Miguel Correia
Sou daqueles pais retrógrados que insistem em manter algum pingo de decência humana na época natalícia. Faço parte de uma minoria que resiste, com todas as forças, para que haja magia e encanto para as crianças. E, como tal, tenho feito parte da estatística anual dos visitantes de “Perlim” (antiga “Terra dos Sonhos”) em Santa Maria da Feira.
Porém, se até há pouco tempo conseguia percorrer (de automóvel) cerca de trinta quilómetros – pagando a pronto o valor das portagens e combustível – agora, tendo em conta o custo de vida, resta-me o cartão de crédito e, como se não bastasse, à entrada do recinto, saúdam-me em espanhol!
O maior e mais original parque temático de Natal do país tem vindo a crescer de ano para ano e, por isso, é alvo da cobiça, curiosidade e arrogância de um povo que continua a achar que temos saudades do domínio Filipino. Contudo, verdade seja dita, são eles que têm capacidade financeira para atravessar as autoestradas remendadas – ignorando o elevado número de pórticos instalados – e, ainda assim, ajudar a desenvolver a economia local. Durante a vigência do evento natalício, a armada espanhola ocupa o nosso território. E a magia desaparece…
Graças à crescente internacionalização deste certame, não preciso de inventar desculpas esfarrapadas para justificar, perante os meus filhos, a existência de um velho barbudo e balofo, que não existe! Os filhos dos estrageiros deixam rapidamente de acreditar e, mesmo assim, deslocam-se à procura de qualquer coisa.
Mesmo com a limitação de entradas, por causa da pandemia, continuo a achar que muitos entraram pelas traseiras para iludir a contagem! Tanta riqueza reunida no mesmo espaço deve ter feito inveja ao ministro da economia e seu orçamento de estado. Por lá, nada é gratuito nem sossegado! Todas as atrações têm custos extra associados e filas enormes, com tempos de espera elevados, ao longo de um terreno sinuoso.
Em certos momentos implica uma séria prova de amor dos pais, que devem decidir se o puto (ou respectiva) vale realmente o esforço de continuar a empurrar o carrinho de bebé pelas subidas íngremes e escorregadias! Não encontrei o mundo imaginário que pretende ser mágico, mas sim, a triste realidade de uma trupe espanhola que insiste numa superioridade infeliz e uma sociedade portuguesa (minoritária) que se limita a reservar lugar para o espetáculo pirotécnico de encerramento, duas horas antes de começar.
E, já agora, deixo um pequeno conselho: não se arrependam de levar farnel. É que comprei um lanche misto, na praça de alimentação do recinto, e depois de duas trincas (esposa e filha) fiquei apenas com o guardanapo na mão! Digam-me, onde raio está a magia disto.
Foto: pesquisa web
01dez22
