso ‘The Nature of Time’ (FQXi, 2008) – fica a referência para os leitores que saibam interpretar essa linguagem formal, na exposição mais desenvolvida e rigorosa do que esta no livro que estamos a comentar, e se disponham a uma sua leitura… já não de férias. O que alcanço, na linguagem verbal de ‘A Ordem do Tempo’, é o seguinte:

Neste passo crucial (pp. 124-129), a base é a reconhecida conjugação entre as variáveis energia e tempo num sistema isolado. Posto isso, tomemos um exemplo: i) admitindo o clássico tempo absoluto e ii) uma chávena com chá (quente) com energia para as suas moléculas se agitarem bastante, onde se derrame algum leite (tépido) com pouca energia de modo que as respetivas moléculas se mantenham mais ordenadas; imaginando que nenhum calor se dissipasse para o ar e para a chávena, diremos que iii) após o derrame, a energia no sistema é a mesma, mas a agitação das primeiras moléculas distribui-se também pelas segundas, em sucessivas (no pressuposto tempo absoluto) configurações da mistura entre moléculas mais agitadas e outras menos, até um estado de equilíbrio térmico em toda a bebida.

Prosseguindo na minha duvidosa interpretação, a “hipótese do tempo térmico” joga com a referida conjugação numa inversão da ordem anterior, mas no plano elementar ou quântico onde as leis da física apenas determinarão a variação dos valores das variáveis (e.g. posição, velocidade) em relação uns aos outros, sem se incluir uma variável dita “tempo comum orientado”. Assim, i) admita-se um sistema em estado de equilíbrio; ii) forneça-se energia que produza uma mudança no valor de qualquer das variáveis; iii) essa mudança provocará mudanças nos valores das outras variáveis e, assim, provocará o fluxo de sucessivas configurações do sistema até um seu novo equilíbrio. A medida desse fluxo é o dito “tempo térmico” – não por se reportar a uma temperatura, mas aos processos de organização segundo a teoria termodinâmica – sobre o qual o mais significativo é que é produzido por uma intervenção na situação inicial do sistema.

Esse tempo térmico ainda não tem uma “seta” – pois um sistema de partículas que evolui de uma configuração A para outra B, tanto pode evoluir daí para uma configuração C como de B pode regredir a A – cujo passado pudesse ser recordado ao contrário do seu futuro etc., como acontece no tempo macroscópico que experimentamos. Esta orientação, todavia, poderá ser explicada na base do “tempo quântico”. O qual decorre da assimetria entre os estados de uma partícula intervencionada consoante se determine primeiro a sua posição e depois a sua velocidade, ou vice-versa. O estabelecimento da ordem dessas determinações condiciona o que se lhe segue – como o passado condiciona o futuro.

Ora, aparentemente, os tempos térmico e quântico “são aspetos do mesmo fenómeno” (p. 129).

De forma que o tempo que experimentamos resultará da nossa intervenção focada numa determinada configuração do sistema, e assim desfocada de todas as outras configurações que todavia o sistema, em virtude da sua energia, atravessará até um eventual estado de equilíbrio.

 E uma hipótese para além desta leitura

Sobre o âmbito da génese dessas focagens – ainda não propriamente sobre a estrutura desta génese – o nosso autor abre uma alternativa entre as interações dos agentes que reconhecemos ser, e a autoconsciência resultante de uma introspeção que ele remete para René Descartes. E envereda pelas primeiras, após recusar a segunda. Tanto quanto percebo esse último filósofo, matemático, neurocientista, e também físico francês do séc. XVII, direi que o físico italiano nosso contemporâneo não o percebeu bem. Mas não vou estender estas notas de leitura, já demasiado longas (!), a uma crítica da objeção de Rovelli a Descartes.

Para mencionar antes duas outras críticas ao empreendimento cartesiano de fundamentação do conhecimento. Em especial a segunda, porventura facultará a conceção das acima referidas intervenções no plano macroscópico – e assim da origem do tempo orientado que experimentamos – mas numa divergência daquele empreendimento epistemológico ainda maior do que no quadro de ‘A Ordem do Tempo’.

No fim deste livro, para explorar a ideia de que o tempo é interno e não externo a conhecimentos ou modos de ser como o humano, o seu autor refere os filósofos alemães Immanuel Kant, E. Husserl e Martin Heidegger. Curiosamente, não refere a categoria existencial do “cuidado” (al. Sorge), com a qual esse último concebe aquele modo de ser sempre em ordem a quaisquer intervenções, como diria Rovelli, com um foco que, assim, desfoca todas as outras possíveis configurações do mundo. Talvez possamos explorar concetualmente esta focagem mediante aquela categoria heideggeriana.

Na base da mesma intuição, Charles Sanders Peirce tinha já aberto uma pista que, sobre a técnica – que nesta rubrica do Etc. e Tal mais nos importará – virá no entanto a opor-se à muito invocada distopia de Heidegger. Logo nos seus artigos da década de 1860, esse notável polímata e filósofo americano argumentou que o fundacionalismo epistemológico não só é impossível como, mesmo que o não fosse, seria desnecessário. Mais, “a minha experiência primária” não será “ver o mundo à minha volta”, contra o que Rovelli afirma (p. 158, itálico meu). Pois “ver” – metáfora de qualquer conhecimento teorético como o cartesiano – constituirá, afinal, um subproduto de agir. A ação prática é que constituirá a “experiência primária”.

Ao fechar as capas duras, macias, desta grata edição da Objectiva, elevam-se-me no horizonte as questões da (atrás aludida) estrutura segundo a qual ocorrerão as focagens/desfocagens que gerarão o tempo que experimentamos, e do tipo de causalidade que precisamente espoletará essa geração. Particularmente sobre a hipótese proposta neste livro tão estimulante quanto belo, sobre como o tempo físico, cronológico, se articula com o tempo psicológico, íntimo, levo destas férias a hipótese de que essa articulação poderá ser pensada mais frutuosamente na pista peirceana, interessada nas ações de resolução de problemas que se impõem nas circunstâncias em que nos vamos encontrando.

Esta pista pragmática também se poderá classificar, pelo menos muitas vezes, como “técnica”. No sentido mesmo da tecnologia, enfatizada pelo filósofo e pedagogo John Dewey na esteira de Peirce e do filósofo e psicólogo William James. Mas, nesta rubrica mensal, certamente haverá tempo para aí regressarmos. Agora, aqui, é mais do que tempo de me desviar para a berma, e deixar a leitora com a possibilidade de voltar a esta questão básica num seu encontro direto com Carlo Rovelli.

 

 

Nota Biográfica do autor – Tive o gosto de colaborar, embora irregularmente, com os antigos ‘O Primeiro de Janeiro’ (página de ‘Ciências’) e ‘Ciência Hoje’, com o ‘Correio dos Açores’ e outros órgãos de comunicação.  De parte dessas intervenções resultou o blogue ‘Tecnologia, Ser Humano e Mundo – Aberturas’, que esta rubrica passa a alimentar. Entre as inúmeras técnicas e artes que nos distinguem desde o Homo Habilis, exerço as do ensino (em ordem àquelas que experimentei na economia privada), treino rudimentos de Aiki-Ken e Kenjutsu, publiquei recentemente um pequeno ensaio em história da tecnologia em Portugal e outro sobre a arte dramatúrgica. Acima disso, sou pai, marido, e escrevi a novela Rufina (2016).

 

 

01set22

 

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