Helder Pacheco, o professor, escritor, ensaísta, historiador, no fundo, um homem nobre da Invicta por tudo quanto a ela tem dado e dela recebido, é o primeiro convidado a escrever sobre o ‘Estado da Cidade’.
Uma rubrica que queremos periódica neste nosso ‘Etc. e Tal’, assim os futuros convidados e convidadas aceitem o desafio de falar sobre a sua cidade sem medos, receios ou coisas do género que, por vezes, limitam – por autocensura – as pessoas a abordarem aquilo que sendo dos outros, também é deles: o Porto.
Fique, então, com a verdade dos factos sobre o ‘Estado da Cidade’, ou da ‘Naçom’, naquele que é um ensaio assinado por Helder Pacheco…
O ESTADO DA ‘NAÇOM’
“Vivemos numa sociedade urbana, que mudou muito nestas últimas dezenas de anos e, como se tornou evidente, ainda se encontra em plena evolução”
François Ascher, ‘Os Novos Compromissos Urbanos’, 2008

“Perguntou o meu amigo José Gonçalves qual ‘o estado da cidade’ e fiquei sem saber se se tratava de curiosidade jornalística, ou provocação para me ouvir falar politicamente correcto ou incorrecto, conforme as perspectivas. É assim: como nestas questões as opiniões variam de acordo com preconceitos, ideias feitas, gostos, estados de espírito e, se calhar, a situação económica e social de cada um, trago à colação um episódio que me foi dado verificar.
Enviaram-me há dias, por e-mail, o filme de Manoel de Oliveira, ‘O Pintor e a Cidade’. Nele, com a participação de Mestre António Cruz, revisita-se o Porto nos seus bairros, densamente habitados, através dos quais Oliveira retrata ambientes populares da cidade. Trata-se de um excelente documento, datado de 1956. Até aqui, tudo bem. A surpresa surgiu quando resolvi ler os comentários do público que vira o filme. E parte significativa dos mesmos exaltava a cidade mostrada, comparando-a com a actual. Que aquele era o verdadeiro Porto, típico, cheio de carácter, bonito, verdadeiro e feliz. Um Porto não estragado pelo excesso de turistas, de que algumas pessoas tinham saudades. E outras opiniões no sentido de que dantes é que era bom.



Respeitando o direito de cada um manter sobre a realidade a opinião que entender, não é esta a minha visão sobre o passado. Além de vivermos, naquela época, numa sociedade tutelada pela Ditadura, em muitos aspectos retrógrada (abalada, em 1958, pela candidatura de Humberto Delgado e a triunfal recepção que o Porto lhe proporcionou – e não podia deixar de ter uma leitura sobre o sentimento da ‘felicidade’ vivida), em certos indicadores, o país (e a cidade) colocavam-se na cauda da Europa. Em 1960, a taxa de analfabetismo era de 33% (26.6 masculino e 31. feminino). A da alfabetização, em 1950, entre os 7 e os 54 anos, era de 60%, a de mortalidade geral de 10.7 por mil habitantes e a infantil de 77.5 (insuportável, comparada com a actualidade: 2.4, em 2020).
Em 1956, as condições de habitação de muitas áreas do Porto eram de tal forma dramáticas, que a própria Câmara se viu obrigada a lançar o ‘Plano de Salubrização das Ilhas’, prevendo a construção de 6 000 habitações (para fazer face à existência de 13 594 casas, em 1 153 ilhas). Isto sem falar nas situações sub-humanas, de sobrelotação e precariedade, nos bairros da Sé, Barredo e Miragaia. E quem quiser saber qual a verdade desta ‘cidade feliz’, pode ler o livro ‘Barredo’ (justamente de 1956) de uma testemunha presencial da tragédia, o Padre Américo, que o subtitulou como ‘Lugar de Mártires, de Heróis, de Santos’.
De resto, o P.e Américo, pela mesma altura, deu aos técnicos e especialistas uma lição sobre habitação social, activando a construção do Bairro de D. António Barroso ‘Património dos Pobres’, em Miragaia, apontando o caminho que podia ter sido da redenção da cidade: não expulsar a população dos seus territórios mas dar-lhe condições dignas para neles permanecer.


De qualquer modo, não pelas razões apontadas nos comentários ao filme de Oliveira, centradas em certa nostalgia pelo pitoresco, existia, na época, uma cidade que, embora socialmente problemática, afirmava uma personalidade que a caracterizava. Para além de um centro histórico pobre e sobreocupado, a Baixa estuava de vida comercial (Santa Catarina era vista como «a Broadway» caseira) e lazeres mundanos nos cafés, cinemas e teatros, confeitarias, etc. O centro do Porto era, então, um Centro Comercial a céu aberto, enchendo as ruas e, ainda mais importante, nelas se nascia, vivia e morria (conheci quem nascera em Sá da Bandeira, 31 de Janeiro e até nas Cardosas! Eu próprio nasci a 100 metros da Praça).

A Baixa habitada significava uma cidade de gente, funcional, prática, utilitária, com tudo ao alcance da mão e do olhar. Sistemática e paulatinamente essa cidade foi, a partir dos anos 60, pura e simplesmente destruída, por políticas (ou ausência delas) autárquicas que não puderam ou souberam opor-se à invasão de um espaço onde bancos, escritórios, sedes de empresas e consultórios aliados a uma iníqua Lei de Arrendamento, que empobreceu proprietários e arruinou milhares de habitações, todos juntos transformaram a Baixa Portuense, de S. Lázaro ao Carmo, em terra de ninguém. E cemitério de comércios (que a proliferação de Hiper Shoppings periféricos incrementou), associando o êxodo da população à extinção da animação e dos lazeres (con)vividos.
Pesem embora as mudanças introduzidas (para o bem e para o mal) pela adopção do Plano Auzelle no desenho da renovação do Porto, a verdade é que o conceito de Le Corbusier “A cidade é um instrumento de trabalho” parece ter-se sobreposto ao preconizado pelos CIAM (Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna), de a conceber como território para ‘trabalhar, circular, habitar’, já que o terceiro parâmetro falhou por completo (por inoperância, incompetência ou propósito?) no respeitante, sobretudo, ao Centro e Baixa portuenses.
Mas não só. E a derrapagem demográfica está à vista: 303 424 habitantes em 1960, 327 368 (o máximo de sempre), em 1981, 214 587 (o mínimo de sempre), em 2017, num processo de auto-flagelação, ou auto-implosão que durou até aos nossos dias.

Quando, segundo as previsões do próprio Plano Auzelle, a população residente em 2000 poderia ter atingido os 500 000. E não seria, de resto, especialmente difícil. Com a ocupação, por habitação, das manchas rurais ou industriais de Paranhos, Ramalde, Aldoar e Lordelo, como tem sucedido, associada ao aumento exponencial de moradores nestas freguesias e a inegável capacidade de crescimento de Campanhã, se fosse mantida ou incrementada a população do núcleo Histórico e, no Centro, da Baixa (nas grandes freguesias de Cedofeita e Santo Ildefonso e, até, Bonfim), o século XXI não receberia uma cidade sangrada de habitantes que, por razões económicas e logísticas, em matéria de oferta residencial, partiram para as periferias. A cidade enquanto ‘instrumento de trabalho’ e não lugar para morar ajusta-se, à maravilha, à situação portuense.
Houve, não obstante, personalidades e organismos que tentaram barrar o caminho do aviltamento do espírito do Burgo, enquanto Herança de agires colectivos. Aos arquitectos Fernando Távora e, antes dele, enquanto vereador, Carlos Loureiro, e, ainda, Viana de Lima, devemos a salvação da Ribeira do Porto e do Barredo, numa acção depois consubstanciada no esforço magnífico do CRUARB e dos seus técnicos, que embora jamais detentores dos recursos financeiros necessários à reabilitação da Sé, Miragaia e Vitória, conseguiram, mesmo assim, colocar o Centro Histórico em condições de se tornar Património da Humanidade.



Noutro polo da resistência à calculada erosão dos territórios populares, não deve ser esquecida a actividade do SAAL que, retomando a lição do P.e Américo (e dos arquitectos visionários que, nos finais de 30, tiveram a percepção e a ousadia de pensar a reabilitação dos lugares, neles conservando a população, construindo o precursor Bloco de Duque de Saldanha – apelidado, em momento de fúria, pelo então Presidente da CMP, como ‘Caravansaralho’), o SAAL, dizia, foi procurando lutar contra a maré do bota abaixo que não presta e reconstruir, com novas arquitecturas, bairros e ilhas onde estavam e ofereciam condições de qualidade. Mas tudo se desvaneceu nas incongruências do tempo.

Enquanto isso, o Porto ia exportando moradores para outros concelhos, onde havia casas em situações favoráveis. E, embora alguns acontecimentos importantes tivessem ocorrido, a verdade é que o declínio da actividade industrial, comercial e financeira (a que não foi estranha a dança e contradança de nacionalizações e privatizações de sectores até então fortes na cidade e o afã concentracionário na capital, por parte de um centralismo que envergonha a Democracia), e o enfraquecimento da capacidade de intervenção política na vida regional e nacional, caracterizaram o Porto do último quartel de novecentos.
Neste quadro de uma cidade em perda emergem factores positivos que contribuíram para atenuar a sua imersão na mais completa vulgaridade. Entre outros, destacaria a classificação como Património Cultural da Humanidade, a aquisição pelo Estado, da Casa, Quinta e Parque de Serralves (salvando-os de se transformarem em condomínio de luxo) e do Teatro de S. João. o lançamento da rede de Metro (infelizmente com linhas fundamentais, como a do Campo Alegre, eternamente adiadas), a meia Capital Cultural Europeia (com Roterdão), os jogos do Euro 2004 e (só não vê quem vê mal a sua relevância), as vitórias nacionais e internacionais do F.C.P.



Enquanto isso, a VCI ia-se encharcando, até hoje, em cada vez mais trânsito (por culpa exclusiva do Terreiro do Paço que se recusa a colocar a CREP como alternativa) e, no interior do Burgo, o despovoamento continuava a sua marcha inexorável, com ruas, outrora exibindo iniciativa, transformando-se em modorra cívica. Mouzinho era o expoente deste processo, mais as ruas das Flores, Sampaio Bruno, 31 de Janeiro, Duque de Loulé, Santo Ildefonso, Almada, Caldeireiros, Lóios e por aí fora. Uma tristeza, que magoava só de ver.
O Porto perdia população, emprego e riqueza. Este o passado, na transição entre os séculos e, não posso, como tripeiro entranhado nas suas raízes, deixar de partir dele para responder à questão de qual o estado da cidade.
É para mim evidente que, a partir dos últimos dez, quinze anos, muitas coisas ocorreram e outras começaram a mudar. E, na minha opinião, o embrião daquilo que designo como Renascimento da cidade, chama-se Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) e arrancou em 2005, sob a presidência do Eng.º Arlindo Cunha (seguiu-se-lhe o actual Presidente da Câmara, Rui Moreira). Arrancou, com projectos que constituíram, sucessivamente, balões de ensaio, experiências e motores de reanimação e reconversão do espaço construído: o edifício da Papelaria Reis, na Rua das Flores (espécie de ícone ou símbolo da intenção), o quarteirão sul de Carlos Alberto e o grandioso quarteirão das Cardosas. Sobretudo este, concitou críticas e ataques, tal como a actuação da SRU, que se viu vilipendiada por muitos interesses e preconceitos, habituais quando, entre nós, se quer avançar. (Um crítico até comentou que a reabilitação das Cardosas levara à expulsão dos habitantes do quarteirão. Eram cinco e foram realojados os que quiseram ficar!) E ainda faltava um quarto projecto seminal para a reconfiguração do Centro do Porto: o quarteirão interior de D. João I, só agora em vias de concretização, por atrasos de percurso.


A partir daqui tudo começou a mudar e, segundo números da própria SRU, entre 2010 e 2021 foram reabilitados 786 prédios, com um investimento de 579 milhões de euros (75% ou mais, penso eu, de origem privada). Neste aspecto, a cidade a caminho da perdição começou a dar a volta. Ruínas de décadas (como em Miragaia, uma de quando eu era pequeno, nas ruas de Trás, dos Caldeireiros, Vitória, etc.) renasceram, zonas inteiras voltaram ao esplendor da sua arquitectura e, em alguns locais, o desenho moderno integrou-se, sem mácula, no casco antigo (como, entre outros, o Hotel Neya, em Monchique). Ruas que nos envergonhavam estão hoje reconstruídas na sua configuração original e revemos uma cultura arquitectónica que tinha sido substituída pela incúria e a indiferença a que, insensivelmente, as pessoas se iam habituando.


E então o turismo, um fenómeno da maior conflitualidade, que divide opiniões, causa controvérsias, críticas infinitas e ainda mais motivos para elogiar o passado. Já ouvi de tudo: que o Porto está irreconhecível, com tanta gente de fora já nem se ouve falar português, tudo está entregue aos estrangeiros, a cidade fica sujíssima (nem limpam as ruas, cheias de lixo por excesso de turistas). Não há respeito, não há sossego. E por aí fora. Uma hecatombe abateu-se sobre o Burgo porque, no fundo, dantes era melhor: ia-se à Baixa e só havia portuenses, passeava-se à vontade, as noites eram sossegadas (embora desertas) e, resumindo, o Porto era nosso e não dos outros. E vieram os alemães da Spiegel Online acrescentar à carta a ameaça pendente sobre as cidades: o excesso de turismo está a matá-las e o Porto entrou na categoria do perigo iminente (tal como Veneza e Amesterdão, exemplos de tal situação). Neste capítulo, continuo a manter a opinião de sempre: não há turismo a mais, mas Porto a menos. Há excesso de multidões entre a Baixa e as Ribeiras de cá e de lá do Douro. Aí se concentram recursos, oferta, animação, atractivos, comércio, alojamentos, actividade, numa área restrita e com inegáveis condições em termos de sedução física e visual.

Mas, para além disto, porque não o Marquês, com aquela super extravagante e vernácula igreja e a vista soberba da sua Torre? E a elegância do Bairro das Antas, mais o Dragão que, além do estádio, oferece um dos melhores museus interactivos e tecnologicamente avançados da Europa?
E a Lapa (com o seu tributo a D. Pedro IV), igreja e cemitério (dos mais românticos do país), onde não vejo turistas?
E os encantos de Nevogilde e Aldoar, em torno das típicas igrejas paroquiais, acrescentando-se-lhes o Parque da Cidade e a sua aldeia de Carreiras?
E a Arca d’Água, onde existe um manancial histórico (e de possível investimento com retorno financeiro) nas nascentes subterrâneas alegadamente não visitáveis por razões de segurança. (A engenharia não consegue dar resposta aos problemas das galerias que, noutros países, seriam enormes atracções?)

E o Parque da Pasteleira, que permanece às moscas, com o seu Museu, a que chamam Reservatório, excelente repositório da Arqueologia da cidade (razão tinha a Francisca, quando lá foi, pensando ir ver um depósito de água)?
E o Miradouro de Santa Catarina, com o dédalo de ruas que dali parte até ao Ouro? E o Vale de Campanhã, com o Freixo e a incomparável Quinta de Vilar d’Allen? E a Igreja do Bonfim, tão próxima de muitos brasileiros, com o culto a Santa Clara e as vistas que poderia oferecer das suas torres?

E o Bairro das Artes, excelente ideia e projecto de expansão artística, que continua a viver de si próprio? E o completo abandono da Ponte Maria Pia, enquanto património mundialmente reconhecido, que deveria servir as duas cidades?
E os percursos possíveis à procura das artes funerárias dos cemitérios da cidade (incluindo o de St James – se os British quiserem)? E os subaproveitados e semi-ignorados Caminhos do Romântico, oferecendo o fascínio do ambiente rural e industrial oitocentista?
E o fabuloso Parque Oriental, à espera de ser descoberto e usufruido na sua especificidade de espaço fora do tempo da urbe cosmopolita? E a curiosidade lendária da Igreja do Corpo Santo (na beira-rio e ignorada pelos circuitos turísticos), com o Museu da sua incansável Irmandade?
E a casa onde viveu e morreu o rei Carlos Alberto, que podia constituir a celebração do herói da Unificação italiana e promovida naquele país? E o encanto da ‘Vila’ do Carvalhido, a sua Igreja e o comércio, associados (em roteiro) à Quinta e Palacete da Prelada (casa de campo e jardim senhorial para inglês ver)?
E o espectacular (para os admiradores dos fenómenos geológicos) “Complexo Metamórfico de Nevogilde” classificado como “Património Natural Municipal”, de que ninguém fala (chegou a ter visitas guiadas das 4.ªs às 6.ªs), talvez porque pedras não são cultura, mas apenas das rochas mais antigas de Portugal (570 milhões de anos oferecendo-se à observação dos curiosos)?

E a Festa da Senhora da Saúde, em Paranhos, à moda antiga, com procissão, feira e tudo? E a Festa da Santa Clara, do Bonfim, onde aparecem e se «calavam» as primeiras melancias? Ou a do S. Nicolau (única no mundo, quando o Pai Natal, o ‘Santa Claus’ aparece à catraiada, na Ribeira, vindo de barco rabelo? Ou o desfile de S. Bartolomeu (que deveria ser Património da Humanidade, por não haver semelhante), com centenas de figurantes vestidos de papel que, depois, se desfazem num banho no mar – para exorcizar o mafarrico? (Tudo isto e mais alguns episódios festeiros, afirmam a alma profunda de uma cidade que se divertia venerando os santos das suas comunidades, acto provavelmente considerado parolice pelos comissários, curadores e tutores pós-modernos dos factos culturais e da sua própria definição.)


E a Feira (chamada) de Vandoma transferida para Campanhã, onde tem possibilidades de ser um El Rastro ou um Portobelo local ou outras, que, em todo o mundo, atraem forasteiros à cata de pitoresco e de pechinchas? E não falo do encanto escondido no dédalo labiríntico da Foz Velha, para não ter os moradores a queixarem-se da perda de privacidade. Porque, se pensasse um bocado mais, ainda arranjava uma boa dúzia de atractivos, longe da ‘multidão’ e da concentração massiva em locais onde os visitantes da cidade se enredam e confundem com o seu excesso.


Falando então de turismo, enquanto expressão política e social e suas consequências para a actualidade portuense. Na minha opinião (vale o que vale, mas mantenho-a) os números desta actividade salvaram o Porto da crise social persistente e da decadência urbana em que se afundava. O turismo induziu a reabilitação de centenas de edifícios, impulsionou a construção de dezenas de instalações hoteleiras, criou emprego, através da renovação do comércio e do sector dos serviços e está a ajudar a reversão de um problema candente: a falta de um instrumento económico que substitua a indústria na criação de riqueza.
O turismo catapultou a cidade para um lugar cimeiro no panorama internacional, através da sua eleição como destino de excelência. Muito para além do vinho, o Porto oferece-se, agora, em toda a sua dimensão nos planos cultural, científico, identitário, atractivo, gastronómico e da diferenciação. Nunca o Porto se divulgou tanto, nem conheceu tamanho destaque como centro dinâmico (até pela categoria do seu aeroporto) de uma região em ascensão. Venham, pois, mais visitantes e que a cidade saiba expandir-se e oferecer-se na plenitude dos seus recursos. Venham, à procura da resposta a todas as expectativas e ao encontro de um Porto para descobrir (de certa maneira, ainda por conhecer pelos próprios tripeiros).
Mas a cidade a que aspiro nem sequer se confina ao sucesso turístico (seria parcimonioso ficar por aí). A internacionalização que também me entusiasma é a do engrandecimento da sua Universidade, prestigiada pela produção científica das suas instituições. A última notícia com relevância é que entre as universidades de todo o mundo cujas publicações na Base SCOPUS receberam mais de 300 citações, as três primeiras portuguesas foram Lisboa (222), Porto (220) e Coimbra (87). O NTU (National Taiwan Univ.), Ranking no capítulo dos Scientific Papers, coloca a UP no 220.º lugar entre 4000. Não é mau, mas podemos aspirar a muito mais. Uma grande universidade, centrada na investigação, eis o desiderato essencial ao relançamento e afirmação do Burgo.
Todavia se a ciência, a investigação e o nível da sua Universidade constituem esteios da consagração da cidade, a dinâmica cultural impõe outra frente, durante demasiado tempo negligenciada enquanto elemento essencial da qualidade de vida da população (porque as políticas culturais, entendo eu, deveriam, sobretudo e em primeiro lugar, pretender melhorar o quotidiano de todos e não apenas dos que David Goodhart, em ‘The Road to Somewhere’, designa como insighters – os privilegiados – das sociedades democráticas). E nessa dinâmica distinguem-se instituições cujo contributo atingiu níveis de exigência que mudaram radicalmente a paisagem cultural da cidade. Transformaram-na num universo de manifestações, sem equivalente em nenhuma outra época, ao longo do último século (e quem se espantar com a afirmação, olhe para trás e interrogue-se sobre o nível e o volume dos factos culturais dos 50 anos de Ditadura, acrescidos de outros tantos de Democracia e compare-os com a actualidade).



Basta enumerar a Fundação de Serralves (o Museu e o restante), a Casa da Música (finalmente aberta a todas expressões – só falta o registo folclórico de excelência), o Coliseu (onde é evidente o esforço de apresentar espectáculos para todos os públicos), a Alfândega, cada vez mais assumida como Centro de Divulgação Cultural, o sucesso da transição do Jardim Botânico para lugar de eventos pedagógicos (como a Galeria da Biodiversidade) e fantasias (o ‘Magical Garden’ constituiu-se em fascínio, com pessoas aguardando, à noite, a abertura do recinto), para não falar de uma invejável rede de teatros cobrindo todo o espectro da arte, desde o nível de exigência do S. João aos vibrantes espectáculos populares do Sá da Bandeira (que se mantenha assim, em nome do direito de escolha) e até a Seiva Trupe reencontrou poiso no Estúdio de Costa Cabral.



E, será de lembrar o aparecimento, em Campanhã, da Casa de S. Roque, polo cultural num Parque de excelência. Ou a Irmandade e a Igreja e Torre dos Clérigos (que conheci poeirentas, macabras, fantasmagóricas) que o génio, o entusiasmo, a capacidade e a visão prospectiva de uma equipa capitaneada pelo saudoso Padre Américo Aguiar converteram em enorme sucesso, com milhões de visitantes. Tudo isto, além de número quase incontável de festivais de múltiplos géneros, fora de portas (quero dizer: ao ar livre), com milhares de assistentes, ou dentro delas, destacando-se acontecimentos ‘clássicos’ marcantes, do Fantasporto ao Fitei, resistentes que atravessaram a crise da cidade e ao Beast (Festival do cinema da Europa Central e de Leste, agora regressado). E, apesar de todas as dádivas tecnológicas e digitais a domicílio, o cinema está a regressar – designadamente ao espaço público.
Mas o progresso e a qualificação das cidades também dependem dos projectos para se modificarem, melhorando os seus desempenhos no quotidiano das pessoas (porque, contrariamente ao que dizia Le Corbusier, a cidade não é apenas uma máquina de habitar mas, cada vez mais, um instrumento de felicidade colectiva e individual). Há muito que defendo a importância para a formação de uma opinião pública consciente do que se passa no Porto, da existência de um local como o ‘Pavilhão do Arsenal’, em Paris. Nele, a autarquia mostra e informa, permanentemente, o que se passa em matéria de projectos, obras e transformações em curso.
Neste momento, lá se apresenta a exposição (acompanhada de um Ciclo de Conferências) ‘Cidade, Arquitectura e Cuidados de Saúde’, onde os espaços são analisados de modo multidisciplinar, na óptica dos cuidados que promovem (ou não), sob o mote: «lugares e arquitecturas que nos sustentam, ao invés de nos deterem ou conterem». É, pois, a altura de falar das iniciativas em curso no Porto, susceptíveis de incrementar a qualidade da nossa vida, requalificando lugares da cidade.




O Bolhão. O que lá vi (em reportagem da SIC) quase me parece uma impossibilidade, num país onde ainda há quem pensa demasiadamente rasteiro, sem audácia, entusiasmo e modernidade (que continuo a pensar como a ponte entre o passado e o futuro). A reabilitação do mercado é um protocolo entre a competência técnica e a determinação cívica e espero que possa constituir-se em motor de desenvolvimento de uma zona a necessitar urgentemente de relançamento (a Rua Formosa, entre o Bolhão e a Cancela Velha, com excepção do Palacete do Bolhão, é um repositório de estagnação).

O Terminal Intermodal de Campanhã, finalmente concluído, é outro acontecimento relevante pela possibilidade de influenciar a transição daquela parcela, até agora negligenciada nos interesses portuenses, para o almejado reequilíbrio do Bairro Oriental relativamente ao restante território. O mesmo, porventura ampliado, poderemos vaticinar para o efeito, em termos de desenvolvimento urbano, do projecto do Matadouro da Corujeira, enquanto hub social e cultural desencadeador de uma revolução cívica, cujo vértice seria a extensão, sobre a VCI, até ao Dragão. Outro milagre, se tal acontecer. E, pese embora a incomodidade que nos confrange, não deixo de apontar a linha do Metro, de S. Bento à Boavista. Não sendo, como disse, a que me entusiasmaria, constitui um avanço na consolidação da melhoria da vida da população (de que um bom sistema de transporte público é condição). É obra incómoda, perturbante e a sua construção desfeia a Baixa. Todavia, nem queiram saber (segundo contava meu avô) o que custou, na época, a demolição do Bairro do Laranjal para a abertura da Av. dos Aliados! Mas não há outra forma de construir o futuro.

E também não podemos deixar de saudar a reabilitação do cinema Batalha (é pena não ser a praça toda, que bem precisava), aposta possível no relançamento de outra parcela da Baixa a precisar de um empurrão (os hotéis, por si mesmos, não chegam para essa conversão). Entretanto, mal posso esperar para caminhar, outra vez, na Ponte de Baixo, sem a situação de degradação vergonhosa para quem a via utilizada por milhares de turistas. (Ainda estou para entender o que lhe vai acontecer depois de restaurada, já que sem a anunciada ponte rodoviária não há alternativa ao trânsito automóvel, que não pode ser – como se nota – engolido. A ver vamos mas, sobre isso, confesso o meu cepticismo. Proibir trânsito cai bem, é bonito e dá ficha para a descarbonização, mas o pior é o resto…)
Finalmente, temos o inútil (dito) Palácio dos Correios ressurgido como edifício útil, acompanhando a reconversão da Avenida dos Aliados, de cinzento cemitério bancário (depois de ter sido, pelos ditos, convertida em cemitério de cafés), em, pelo menos, alguns hotéis que sempre são melhores do que a aberração de grandiosos edifícios promovidos à condição de cenários (falta devolver alguns à vida activa, mas, com tempo e dinheiro, lá irão, talvez para moradias milionárias). E anuncia-se, como obra fundamental, a nova linha do Metro para Gaia, com a sua própria ponte. Acredito quando a vir.

E não queria deixar de fora uma questão fulcral no concernente à resposta ao doloroso processo de desindustrialização a que a cidade foi submetida, com o desaparecimento de dezenas de unidades de grande, média e pequena dimensão, a perda de milhares de postos de trabalho e a ruína e abandono de numerosos edifícios e complexos produtivos. Num processo inevitável, tal como, sucedeu em praticamente todas as urbes industriais da Europa. (Em 1980, pude testemunhar que Manchester era uma cidade semi-arruinada, amedrontadora, com parcelas, outrora industriais, completamente desertas. Em 40 anos deu a volta e transformou-se, reconvertendo as zonas degradadas.)
A reindustrialização necessária não passa, no entanto, pelas antigas actividades produtivas. O tempo das chaminés pertence ao passado e os seus vestígios são, agora, arqueologia. E as novas oportunidades estão aí, aguardando empreendedores (e investidores) e podendo transformar o Porto num centro activo de desenvolvimento tecnológico, através da criação de pólos de inovação.
Entretanto foi criado o ‘Porto.Leading Investors’, programa destinado a reforçar a relação entre investidores e empresas altamente competitivas. Segundo números recentes, já existem 35 empresas de tecnologias da informação e da comunicação (TIC), criando 2 122 empregos e (oxalá estes números sejam verdadeiros) e foi posta a circular a notícia da captação para a cidade de 725 milhões de euros de investimentos, gerando 14 400 novos postos de trabalho.

Relativamente às ruínas industriais é visível a sua reconversão arquitectónica e funcional ou a transformação dos terrenos fabris para acolherem unidades residenciais, centros comerciais, hipermercados e, nalguns casos, jardins ou parques públicos, como se está a tornar evidente em Massarelos, Lordelo do Ouro, Ramalde, Paranhos, Bonfim e, mais cedo ou mais tarde, em Campanhã.
Pelo que ficou dito, a aparência do estado da naçom é de um toucado de rosas, caindo sobre a cidade, renovando-a, enaltecendo-a e apontando a sua, ainda longe de esgotada, capacidade de crescimento e superação. Falta, no entanto, falar dos espinhos, alguns dolorosos, cravados fundo no coração tripeiro. E o primeiro é demográfico. Embora os malabaristas do efeito Donut discorram sobre a inevitabilidade das cidades contemporâneas, com um buraco no meio, serem superpovoadas nos subúrbios, nem de perto nem de longe teria de ser assim no Porto, se tivesse havido decisão para enfrentar o assalto terciário à Baixa, promovendo outras práticas de habitação social e, especialmente, evitando a expulsão da classe média para as periferias.

O drama que projectou o futuro (que agora vivemos) da cidade às arrecuas e de que custa a redimir-se, pode assim traduzir-se: 1981 – 327 368 habitantes; 2017 – 214 587; 2021 – 231 962. Embora esta aparente saída da espiral da decadência seja contestada por alguns, como artificialmente construída, aceito-a, atendendo aos sinais dados pela imigração e a vinda de novos residentes. Se fosse possível manter este ritmo de recuperação (17 375 hab, em quatro anos) ou mesmo ampliá-lo, poderíamos enfrentar os desafios da modernização e relançamento do Burgo (que só acontecerá tendo gente cá dentro), com perspectivas optimistas.
Mas, para isso, impõem-se políticas de cidade à altura deste grandioso desafio: repovoá-la com qualidade. E os trâmites são claros: investir na habitação social a custos acessíveis à população de baixos recursos, retomando o pensamento luminoso do CRUARB e do SAAL, no respeitante ao Centro Histórico e à Baixa e investir (ou estabelecer parcerias com privados nisso interessados) em habitação (transformando quartéis, Manutenções Militares, fábricas abandonadas e terrenos devolutos, em zonas residenciais), a preços controlados e acessíveis à classe média. Sem recuperar recriando, aceitando, reinventando novos protagonistas (já que os que partiram dificilmente regressam) para a sua expurgada classe média, o Porto não irá a parte nenhuma. Se a cidade conseguir, a curto ou médio prazo, eliminar a habitação precária ou degradante e construir as moradias para a população intermédia que perdeu, poderemos então falar em Renascimento Urbano.


Quanto à habitação para as classes média alta ou alta mesmo, com rendimentos para isso (que também são importantes, económica e socialmente, na cidade que ou se torna inclusiva ou falha a sua vocação de abertura e diversidade), o mercado encarrega-se de a construir e oferecer segundo as leis que o regulam.

Depois dos prolegómenos, justificando o que digo a seguir, passo, finalmente, a responder à questão inicial de como está o Porto. A ideia de que a vida é feita de rosas e de espinhos é do mestre Jean D’Ormesson. Alguns destes, que afectam a cidade, ficaram enunciados (e picam a alma tripeira), mas são muitas as rosas. E perfumam o melhor presente. Apesar dos efeitos do Covid que nos atacou e alterou a vida (e me roubou alguns amigos), da inacreditável Guerra na Europa, do tumulto económico e financeiro que se anuncia, da crise do SNS, do preço dos combustíveis, da corrupção galopante, dos incêndios que arrasaram parte do país, da mediocridade de muitas acções de quem devia primar pela categoria (e decisões subsequentes), apesar das dezenas de barracas que, na degradação da droga, enxameiam nos pinhais da Pasteleira e da pobreza solitária oculta nos recantos da noite, dos tumultos do trânsito, apesar de tudo quanto ofende e atenta contra o espírito e a dignidade do Homem, viver no presente é um privilégio e o Porto recomenda-se.
Porque viver no presente é dispor de ciência, cultura e conhecimento como jamais aconteceu, ao alcance da mão e de toda a gente, em directo ou através dos recursos tecnológicos que nos rodeiam. E é ter acesso a uma qualidade do viver sem comparação com o passado.

O Porto recomenda-se cá dentro e lá fora pelo simples facto de ser como é e estar como está. Por mim, não trocava o presente, o estar agora aqui, por nenhuma época do passado, nem esta cidade por nenhuma outra. É a minha cidade, a minha pátria e pertencer-lhe constitui um privilégio e uma constante aspiração que traz o sal e a doçura à vida. (E desengane-se quem pensa, depois de tudo quanto disse, que a minha é fácil. Mas não temos outra.)
Um dia destes, escrevo ao Woody Allen para vir filmar ‘Um dia de chuva no Porto’, tal como fez o inesquecível ‘A Rainy Day in New York’, começando também com o Bing Crosby a cantar ‘I Got Lucky in the Rain’, envolvido na morrinha, diluindo a paisagem vista do Miradouro das Virtudes.
E, rematando em delírio: uma das razões que me torna optimista, foi a mudança do Burgo, de cosmopolitismo de verniz, para a modernidade assumida. Há quatro ou cinco anos, John Pizzarelli, o maior guitarrista de Jazz da actualidade, actuou na Casa da Música para meia dúzia de espectadores – nem metade da casa – e senti vergonha. Veio cá agora e tocou e cantou os êxitos de Nat King Cole para a casa cheia, a abarrotar. E eu pensei: esta, sim, é a Cidade”.
Helder Pacheco
Foto de destaque: Luís Navarro (abr19)
Fotos gerais: pesquisa Web
A entrada para o ensaio de Hélder Pacheco e o título da ‘peça’ são da inteira responsabilidade da direção editorial do ‘Etc. e Tal’
Obs – Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc. e Tal”, o texto inserto nesta página foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa
01out22







Porque o meu tempo disponível para o Facebook não é ilimitado, e dada a extensão do artigo ou crónica se assim se poderá chamar, não deixo no entanto de parabenizar o seu autor pelas excelentes fotografias que nos faz lembrar o passado e o presente, com alguma nostalgia. Como genuíno Tripeiro que sou, a todos os outros do nosso Porto, um abraço.
Parabéns por enaltecer a minha Cidade do Porto… Graças ao nosso grande Presidente Dr. Rui Moreira um visionário se tivéssemos Residentes com metade da Inteligência dele Rui Moreira e se o Sr. Primeiro Ministro compri-se, a sua palavra de mandar o Infarmed como prometeu a nossa Cidade ainda éramos melhoras e.
parabéns pela excelente matéria o “Porto é uma naçon”, ao autor, Helder Pacheco, meu antigo e estimado colega e amigo e ao jovem etcetaljornal. Obrigada da sempre vossa leitora Otilia Lage