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O rigor da expressão escrita

Joaquim Castro

 

 

Para que haja uma boa expressão escrita, é fundamental respeitar certas normas, tal como a ortografia, a pontuação, a acentuação e a translineação (mudança de linha). Mas para o conseguir, tem de haver a lógica da linguagem, considerando que a linguagem comanda a escrita. E se na escrita os textos podem ser, eventualmente, corrigidos, na oralidade a situação é mais problemática, pois uma palavra atirada a quem a ouve, é como uma pedra arremessada. Não tem volta. Falo das rádios e das televisões, meios nos quais muitos notáveis se apresentam para mandar palpites, mas em português defeituoso ou mal articulado.

Os “palpitadores”, sem vestígios de fumo, que também vão falar de incêndios nas televisões, estão entre os que, muitas vezes, deviam estar caladinhos! Por falar de incêndios, ainda não conseguir entender o que é um incêndio “activo”, pois, se não estiver activo, já não há incêndio. Digo eu. Há muito a corrigir, no que diz respeito ao uso da Língua Portuguesa, mas parece que cada vez mais, esta situação se vai agravando e sem fim à vista.

‘A-ZU-LEI-JO’!

Recentemente, foi divulgado um vídeo produzido pela TF1, o canal mais visto de televisão francesa, no qual se punha em evidência os azulejos de Ovar e de Aveiro. Em Válega, Ovar, o destaque foi para a Igreja Matriz, onde predominam os grandes painéis de azulejo, com cenas bíblicas. Durante o vídeo, torna-se notória a forma como uma especialista em restauro tenta ensinar uma estrangeira a pronunciar a palavra, soletrando “a-zu-lei-jo”, quando deveria ter soletrado “a-zu-le-jo”. Ou sela, é “le” e não “lei”. Já sei que também há quem chame “Teijo” ao rio Tejo, que soletrado dá “Tei-jo”. Fica um bocado esquisito. Digo eu.  Os regionalismos existem na Língua Portuguesa, mas tem de haver um limite.

Outro  caso que também me está a chamar à atenção, é a confusão entre singular e plural na construção de frases. Um exemplo: este amigo é um dos que “foi” à Guerra do Ultramar. Ora, o correcto, é dizer: esta amigo é um dos que “foram” à Guerra do Ultramar. Quantas e quantas vezes se ouve isto nas rádios e nas televisões.

‘PERCURSÃO’

Pela pesquisa que fiz, a palavra “percursão não existe nos dicionários da Língua Portuguesa. Contudo, num dos programa “Olhá Festa”, que é emitido na SIC, durante o mês de agosto, apareceu em rodapé a palavra “percursão”, sob a imagem de uma banda, o que é um erro ortográfico. No caso, referia-se a um grupo de percussão, que tal como o nome indica, os intérpretes tocavam, cujos sons eram produzidos por batimentos nos seus instrumentos musicais.

Além dos pontapés na gramática que se ouvem de apresentadores, jornalistas e de outros que vão às televisões fazer os seus “discursos”, sem dúvida que os palavrões que se leem nos tais rodapés, que ali permanecem, às vezes, por longos períodos, são uma barbaridader.

São casos e mais casos, que merecem uma reflexão de quem tem a obrigação de zelar pela Língua Portuguesa nos meios de comunicação social. Nos jornais, o panorama não é melhor, sendo que, até alguns jornais de referência estão a descambar para uma linguagem com pouca qualidade e com muitos erros ortográficos. Haja paciência!

MODERNICES ORTOGRÁFICAS

Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia.

De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa.

Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim.

São muitos anos de convívio.

Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes ‘ccc’ e ‘ppp’ me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância.
Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora:  – não te esqueças de mim!

Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí.
E agora as palavras já nem parecem as mesmas.

O que é ser proativo?

Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois, há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato.

Caíram hifenes e entraram ‘rrr’ que andavam errantes.

É uma união de facto, e para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em ‘há de’ há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem.

Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os ‘eee’ passaram a ser gémeos, nenhum usa (^^^) chapéu.

E os meses perderam importância e dignidade; não havia motivo para terem privilégios. Assim, temos  janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião.

Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.

As palavras transformam-nos.

Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos.

Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum objeto.

Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um C a atrapalhar.

Só não percebo porque é que temos que ser Nós a alterar a escrita, se a Língua é Nossa?!

Os ingleses não o fizeram, os franceses desde 1700 que não mexem na sua língua e porquê nós?

(Autor desconhecido)

01set22

 

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