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Que idade tens, professora?

Ana Costa

 

Normalmente não gosto muito de dizer a minha idade, nem sei bem porquê… Mas como este ano é um número tão redondo, desta vez posso dizer e não digo mais, isto era o que eu tinha decidido na minha cabeça. Felizmente não me têm perguntado muito, o que até me agrada. Lá que seja redondo, tudo bem, mas não preciso de o andar a repetir muitas vezes.

Só que as crianças são diferentes e volta e meia lá se lembram de me perguntar quantos anos tenho. Há uns anos atrás enquanto fui mais nova que a maioria dos pais dos meus alunos, até que nem me importava… Mas este ano, quando comecei a fazer o plano de turma e reparei nas datas de nascimento dos progenitores, comecei a sentir uma certa impressão na barriga, quase uma má disposição, muito agravada também pelo facto de ter mães de alunos que frequentavam o quarto ano quando comecei a trabalhar nesta escola, e de quem me lembro na perfeição. E para ajudar esta minha impressão, ainda tenho uma aluna cujo irmão mais velho foi também meu aluno e está a terminar o mestrado. Não se aguenta!

Tudo isto me deixa mal disposta, muitas vezes até triste… Na realidade, os anos vão passando, o meu coração vai ficando cada vez mais rico, mas eu fico mais velha e não há calças rasgadas nem furos nas orelhas que me tirem idade. Quando olho para trás sinto muito orgulho na minha caminhada, mas se fosse mais nova até corria!

Portanto, quando as pequenas criaturas me vêm com a pergunta “Quantos anos tens, professora?”, da minha boca não sai nada… É assim um momento estático, eles à espera que eu fale e o meu cérebro que diz à boca para não se abrir. Eu até acho que eles se apercebem desta minha pequena agonia, porque os meus olhos também querem falar e não podem…

Há uns anos, tive uma turma que, inevitavelmente, tentou iniciar essa conversa. Claro que não respondi logo, pensei em como fugir à pergunta ou fazer como os políticos e dizer “Vou responder a essa questão em três pontos”, e quando chegasse ao terceiro, eles já não queriam saber. Mas decidi jogar e mandei a bola para o outro lado: “Quantos achas que tenho?” E o meu Zé salvou-me: “Tens seis!” Os outros arregalaram os olhos e ainda disseram coisas como “Mas a professora tem carro!” ou “A professora não pode ter seis anos, achas?” E o Zé, na sua calma, que tantas vezes mexia comigo, naquela situação foi brilhante: “A professora tem seis anos, porque ela é como nós. Para o ano vai ter sete e quando chegarmos ao quarto ano, ela vai ter dez!” Ainda houve um mafarrico que tentou: “É, e depois? Volta a ter seis?” “Depois não sabemos, já não estamos cá!” Anda, Zé Pedro, leva esta luta até ao fim, pensei eu respirando de alívio por ter resolvido a questão da idade naquela turma.

Enquanto fui professora deles, o alívio durou e a questão nunca mais se colocou. À medida que eles iam ficando mais velhos, eu acompanhava a idade deles e do meu ponto de vista, estava tudo ótimo!

Quando mudei de turma, outro primeiro ano, lá chegou o dia da pergunta e tudo se voltou a repetir: a pergunta e a minha parva irritação interior. Lá tive que explicar que não gostava de dizer a minha idade e que na realidade, para eles era indiferente, só para mim é que não. Até que um dia, o Filipe olha para mim (e só eu sei como me sentia quando ele fazia isso) e diz: “Já sei a tua idade!” Tremi! “Tu és como nós, portanto tens sete anos!” Respirei e agradeci aos anjinhos que tratam destas questões etárias ao mesmo tempo que o resto da turma, concordava com a cabeça, o que me deixou muito satisfeita. Só quando o Filipe me queria aborrecer é que se saía com “Mas afinal, que idade tens?”

Nunca mais me hei-de esquecer, uma vez a falarmos sobre qual a melhor idade para se ter um telemóvel, eu disse para terem calma, porque até eu, só tive telemóvel aos vinte e dois anos… (Até porque não existiam!) Mas logo ouvi: “Sóóóóóóó? Tu devias portar-te muito mal!”  

Portanto, isto das idades é só este ano e mais nada, porque nunca corre bem!

Ora…Novo ano letivo, primeiro ano, turma nova, primeira semana e… Novamente a mesma questão. Este ano, tinha decidido dizer os números que iam provocar olhos e bocas abertas, mas sem palavras, porque como em muitas coisas, eles são mais inteligentes do que os adultos, é melhor não dizer nada e esperar para ver o que acontece, mas não foi preciso. As crianças do meu coração devem ter decretado e comunicado às gerações seguintes, que eu não tenho idade e a minha idade vai acompanhando a deles e, portanto, este ano letivo, foi decidido na minha sala de aula que eu tenho seis anos e que em janeiro vou fazer sete!

E na realidade, só a fantasia e a magia das crianças é que faz com que uma professora que se esforça por ser jovem, volte a ser criança todos os dias!

 

 

01jan23

 

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6 Comments

  1. Nuno Gonçalves Correia

    Presenteou-nos, com mais um maravilhoso texto. Quando se é extraordinário e se é totalmente apaixonada, pelo que se faz … dá nisto! Partilhas incríveis… bons testemunhos de uma realidade diária. Um excelente 2023 e agora que vêm os tais 7 anos juízo… com a idade vem a responsabilidade… beijinho enorme.

  2. Ana Costa

    Obrigada…
    Sinto-me lisonjeada de lerem o que escrevo, mas sobretudo que entendam que esta realidade de “dar aulas”, não se resume só a isso!
    Obrigada

  3. Carlos Cardeal

    Só uma GRANDE professora e profissional consegue ter descernimento para conseguir a cada 5 anos voltar a ter 6 anos de idade e crescer com os seus alunos!! Parabéns!!

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