O espólio do Museu de Ovar que há várias décadas incluí um vasto conjunto de peças de arte e vários elementos tradicionais da relação com as abelhas e a natural atividade da apicultura, assumindo particular relevância no roteiro das exposições permanentes desta instituição, através de uma sala especifica dedicada ao tema. Foi recentemente enriquecido com uma significativa doação de várias coleções de peças de arte cerâmica e de diversos tipos de arte com motivos de abelhas, deixadas pelo especialista no segredo das abelhas, João Peixinho Carvalho Simão, que a família confiou ao Museu de Ovar conforme desejo manifestado em vida.
José Lopes
(texto e fotos)
Integrado nas características regionais e etnográficas da origem do Museu de Ovar, que sempre coabitaram com várias outras vertentes de expressão artística de âmbito nacional e internacional. A arte da apicultura ocupa uma sala dedicada exclusivamente a esta atividade, como um espaço pedagógico procurado para visitas escolares no âmbito da educação ambiental, promovendo a perceção das crianças sobre a importância das abelhas a partir do 1.º Ciclo, sendo simultaneamente uma oportunidade de os alunos terem um conhecimento abrangente acerca da natureza, nas visitas de estudo que ali são realizadas.
Na recente entrega ao Museu de Ovar do recheio de arte colecionada por João Peixinho ao longo de uma vida dedicada à apicultura, com mais de quatro centenas de peças, devidamente inventariadas e catalogadas. Encontram-se pinturas alusivas ao tema das abelhas, peças de cera, e uma enorme variedade de peças e esculturas cerâmicas de diferentes dimensões, como dezenas de presépios ou esculturas de Santo Ambrósio (protetor das abelhas). Obras de alguns dos metres ceramistas e escultores, em que sobressaem os nomes de Alberto Miguel (pai), Fernando Miguel (filho) ou ainda José Augusto, Isabel Cardoso e Milena.
Trata-se de uma importante doação que valoriza o já rico e diversificado espólio do Museu de Ovar, uma das instituições de Ovar a quem João Peixinho dedicou grande parte da sua intervenção cívica, levando mesmo o nome deste Museu a nível nacional e além-fronteiras, através de intervenções em palestras e exposições sobre atividade apícola, a exemplo de França e Espanha, nomeadamente Santiago de Compostela em 2000.
Já em 1999 chegou a realizar-se uma parceria entre a Secção de Apicultura do Museu de Ovar e o Museu francês Lamarque. Fazendo-se acompanhar em algumas das exposições, em representação do Museu de Ovar, por Leonor Silva e Lurdes Soares, dupla responsável pela curadoria de algumas destas exposições, com base nas peças da exposição permanente da sala da apicultura, composta por colmeias de Portugal (Gerês e Açores), França e Polónia. Assim como cortiços, cangalhas para transporte de favos por tração animal, ou centrifugadores do mel, fumigadores e outros utensílios relacionados com esta arte, confiadas a esta instituição museológica durante os últimos anos por João Peixinho, que ainda em vida assumiu doar igualmente o seu restante espólio apícola e de peças de arte, pedindo às funcionárias técnicas do Museu de Ovar, ‘para cuidar delas’, recorda Leonor Silva.
Uma profunda e amistosa relação com as memórias de João Peixinho e sua dedicação ao Museu de Ovar e amizade com o fundador José Augusto de Almeida, que deu ainda mais entusiasmo no delicado e moroso trabalho de inventariação, catalogação, registo, incluindo o fotográfico, de cada uma das cerca de 500 peças. Tarefa que decorreu durante algumas semanas no ambiente natural da sala da apicultura, que já acolhe algumas das novas peças como renovados motivos para ser visitada.
A parte mais numerosa das coleções entregues ao Museu de Ovar, sete anos depois do falecimento de João Peixinho (09/03/2015), estão agora à disposição para exposições temporárias de diferentes temáticas, com base num espólio mais rico culturalmente.
João Peixinho Carvalho Simão nasceu no dia 26/02/1929, na freguesia da Glória, em Aveiro. Desenvolveu a sua atividade empresarial em Ovar na fábrica de moagem de cereais ‘Atlântica’ e pautou a sua intervenção cívica como reconhecida figura vareira, em várias áreas culturais e sociais, e instituições, destacando-se nas várias vertentes da arte da apicultura de que foi galardoado com a ‘Abelha de Ouro’ pela Associação Galega de Apicultura. Galardão que faz igualmente parte do espólio que pode ser fator de maior interesse e curiosidade de visitas de estudo, quando aumentam as preocupações com o agravamento da crise climática e o consequente efeito e impactos da extinção das abelhas e polinizadores. Componente pedagógica valorizada no Museu de Ovar.
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