Joaquim Castro
Temos referido nesta nossa rubrica, o uso indevido de pontinhos, para indicar a casa dos milhares, quando tal não está contemplado nas normas ortográficas. De facto, a separação dos milhares num número é feita com espaços e não com pontinhos: 10 000, 1 000 000, 1 000 000 000. Não é: 10.000, 1.000.000, 1.000.000.000. No caso dos números não ultrapassarem os quatro algarismos, não existe espaço a separar esses algarismos, escrevendo-se 1000, 2000, 2022.
Contudo, há muitos meios de comunicação, rádios e televisões, que não respeitam esta norma, mesmo depois de serem avisados desse erro, que prolifera nas páginas dos jornais locais e nacionais, e nos ecrãs das televisões/televisores. Quando vi o número que se vê na foto, que junto, fiquei absolutamente estarrecido, pois, nem acreditava no que estava a ver. Já aqui contei, nesta rubrica, ‘Pontapés na Gramática’, que telefonei para a redacção de um jornal distrital, a alertar para o erro que era pôr pontinhos nos números, para separar os milhares. A resposta foi esta: “não vamos alterar, porque isso é uma norma do jornal e da Direcção”. Portanto, quando assim é, pouco se pode fazer para melhorar a forma de escrita nos meios de comunicação.
MORTAS POR RELÂMPAGOS
Num rodapé da SIC Notícias, li, em 25.09.2022, que “50 pessoas tinham morrido na Índia, atingidas por relâmpagos”. Esse rodapé viu-se durante muitas horas nesse canal. Mas verifiquei que um jornal nacional de grande circulação também noticiou, anteriormente, que “várias pessoas morreram, atingidas por relâmpagos”. Ora, as pessoas poderão morrer se forem atingidas por raios, que dão origem aos relâmpagos, mas que não matam. O que mata são os raios, que se dão entre as nuvens e o solo. Como é sabido, segue-se o trovão ou os trovões, cujo ruído chega após um determinado espaço de tempo, dado que o som tem uma velocidade menor do que a da luz.
O espaço temporal dessa demora, é em função da distância a que se dá o relâmpago provocado pelo raio ou faísca, como se designa popularmente. Quanto mais distante se dá o relâmpago, maior é o tempo da chegada do trovão aos nossos ouvidos. Deste modo, não considero correcto dizer-se que pessoas morreram atingidas por relâmpagos.
CONSTRUÇÕES GRAMATICAIS DEFEITUOSAS
Existe uma nova moda que leva à construção de frases, com as quais não concordo. Por exemplo, quando leio que “homem foi atingido por pancada na cara e pescoço”, fico a pensar que nesta frase falta qualquer coisa. De facto, cara é um substantivo feminino, mas pescoço é um substantivo masculino. Assim sendo, a frase que dou anteriormente como exemplo, deveria ser, “homem foi atingido por pancada na cara e no pescoço”. Na cara, no pescoço, feminino e masculino.
Outra situação que vejo aparecer como tendência, é o de tirar os artigos, o, a, os, as e as preposições simples, e nas contracções simples, seguidas de artigos. Exemplos, no, na, nos, nas, do, da, dos, das. Quando leio que uma festa vai ser “dia 13 do mês tal”, penso que a frase está incompleta. Eu escreveria que vai ser “no dia 13 do mês tal”, ou seja, “em o dia tal”. Também reparei numa notícia, que dizia o seguinte, sobre um indivíduo, que se destaca nas notícias cor-de-rosa: “condenado ao pagamento de 5,5 euros por dia durante 100, perfazendo um total de 550 euros”. Fazendo contas, aqueles 100 referem-se a dias, mas seria preferível, digo eu, escrever “100 dias” e não, apenas “100”. Por fim, digo que recebi uma proposta para comprar um ‘tablet’, mais rápido e fluído. Assim lido, fiquei sem saber se o dito é mais rápido e também mais fluído, pois tal não é escrito.
ADESÃO E CONEXÃO
Sou do tempo, em que a palavra ‘conexão’ não era utilizada frequentemente, como agora acontece. Noutros tempos, há poucas décadas, lembro-me de, apenas, ver utilizada a palavra ligação, para designar união de pessoas, de coisas ou entidades. Agora, a palavra ‘conexão’, ‘conectado’, ‘conectividade’ e outras palavras derivadas, ganham a dianteira, em tudo quanto é discurso. As palavras conexão e ligação existem nos dicionários, não sendo, por isso, um erro de escrita. São palavras sinónimas.
Mudando de assunto, ouvi um cantor que, muito satisfeito, disse que “as suas actuações estavam a ter muita aderência nas suas digressões”. Não é assunto novo por aqui, mas vale a pena lembrar. As duas palavras, adesão e aderência existem, mas não são sinónimas. Ambas exprimem formas de ligação, mas em contextos diferentes. No caso anteriormente referido, o cantor deveria ter dito que “as suas actuações estavam a ter muita adesão nas suas digressões”. No caso, adesão de pessoas. Já a palavra aderência é usada para exprimir a ideia de ligação de superfícies, como é o caso da aderência de pneus à estrada onde circula. Também pode ser a aderência da sujidade aos móveis.
Nota: Por vezes, o autor também erra!
Fotos: pesquisa Web
Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
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