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Socialismo democrático

António Pedro Dores

 

Será a democracia que falha ao socialismo ou será o socialismo que falha à democracia?

O socialismo pode ser entendido como parte do movimento de sobrevivência e esperança das pessoas usadas e abandonadas, ainda hoje, pelo dinamismo político e económico dos estados modernizadores. A democracia foi usada, no pós-guerra, para produzir uma alternativa à ditadura do proletariado, integrando os trabalhadores na dignidade de cidadãos, anteriormente reservada aos homens com posses. A derrota das políticas do eixo nazi-fascista na II Grande Guerra, como as derrotas da religião, do capitalismo, do imperialismo, têm sido exageradas pelas ideologias dominantes.

Desde os anos oitenta vive-se numa época em que, à falta de imaginação. À esquerda e à direita olha-se para trás, ao tempo imaginário em que as rotinas não envolviam escolhas políticas na esperança de se voltar à normalidade. Este revivalismo tem-se materializado no depositar da esperança no imperialismo, no capitalismo, na religião: para que juntos voltem a pôr ordem no mundo. A esperança no socialismo foi vivida no passado. Hoje é mera retórica que acompanha o neo-liberalismo. Ou, em alguns casos, deposita a esperança na vitória geoestratégica da República Popular da China e seus aliados para substituir um império capitalista e dogmático por outro.  

A persistência da democracia também é exagerada, a ponto de haver quem chame a atenção – sem grande sucesso – de que é preciso democratas para a democracia funcionar.

À medida que as pessoas são confrontadas com crescentes evidências do alheamento dos estados e das empresas das (paternalísticas e assistencialistas) responsabilidades sociais e se sentem crescentemente em risco pessoal, observando aquilo que ocorre aos outros à sua volta, é natural que se tornem mais irascíveis e violentas. Claro, como chamam a atenção muitos académicos, a situação actual na Europa não se compara com a situação do início do século XX. Nem há a experiência de guerra para a generalidade da população, nem a maioria tem idade para outras irritações do que aqueles que se despejam nas redes sociais. As pessoas não se encontram diariamente para conviver, especadas que estão em frente às respectivas televisões e Ipads ou a circular em transportes. Porém, ao contrário da primeira metade do século XX, as pessoas podem votar e a comunicação social faz sondagens e promoção de opiniões. Os espiões entram-nos pelos computadores e convencem-nos a frequentar certos tipos de opinião e a votar segundo a lei do Pavlov.

Quando se elaboram críticas mais duras contra a situação, como as que acabam por reconhecer haver círculos viciosos de que não estamos a saber escapar, recorrentemente se acaba por referir a esperança de a escola, a educação, as universidades, venham em nosso socorro. A questão é: se não fizeram esse trabalho anteriormente, como e porque o farão para o futuro?

Mesmo quando Greta Thunberg se pôs à porta da escola para se manifestar, os seus seguidores insistem em ocupar escolas na esperança e apelar aos professores (na verdade, a única parte da sociedade que conhecem e a que têm acesso) de que haja aí alguma esperança de solução ou avanço. Esquecem-se que os professores nunca saíram das escolas. Depois de estudantes passaram a professores e aí ficaram toda a vida.

Ora, as escolas e as universidades, sem desprimor para o muito que fazem bem, são experiências traumáticas para uma grande quantidade de gente, estudantes e professores, seguranças e funcionários, que não estão em condições de dizer que odeiam as humilhações institucionalmente organizadas a não ser quando há autorização para faltar às aulas. Nessas ocasiões podem manifestar a sua alegria.

As praxes são formas auto-organizadas de humilhação que, para quem nelas participa, têm a vantagem de serem académicas, mas não serem controladas e não serem registadas nos currículos.

Enquanto sociedade socialista, se se aplicar esse termo aos regimes dominantes no pós-guerra – em Portugal, por exemplo, os dois principais partidos são ambos socialistas, a que se podem juntar os de esquerda –, os jovens descobrem-se presos a regimes de constrangimento concorrencial de que dependem teoricamente as suas vidas, sendo permanente a angústia sobre como a próxima avaliação das autoridades, escolares ou profissionais, os pode remeter para o lixo da sociedade.

A protecção das famílias está bem ilustrada nas estatísticas de quem vive em casa dos pais, de quem não casa, na precariedade dos laços laborais, nas transferências de recursos entre gerações, na convicção de que as novas gerações viverão pior do que as que são mais velhas. As escolas e as universidades garantem aos seus alunos que tudo vai correr bem, espírito positivo. Um dos slogans comerciais mais cool é “just do it”, faz primeiro e pensa depois.

O arbítrio ou sorte da avaliação social e profissional do desempenho é um dado adquirido. Resta a cada um não dar parte de fraco: como explicava Ricardo Salgado no parlamento a respeito das suspeitas de ser padrinho da corrupção em Portugal, ensinaram-lhe a negar tudo, como fizeram todas as testemunhas chamadas à sede da democracia para que se percebesse como o estado e a banca faliram mais uma vez o tesouro público.

É uma pena que o socialismo tenha de ser adjectivado para ser democrático. A existência de tal designação é o reconhecimento da divisão dos socialistas em dois grupos: os democráticos e os outros. O socialismo democrático actual é neoliberal, nem socialista nem democrático. Por isso o politicamente correcto cosmopolita – ou a mentira insistente que se torna verdade, como a lei a ser aplicada por igual a todos, ou o estado protege todos por igual, ou as escolas serem espaços de liberdade – se confronta com as fake news, as notícias inventadas mais do agrado da boçalidade de extrema-direita, como o negacionismo da epidemia, das alterações climáticas ou da existência de um móbil imperial na Rússia.

Para complicar, olhando para o passado, em vez de ditaduras do proletariado, as repúblicas socialistas ou comunistas auto-designaram-se democracias populares, por contraposição às democracias burguesas. Com a queda do muro de Berlim e a implosão da União Soviética, a democracia burguesa passou a ser globalmente consensual, o que não parece ter resolvido problema nenhum. Ao contrário, o século XXI começou pela agressiva reafirmação da excepcionalidade norte-americana que dispensa legitimamente os EUA de respeitarem os tratados internacionais que os próprios subscrevem, desde o fim da guerra, em 1945.

Isso autorizou a utilização pela política externa norte-americana de milícias privadas e secretas para desestabilizar situações políticas sem declaração de guerra, a destruição de tecidos económicos, incluindo nos EUA, para fins especulativos, o aumento dos orçamentos militares alegando inimigos desconhecidos, a promoção de ideologias fundamentalistas e neo-nazi-fascistas no espectro político internacional para inventar e combater inimigos.

O século XXI começou com a denúncia dos erros neoliberais, nomeadamente apontados pelo Fórum Social Mundial, reunindo movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda que debateram entre si o que era democracia: a representação de interesses laborais e políticos através de sindicatos e partidos, sem ser posta em causa, foi considerada oficialmente nefasta para a liberdade de expressão de sentimentos minoritários, de populações discriminadas e de movimentos sociais.

Herdeiras heterodoxas e desorganizadas dos movimentos de trabalhadores do século XIX e XX, as novas esquerdas do século XXI manifestaram-se desconfiadas das esquerdas institucionalizadas pela democracia do pós-guerra resultantes do alargamento dos direitos de cidadania aos trabalhadores reduzidos a parceiros sociais.

A unidade dessas duas esquerdas fez-se na recusa da violência política e na condenação das esquerdas neoliberais que, além de institucionalizadas, defendiam os interesses especulativos internacionalmente organizados pelas políticas norte-americanas vencedoras da Guerra Fria, em nome de uma humanidade feita de responsabilidades individuais teoricamente iguais entre si.

A vida não está fácil. Para uns por estarem em risco de sobrevivência – até o governo o reconheceu quando distribui dinheiro sem condições – para outros por ser difícil perceber o que fazer para interromper a tendência de acumulação de crises sem luz ao fundo do túnel. Todos presos como que numa teia de aranha, em que qualquer tomada de posição ou decisão parece incapaz de nos fazer voltar ao ”normal”.

Há quem diga que há um problema de agência, isto é, protagonismo. Já não há movimentos como o dos trabalhadores ou não há líderes como antigamente. Vivemos numa prisão da imaginação colectiva sistemática e tecnologicamente organizada, como a descrita por Orwell (1948) ou Marcuse (1964), e por outros depois deles, como Zuboff (2019), quando a maioria continua à espera, pelo menos desde 2010, que tudo volte ao normal, nas finanças, na saúde, na guerra, no quotidiano, enquanto, claro, tudo se transforma rapidamente. 

As saídas para a situação em que nos encontramos acarretam esforços pessoais e generalizados para que deixemos de fazer o que estamos a fazer (explorar a Terra para acumular riquezas absurdas e sem utilidade na presunção de que a natureza nos foi oferecida por Deus para desfrutar a nosso belo prazer) e sejamos capazes de sobreviver reinventando cada um as suas identidades profissionais e sociais, apesar de estarmos imersos em ideologias e saberes adversos. Há quem esteja a contribuir para isso, na prática e na teoria. Há quem se recuse a viver em consumismo e agressão da natureza e há também quem o faça em imaginação, como economistas que denunciam a perversidade das teorias económicas (Michael Hudson), antropólogos que denunciam a profunda subsistência da supremacia branca na cultura ocidental (David Graeber e David Wengrow), professores de direito e de filosofia que se viram contra o alegado mérito que os prestigia pessoal, profissional e socialmente (Markovits e Sandel), etc. 

 

  

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do ‘Etc e Tal jornal’, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01jan23

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