Menu Fechar

O que conta um desenho…

Ana Costa

 

Avaliar sempre foi uma tarefa difícil, mas que faz parte da vida de um professor e não se pode fugir de avaliar. Se fosse possível, eu não avaliava… Quer dizer, avaliava, mas se calhar nem sempre classificava e muito menos enquadrava uma suposta prestação numa tabela onde o que conta são números.

Avaliar e classificar, continua a ser para mim muito complicado, não pela classificação em si, ou pelo trabalho que dá, mas pelo impacto que esta classificação poderá ter numa criança e, consequentemente, nas famílias. Mas enfim, adiante, pois se isto fosse a discussão, eu seria vencida pela força do sistema e nunca conseguiria fazer valer o meu ponto de vista.

Uma área em que tenho especial dificuldade em classificar é a Expressão Plástica e, mais concretamente, nos desenhos. Tenho em conta os parâmetros exigidos pelo Ministério da Educação, mas penso sempre no lugar da arte… Um artista será aquele que interpreta o que vê e reproduz segundo a sua interpretação e sobretudo, segundo o que sente. Quem viaja nestes caminhos da educação, certamente já ouviu a história de uma professora que pediu para os seus alunos fazerem um desenho sobre o outono, até que um menino levantou o braço e disse que nunca tinha ido ao outono, sendo que a professora terá ficado escandalizada. As crianças não aprendem dos livros, mas sim do que vivem, do que experimentam e de histórias de vida que lhes contam, fazendo-os voar na sua imaginação. A criança tinha razão… Nunca ninguém a tinha levado ao outono.

Sempre que peço para os meus alunos fazerem um desenho, tento não influenciar e é conhecida a minha frase ‘cada um faz como sabe ‘. Ainda assim, fui-me apercebendo ao longo do tempo, que, ao pedido para fazerem um desenho de tema livre, iria quase inevitavelmente ter folhas brancas, com um céu azul, um sol a sorrir, um chão de relva verde, uma casinha e uma arvorezinha. Às vezes aparecia um menino ou uma menina… Nada de imaginação, sonho ou fantasia.

A determinada altura ‘aboli’ esses desenhos da vida das minhas crianças, com um decreto – lei emitido e aprovado por mim. Tento sempre motivá-los a fazerem coisas diferentes e que tenham a ver com aquilo que vivem, mas sobretudo com a forma como interpretam o mundo que as rodeia, não esquecendo a sua capacidade para desenhar, que obviamente entre os seis e os dez anos, varia muito e está em desenvolvimento.

Não quero nunca perder um futuro artista, e por isso fujo a fazer determinados juízos de valor sobre os desenhos das minhas crianças. Penso sempre no que terá dito a professora do Picasso…’ Isto são só riscos?’

Então… Um dia, depois da abolição da casinha e da arvorezinha, pedi à minha turma que fizesse um desenho sobre um tema que gostassem muito, o chamado desenho livre, mas que pensassem e me apresentassem um desenho que viesse do coração… A determinada altura, o André levanta-se, vem ter comigo e diz que já tinha acabado. Olhei para o desenho, olhei para o André, tentei calar-me, mas não consegui… Olhei para o desenho, fugi ao que muitos professores fazem que é o ‘Muito bem, vai guardar’ e disse-lhe: “Ó filho, explica lá o que é?” E entrei, apercebi-me mais tarde, num caminho sem volta. “É um parneta.” Abri bem os olhos, olhei para o desenho, olhei para o André, e com uma calma que não é minha, disse: “É o quê, filho?” Ao que ele, com os seus olhos rasgados, me responde: “Um parneta, plofessora.”

O André tinha vindo da China há pouco tempo e tinha algumas dificuldades a falar português. Eu ajudava-o e juntos divertíamo-nos com a forma como ele dizia as coisas e era um menino muito querido por todos. Mas naquele momento, eu olhava para o desenho e via tudo menos um perneta… E pensava porque motivo este miúdo foi desenhar um perneta? Entretanto ele deve ter-se apercebido de todas as perguntas que estavam a fazer eco na minha cabeça e insistia: “Parneta, plofessora, parneta!” Eu comecei a desesperar… E ele, conhecendo-me, começa a soletrar e cada vez mais alto: “Par-ne-ta!” E mais alto: “PAR-NE-TA!”

Comecei a sentir dentro de mim, uma força como que em fúria e disse-lhe quase zangada: “André, eu já entendi, é um senhor sem perna, já ouvi o que disseste, mas ele está aqui a fazer o quê? O que são estas coisas?” Ao mesmo tempo, pensava, onde está Piaget agora que estou a precisar? Anda cá, Vygotsky, ajuda-me a vislumbrar este mistério! Não há teoria aprendida que explique um desenho de um perneta… Até porque o problema não era o desenho, mas a explicação…

No meio de tudo aquilo, o mundo eramos só nós, eu, o André e o seu perneta… O resto da turma tinha congelado e estavam de olhos postos em nós, esperando algum desfecho. Ainda houve um infeliz, ao fundo da sala, que tentou salvar o André e dizer-me qualquer coisa, mas aquela bola de quase fogo estava a subir dentro de mim e eu disse logo que ninguém abria a boca! Eu ia descobrir a vida do perneta!

Bem, o André começou a mudar de cor, pegou-me nas mãos e disse: “Ó plofessora, é parneta…” E uma lágrima caiu-lhe da cara…

Então eu, o adulto professor, cheia de teorias de desenvolvimento infantil, que nestes casos servem de muito pouco, entendi a dor do André, a sua forma de interpretar a realidade e um tema que gostava tanto…E naquele momento tive pena dele, mas ainda tive mais pena de mim. Reprovável a minha atitude. Fiz-lhe uma festa na cara, como que pedindo desculpa e disse-lhe. “Já percebi, André, é um planeta…” O André levantou a cabeça, sorriu-me, sorriu para os colegas e estes responderam com um sorriso de alívio.

Nunca mais esqueci o parneta do André e aprendi a lição… Uma criança pode ser um artista e eu não quero, nem devo interferir no seu estilo criativo. Nunca mais perguntei a um aluno o que era o seu desenho e passei a fazer o mesmo que faço quando vou a uma exposição, se não vejo logo o que é, se não entendo, o erro não é do artista, mas sim meu, que não sei interpretar.

Ainda assim tive sorte, o André hoje com vinte e três anos, entendeu-me e sobretudo, perdoou-me, e nem sequer se lembra deste episódio, o que me deixa muito aliviada. Brincamos durante muito tempo com a história do perneta e rimo-nos os dois… Mas ainda hoje não me sai da cabeça a lágrima de desespero que saiu dos olhos do André e do seu bom coração. 

Dali em diante nunca mais interferi nos desenhos das crianças… Só que a casinha e a arvorezinha é que não… Hei-de lutar até que esse protótipo do desenho infantil seja completamente abolido!

 

 

01dez22

 

 

1 Comment

  1. Patricia Duarte

    Peço licença poética, ?Professora Ana?, e faço das tuas palavras, as minhas. ??

    Teu artigo – lindamente – resume tudo que eu cultivo cá em casa.

    Sempre digo a Heleninha que é no papel e no lápis que a gente tem a chance de livremente ser o que quiser. Sem esteriótipos e padrões.

    Escreves com tanta verdade, carinho e simplicidade.

    Obrigada por mais este. ?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.