Miguel Correia
Para as pessoas que seguem os ensinamentos patentes na religião – e posso incluir neste lote aqueles que só se lembram de rezar em momentos de aflição – uma das frases, que perdurou através dos tempos, é a que nos diz que devemos casar e multiplicar. Só por aqui, bem analisada a premissa, os que não conseguiram prolongar a divina comédia humana (através da sucessão) sabem que vão encontrar as portas do céu fechadas. Os que optaram (e tiveram sucesso) pelo nascimento de um pequeno ser, que segundo os mais recentes estudos científicos retira onze anos de vida aos progenitores, enfrentaram um mar de dificuldades ao nível de Moisés quando se enganou nas indicações do GPS, foi dar de caras com um rio enorme e teve de meter uma cunha ao Salvador.
Os mais puritanos, para além de me excomungarem, já optaram por não ler o resto da crónica. Para eles, um pequeno petiz enrugado e barulhento personifica a imagem de um anjo e toda a beleza deste mundo. Até podia concordar com isso, desde que, eles estivessem comigo quando o marialva resolve abrir as goelas, ou então, naquela altura em que a fralda recebeu mais carga que o suposto e, conforme as leis da física, a coisa transbordou. Porém, eis que alguém reconhece o esforço que está implícito em ter um filho…
Graças à crise dos combustíveis, provocada pela ocupação ilegal da Ucrânia que, por sua vez, sofria com o aumento do custo do barril de petróleo e, sabe-se lá porquê, influenciou o custo de produção dos cereais desde a queda das torres gémeas com a consequente vinda da Troika. Mesmo que não tenham percebido esta lógica, sentem nas vossas carteiras que os preços aumentam a cada dia que passa.
E, para minorar os custos da fome e aumento do gamanço, alguns hipermercados optaram por enfiar em caixas de plástico com alarme as coisas mais básicas como latas de atum. É, depois da cocaína, o produto mais procurado no mercado negro e, a par das anchovas em molho picante, é tema de estudo forense entre as principais organizações policiais em todo o mundo.
Mas, voltando à parte da natalidade, para além de diversas medidas, o governo resolveu atribuir excecionalmente (no mês de Outubro) um vale de 50,00 euros por cada criança até aos 24 anos. Sim, mesmo sabendo que alguns estão casados com essa idade, para o Estado, continuam a ser crianças! É o montante considerado justo, por quem nos governa, para fazer frente ao encarecimento dos preços e custo de vida. É o merecido pelo consumo de litros de leite para biberons e fraldas deitadas ao lixo. Aqueles que não têm ideia sobre o que fazer a tanto dinheiro podem, num gesto insano, optar por comprar uma torradeira. Mas cuidado com as especificações técnicas: algumas são bem mais caras.
Foto: pesquisa web
01nov22
