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Desprezo pela Língua Portuguesa

Joaquim Castro

 

 

 

Um amigo de Aveiro, Brasilino Godinho, fez duas publicações no Facebook, nas quais lamenta a pouca importância que se dá à Língua Portuguesa. Numa delas escreve, 05 de novembro de 2022 – Dia da Língua Portuguesa, onde se lê:

“Incrível! Uma data que passou despercebida em Portugal. Nem Presidente da República, Governo, Ministro da Educação Nacional, Universidades, Escolas, Associações, Clero e Povo, Órgãos da Comunicação Social, ninguém se referiu à minha Pátria: a Língua Portuguesa. Eu, saudei-a publicamente!

Ser assim tão maltratada é uma demonstração do desprezo a que é votada na terra que é o seu berço. Uma falha inqualificável, num país que celebra efusivamente os pontapés na bola e as palhaçadas dos agentes políticos e de gente medíocre”. Na outra publicação, escreveu: “Saúdo a minha Pátria! Hoje é o dia da Língua Portuguesa. Da minha Pátria muito querida. Ela vem sendo bastante desprezada em Portugal pelos governantes e políticos que dela fazem mau uso, a desprezam e a amesquinham com desfaçatez. Também por isso, ela precisa de ser cuidada e tratada com desvelo e carinho.

Estou aqui assim procedendo e ansiando que ela seja amparada pelo que de melhor ser humano exista em Portugal. Honra e glória à Língua Portuguesa!”.

UNIDADES E MILHÕES

Ouvi uma notícia, na qual era referido que, “entre 130 e 140 milhões”de americanos iam votar nas eleições intercalares dos Estados Unidos, em novembro de 2022. O jornalista deveria ter dito “entre 130 milhões e 140 milhões” de eleitores. 130 é uma coisa, 130 milhões é outra coisa, bem diferente. Em 16 de novembro de 2022, ouvi o presidente da Direcção do Sporting Clube de Portugal, Frederico Varandas, falar das qualidades do treinador do clube, Rúben Amorim, o qual considerava que era um dos melhores treinadores do Mundo. Mas o que me chamou mais a atenção, foi esta afirmação: “há três anos, paguei 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim. Hoje, pagaria 15”. Claro que, muita gente pode deduzir que o líder do Sporting quereria dizer 15 milhões. Cabe aqui recordar que outro erro que aparece sistematicamente na escrita dos jornais e nos rodapés das emissões televisivas, já aqui tratado, é o famigerado pontinho, a separar as casas dos milhares: 1.000, 150.000 ou 1.200.000, por exemplo. Neste caso, a regra será 1000 (sem espaço, por ser um número de 4 algarismos), 150 000 ou 1 200 000 (com espaços).

‘DIGNATÁRIOS’

O jornalista Paulo Sérgio, da Antena 1, a fazer a reportagem do Mundial de Futebol 2022, no Qatar, referiu que não viu mulheres na tribuna presidencial a assistir ao jogo Qatar – Equador. Disse que não havia mulheres junto de altos ‘dignatários’ dos países árabes, que se encontravam presentes na referida tribuna presidencial. Segundo uma pesquisa que fiz, a  forma mais correcta e mais recomendada de escrita da palavra é ‘dignitário’.

A utilização da palavra ‘dignatário’ não é unanimemente reconhecida. Assim, devemos privilegiar a utilização do substantivo masculino ‘dignitário’ sempre que quisermos referir uma pessoa que ocupa um cargo elevado, possuindo título proeminente e graduação honorífica.

Há outras palavras que sofrem do mesmo mal, sendo pronunciadas de forma errada por muitos falantes, incluindo, gente da comunicação social e da política. Muito famosa também, é o caso da troca de ‘acelerado’, bem, por ‘acelarado’, mal. Tenho ouvido este erro, sobretudo, por parte de políticos e relatadores e comentadores de futebol.

ESCOTEIRO OU ESCUTEIRO

Há uma tendência, digo eu, para se considerar que ‘escoteiro’ é um erro linguístico, que a palavra certa é ‘escuteiro’. Pois bem, as duas expressões existem na Língua Portuguesa, mas têm origens diferentes. Ora, o Escotismo foi fundado em 1907 por  Baden-Powell. É um movimento juvenil mundial, que se caracteriza pelas vertentes educacional, voluntariado, apartidária e sem fins lucrativos.

A sua natureza consiste no desenvolvimento do jovem, em que a honra é um dos seus principais valores. Segundo a Lei do Escoteiro, os seus objectivos são alcançados  através da prática do trabalho em equipa e ao ar livre, tornando o jovem um exemplo, sobretudo, em respeito e disciplina. Contudo, em Portugal, usa-se a grafia ‘escutismo’ como definição do escutismo católico. No nosso país, distinguem-se duas associações: A AEP – Associação de Escoteiros de Portugal – a primeira Associação fundada com ‘o’, e o  CNE- Corpo Nacional de Escutas, mas com ‘u’. O certo, é que deveria ser também com ‘o’, pois a palavra já existia. A diferença resulta apenas de divisões entre estas duas organizações, com fins idênticos.

Reza a história, que foi o tenente Álvaro Machado que, em 1911, fundou em Macau o primeiro grupo de escoteiros. Em resumo, não há aqui qualquer pontapé na gramática, mas sim duas formas de escrita diferentes para duas organizações com os mesmos fins.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc. e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01dez22

 

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