Ana Costa de Almeida
Nas palavras do activista e jornalista Julian Assange, “Journalism should be more like science. As far as possible, facts should be verifiable. If journalists want long-term credibility for their profession, they have to go in that direction. Have more respect for readers” (“O jornalismo devia ser mais como a ciência. Tanto quanto possível, os factos deveriam ver verificáveis. Se os jornalistas quiserem credibilidade a longo termo para a sua profissão, têm que ir nessa direcção. Terem mais respeito pelos leitores”).
Assange, fundador da WikiLeaks, organização sem fins lucrativos e de cariz vincadamente activista e humanista, foi e continua preso por ter divulgado publicamente o assassinato indiscriminado e impune de civis, incluindo dois jornalistas que faziam o seu trabalho, no dia 12 de Julho de 2007, aquando da guerra no Iraque.
Como a WikiLeaks relata e é já sobejamente conhecido, no dia 5 de Abril de 2010 divulgou um vídeo filmado a partir da mira de um helicóptero militar Apache do exército dos Estados Unidos da América, em que se vêem claramente os ataques perpetrados contra mais de uma dúzia de civis nos subúrbios de Nova Bagdad, entre os quais dois jornalistas da Reuters, cujos próprios socorristas foram alvo de ataque imediato e também ali logo assassinados. Mais um dia, ou um instante, de uma guerra que foi filmado e que veio a ser comunidado à WikiLeaks por um militar.
Depois de terem sido negados à Reuters acesso ao vídeo e sequer informação sobre como tivessem falecido os seus dois colaboradores, as exigências daquela que é tida como a maior agência noticiosa internacional forçaram uma investigação sobre o ‘incidente’, em que se concluiu que as mortes assim perpetradas sobre civis por soldados dos Estados Unidos da América estavam de acordo com as normas de conflito armado que prosseguem e com as suas próprias ”Rules of Engagement”.
Nessa sequência, a WikiLeaks divulgou publicamente (e abnegadamente) o aludido vídeo, para que todos pudessem ter conhecimento e ajuizar sobre a verdade que caracterizava uma guerra e a actuação de soldados contra civis. E revelou ainda as próprias ‘Rules of Engagement’ para 2006, 2007 e 2008, ou seja, o que se determinava antes, durante e depois daqueles assassinatos indiscriminados de civis a que se logrou aceder sobre o que sucedera num dos muitos ‘instantes’ de uma longa guerra no Iraque. Ainda hoje o vídeo, em versões curta e total, pode ser visualizado (e é assegurado pela WikiLeaks que o possa ser), sendo apelidado de “Collateral Murder”.
Estima-se que 567.000 crianças com menos de cinco anos de idade, de entre cerca de 1.500.000 iraquianos, pereceram no Iraque por força das sanções e ataques dos Estados Unidos da América. E que, entre 2003 e 2009, ali foram mortos 139 jornalistas.
Não se olvide, em prol também do respeito pela verdade e de quem por ela pugna, que o Iraque foi invadido e destruído tendo como ‘justificação’ a afirmação de que o Iraque detinha armas de destruição em massa, que foi sendo propalada, reiterada e incutida junto da comunidade internacional, através da comunicação social. O que se sabia de antemão ser falso, como veio a ser confirmado, inclusivamente levando a alguma retratação pública por parte dos editores do ‘New York Time’s’ pelas mentiras que teriam sido induzidos a divulgar, fomentando o apoio da opinião pública, americana e fora desse país, às investidas dos Estados Unidos da América contra o Iraque e a sua população.
Também nas palavras temerárias e certas de Julian Assange, “Media is a big problem around the world, it’s powerful and can abuse its power” (“A comunicação social é um grande problema no mundo, é poderosa e pode abusar do seu poder”).
O método de manipulação em massa, sendo os meios de comunicação social veículos privilegiados para o efeito, não é novo, e as atrocidades contra a própria Humanidade a que conduziu, com a anuência de tantos, deveriam estar ainda bem presentes.
Dessa manipulação, acalentando e fomentando um discurso uno, irracional e muito perigoso, é bem ilustrativo e deveria servir de alerta o discurso de Joseph Goebbels de 18 de Fevereiro de 1943, em Berlim (Discurso do Sportpalast), em que o ministro da propaganda nazi levou ao rubro uma multidão, aplaudindo efusivamente o seu apelo a uma “guerra total”. Dois anos depois os alemães perdiam a guerra, mas deixando marcas das monstruosidades do seu regime, insusceptíveis de cair no esquecimento. Aquelas atrocidades que, mediante discursos de ódio e ‘actuações’ de cariz profundamente xenófobo, habilidosas no propósito de desprover multidões de racionalidade e de conhecimento que lhes permitisse deterem pensamento próprio, tinham sido tão aplaudidas…
Num mundo globalizado, em que mais facilmente se propiciaria o acesso à informação, vivemos tempos de uma imposta censura. Foi e é-nos negado o direito de tomar pleno conhecimento e de divulgar reportagens, documentários, relatos, testemunhos, informações, registos de imagens e filmagens. Numa realidade impensável, mas que se vai arrastando e agravando, no ‘mundo ocidental’ e no seio da própria União Europeia, em grande medida apenas estamos ‘autorizados’ a ver e ouvir o que nos seja impingido, selectivamente, de forma respigada, adulterada, tendenciosa, num manifesto intuito de nos transformar numa audiência desprovida da informação que a cada um permitiria ter opinião esclarecida sobre factos de relevo maior.
Num palco preparado e montado com essa censura e privação de direitos elementares, a comunicação social vem perdendo a sua credibilidade drasticamente, mediante actuações, na sua larga maioria, que em nada se coadunam com o papel que deveria desempenhar. O dever (e, simultaneamente, o direito) a informar transformou-se, maioritariamente, em desinformação, articulada com aquela censura absurda e tão grave no que dela se pode aferir de intenções, e que antes deveria qualquer verdadeiro jornalista ser dos primeiros a reprovar veementemente.
Tornou-se expectável o desrespeito crescente por leitores e ouvintes, a que já se vai aludindo e que se vai constatando, pelos meios de comunicação social que não informam, mas antes se conluiam e se prestam a manipular, mediante ‘histórias’ compostas, alheadas de isenção e de intuito de investigar e de divulgar toda a verdade, chegando mesmo, nessa conformidade, a adulterá-la de modo tão primário e caricato que tal se torna facilmente detectável.
Para maior gravidade, aqueles jornalistas que pelo mundo se destacam por cumprirem, com ética e zelo, a sua função, cientes de que isso dá a importância ao seu trabalho, sujeitam-se a ser perseguidos pessoal e profissionalmente, e a ser mesmo presos pelo novo ‘delito’, apontado pelo dito ‘mundo ocidental’, de se ousar divulgar a verdade, sem amarras, sem tomar partidos. E sem esquecer de apresentar ao público o que, por ofício, bem sabem que está a ser censurado e que, para mais, foi também, sobretudo, o resultado do trabalho e dos riscos por que, para o efeito, passaram igualmente outros jornalistas.
Dizia David Schlesinger, editor-chefe da Reuters, a propósito do vídeo publicamente divulgado pela WikiLeaks para conhecimento da verdade, que as mortes dos dois colaboradores da agência noticiosa foram “trágicas e emblemáticas dos perigos extremos que existem na cobertura de zonas de guerra” e ainda que “O vídeo divulgado (…) através da WikiLeaks é uma evidência explícita dos perigos envolvidos no jornalismo de guerra e das tragédias que podem daí resultar”.
Actualmente, ser-se verdadeiramente jornalista é um acto que depende de uma postura de coragem. Investigar a verdade, com isenção, e pugnar por que seja divulgada acarretam, hoje em dia, riscos maiores e possíveis represálias, incluindo a prisão e a morte, sendo, no entanto, essa a única maneira de se cumprir, de facto, a função e o papel dos profissionais da comunicação social. Papel e funções tão importantes que são, mas que também podem ser desempenhados, e usados, da pior forma possível. E com as piores e mais condenáveis consequências, se a verdade não puder ser reposta por outros.
Bem refere Assange, penalizado e punido por divulgar a verdade do que se passava numa guerra, “If wars can be started by lies, they can be stopped by truth“ (“Se as guerras podem começar com mentiras, podem ser travadas pela verdade”).
Obs – Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc. eTal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01out22
