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Lusail e um imaginário sociotécnico português

Miguel S. Albergaria

 

O nome ‘Lusail’ atravessou-nos recentemente a comunicação e as atenções. Referido ao estádio da dramática final do Mundial, onde antes Portugal garantira contra o Uruguai o apuramento no grupo. Mas o estádio tem esse nome por ser o da nova cidade que os cataris estão a construir de raiz. Na consubstanciação de um imaginário sociotécnico que, implementado também na construção em curso do projeto saudita The Line no outro lado da península arábica, nos lembra que daquela cultura já emergiu uma civilização muito mais brilhante e poderosa do que a então incipiente civilização ocidental.

Referiremos abaixo a definição de ‘imaginário sociotécnico’. Mas, entretanto, apontemos que uma das autoras desse conceito, Sheila Jasanoff, salienta que o método mais indispensável para a explicitação de tais imaginários é a comparação entre países ou regiões, entre setores políticos ou entre épocas. Atender ao que Lusail indicie, pois, será uma boa forma de reconhecermos o que, em Portugal, tomamos como a ordem natural das coisas, mas que se constitui como uma nossa opção e construção coletiva.

Para além desse reconhecimento, sabe-se o que a civilização Islâmica fez a uma civilização Ocidental ainda nos primeiros passos no fim do primeiro milénio. E o que esta civilização devolveu à anterior assim que inverteu a relação de poder, nomeadamente consubstanciado tecnologicamente. De resto, como é de norma na história: parafraseando a máxima romana sobre a paz e a guerra, se queres a cooperação e o comércio mutuamente vantajoso, prepara-te para a competição. Como nos estaremos então a preparar face a projetos como aqueles árabes?

O projeto de Lusail

 A nova cidade começou a ser construída há menos de vinte anos. Terá estruturas de habitação, de serviços e negócios, e de lazer para cerca de meio milhão de pessoas entre habitantes, trabalhadores e visitantes. É uma cidade verde, numa costa antes deserta. No seu subsolo, encontram-se estruturas de circulação de água fria para arrefecer perto de mil edifícios, de transporte do lixo doméstico para as centrais de tratamento, subestações de energia elétrica, túneis para pedestres interligando parques de estacionamento. A mobilidade urbana, além de sustentável – transportes coletivos, partilha de veículos, ciclovias – tem um sistema de gerenciamento inteligente. Para o qual concorrem informações colhidas por sensores sobre fluxos de tráfego, disponibilidades de estacionamento etc. O funcionamento dos equipamentos urbanos é otimizado pela Internet das Coisas.

Este projeto é parte de Qatar 2030, a Visão nacional do futuro para o país. O conceito de ‘imaginário sociotécnico’ designa precisamente tais ‘visões’ e as respetivas implementações materiais.

 Imaginário sociotécnico e coprodução do mundo

 Esse conceito significa qualquer visão de um futuro desejável, sustentada coletivamente, estabilizada institucionalmente e implementada publicamente, mediante uma compreensão partilhada da forma de vida social e de ordem social a alcançar, e suportada, por avanços científicos e tecnológicos (Jasanoff et al., 2015).

A referida autora reporta esse conceito ao de ‘coprodução’ do conhecimento do que o mundo é, e da prescrição do que este deve ser. Isto é, estas prescrições serão limitadas ou condicionadas pelos conhecimentos dos estados de coisas atuais e dos possíveis, tanto quanto os desenvolvimentos destes conhecimentos serão orientados por pressupostos éticos ou prescritivos. Uns e outros são condicionados – alguns autores pretendem mesmo que ‘construídos’ – socialmente, de modo que cada agente tenderá a tomar como verdadeiras e como boas as fórmulas geradas pela sociedade em que se integra.

A cidade de Lusail – The Designe Build Network

Em divergência de Jasanoff e dos autores que a acompanham, julgo que os dois processos dessa coprodução não são rigorosamente simétricos, e que não se constituem propriamente como construções levadas a cabo pelos respetivos sujeitos. Mas, em abordagens introdutórias como esta, creio que podemos usar estas ferramentas concetuais sem maior afinamento. Em particular, para que a comparação com o imaginário sociotécnico indiciado por Lusail melhor nos exponha o imaginário sociotécnico que estaremos a implementar.

Que imaginário é o nosso?

Desde logo, há já mais de um quarto de século, a sociedade portuguesa tem mandatado a mesma organização política – o Partido Socialista – para implementar o imaginário coletivo que estejamos a projetar. A única exceção propriamente foram três anos há duas décadas. Já na sequência da quase bancarrota de 2011, o governo de então teve de implementar um programa que tinha sido acordado por um governo socialista, para resolver a situação criada durante o exercício deste governo anterior. Para o bem ou para o mal, esse partido esteve imbricado nos anos da troika. Portanto, o que tem sido implementado nestas quase três décadas, assim como o que tem sido desconsiderado, representa uma opção dominante da nossa sociedade.

Tomemos dois conjuntos de indicadores que me parece poderem ser significativos desse imaginário.

Por um lado, a aposta na rede rodoviária. Entre 1985, antes da adesão à CEE, e 1995, início do atual ciclo de poder acima apontado, o país passou de 196 km para 687 km de autoestrada (fonte: Pordata). Incluindo a ligação entre Setúbal e Braga, passando por Lisboa e Porto, num retângulo onde vivem 4/5 da população portuguesa. Cumprido esse objetivo, porém, até 2012 construíram-se mais 2.301 km de autoestrada. Tornando-se Portugal o segundo país da Europa com mais quilómetros desse tipo de via de transporte por habitante, e o quarto em números absolutos.

Objetivamente, essa opção técnica não se enquadrou num reforço da produção de bens transacionáveis, pela facilitação do seu transporte rodoviário. Dado que o saldo da nossa balança comercial de bens em percentagem do PIB, entre 1996 e 2011, se manteve entre os 8,2 e os 13,4 pontos negativos, para entre 2012 e 2016 o défice diminuir para a casa dos 5 pontos negativos, e depois voltar a subir para a casa dos 7 pontos negativos (Pordata).

Não vou procurar os números de novos centros comerciais, pavilhões multiusos… também novas escolas e novos hospitais, construídos por todo o país nesse quarto de século. Mas aposto que reforçarão a interpretação de que o futuro que desejamos, numa visão sustentada coletivamente, estabilizada institucionalmente e implementada publicamente, e que suportamos por empreendimentos técnicos como esses, esgota no consumo e no conforto a forma de vida social e de ordem social a alcançar. A questão da sustentabilidade, nomeadamente produtiva, dessas condições de vida parece ser simplesmente desconsiderada.

Por outro lado, tomemos a categoria da sustentabilidade mas com a conotação ambiental que hoje lhe é frequentemente atribuída. Desde os primeiros relatórios do IPCC, estamos avisados para o agravamento, neste território ibérico, de secas no verão e cheias no inverno. Que estruturas técnicas de adaptação a essas alterações têm sido construídas? Apesar de empreendimentos como o do Alqueva, eventos desde os incêndios de Pedrógão às cheias de Lisboa sugerem que as estruturas insuficientes. E quantas novas estruturas estarão assumidas, de urgência, nos atuais orçamentos de Estado e autárquicos?…

Esta insuficiência de mobilização dos recursos nacionais e comunitários, por parte dos agentes portugueses decisivos (não apenas governamentais e autárquicos), para se implementar técnica e materialmente as aspirações de uns quantos indivíduos por uma adaptação ambiental mantém o imaginário sociotécnico português a leste desta sustentação. Como, aliás, aí se mantinha enquanto o arq. Ribeiro Teles pregava no deserto ou dirigia aos peixes os seus sermões sobre formas de mitigação de violações ambientais.

Mediante estes ou outros indicadores, comparemo-nos aos árabes e à visão Qatar 2030. Depois, não é preciso conhecer história das civilizações, basta o bom senso, para prevermos o que, em breve e normalmente, resultará da correlação entre estes dois imaginários sociotécnicos.

 

 

01jan23

 

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