Helder Pacheco
“Hoje a pátria, melhor avisada, deixou-se de frenéticas parvoíces de outro tempo, e o que quere é viver de grande e à regalada. Faz muito bem”.
Ramalho Ortigão, ‘Crónicas Portuenses’
Devo dizer, para que não haja equívocos (nem possam confundir-me com inúmeros ‘prafentexes’ para quem o respeito por certos símbolos é coisa parola, ridícula e ultrapassada), que considero o hino e a bandeira nacionais elementos entranhados naquilo que podemos designar como ideia ou sentimento da Pátria. E direi também que, para mim, o patriotismo, enquanto consciência de pertença a uma entidade física e moral a que chamamos país, não está fora de moda. E direi ainda que, desde miúdo, fui habituado por meus pais – que, sempre que podiam, não deixavam de lá passar – no respeito, admiração e, até, veneração de uma chamazinha permanente, acesa no Mosteiro da Batalha (onde íamos em quase peregrinação), conhecida por “Chama da Pátria”.
Porém, uma coisa são coisas sérias e bem tomadas a sério, com a dignidade e a dimensão cívica e pessoal que merecem, outra é a tendência para o apimbalhamento e a mediocridade que, com frequência (sobretudo quando existem oportunismos aproveitando-se delas), rodeiam símbolos relevantes da nossa integridade pátria. Quero dizer: quando não há um sentimento profundo, honesto e sincero mas, tão-só, fogo de vista e folclore político, certos gestos e iniciativas descambam na falta de categoria, na vulgaridade e, não raro, no ridículo. Foi o que se passou, nos tempos da Outra Senhora, com um episódio ligado à “Chama da Pátria”, segundo me contou um interveniente do acontecimento.
Dentro do espírito de amizade que pretendia aproximar Portugal e Brasil, pelos anos sessenta, os respectivos governos entenderam organizar um conjunto de provas desportivas intitulado ‘Jogos Luso-Brasileiros’. Para participar neles deslocou-se àquele país numerosa embaixada de atletas de várias modalidades, integrando ainda dirigentes de clubes, treinadores, além das entidades oficiais. Partiriam do Aeroporto de Lisboa mas, antes deveria chegar de Guimarães o motivo considerado «penetrantemente simbólico» e que para as autoridades lusas era sobremaneira importante: a ‘Chama da Pátria’. Tinha sido acesa no ‘Altar da Pátria’, assim considerada ou classificada para o efeito a Igreja da Senhora da Oliveira (ou seria a de S. Miguel do Castelo?), fazendo brilhar duas lamparinas de azeite trazido expressamente de Trás-os-Montes. Constituía espécie de cordão umbilical que, espiritualmente, ligaria os dois povos, reforçando o significado dos jogos. Tudo pensado e encerrado ao modo da época.
Para o transporte das lamparinas foi cedido pelo A.C.P. um jeep da 2ª. Guerra Mundial, ao qual tinha sido retirada uma grua que lhe estava adaptada, juntamente com o ferramental instalado para a função que o veículo desempenhava de desempenagens na estrada. Foi pois com tal viatura, despida de protecção contra os ventos e temperaturas agrestes, provocados pela deslocação em estrada, que dois desportistas voluntários se incumbiram de transportar a “Chama” até Lisboa: Camossa Proença e Américo Ronfa, pertencentes ao Clube Fluvial Portuense.
E lá foram, estrada fora, cumprindo aquela missão, estranha e atribulada pela dureza da suspensão do jeep, a estrada difícil (a EN1 era sinuosa, apertada, cheia de curvas e, no seu percurso, ia atravessando quantas povoações havia) e a necessidade de andar depressa para não atrasar a comitiva do aeroporto. E começaram então a suceder-se os acidentes de percurso da viagem: com a velocidade, a deslocação do ar e os balanços da viatura, as lamparinas entornavam-se e apagavam. E para enfrentar o inesperado, o snr. Proença, responsável por manter a “Chama” acesa, desfazia-se em difíceis acrobacias para acender os pavios, tarefa ingrata devido ao incómodo das posições necessárias. Enquanto isso, o snr. Ronfa em nada podia ajudar, preocupado com a condução e a velocidade do mostrengo em direcção à Capital do Império, de modo a chegar lá antes do avião partir (a maior ajuda foi dada por dois batedores motociclistas da então P.V.T. (Polícia de Viação e Trânsito), que abriram caminho para eles passarem).
Acontece que o snr. Proença, encarregado da “Chama”, ia vestido a preceito, com fato preto, de cerimónia e laço à gato, impecável. Enquanto isso, o motorista, para se proteger da poeira, levava um fato macaco, de ganga. Foi o que lhe valeu, pois, quando chegaram a Lisboa, devido aos solavancos que tinham suportado, iam os dois cobertos de pingos de azeite das lamparinas, e o snr. Proença, em estado lastimoso, com o fato de gala todo besuntado, ficara pior que uma bicha. Colérico, pela inesperada sujeira de quem ia todo tirone.
Mas o que o levou ainda mais aos arames foi o bouquet final ocorrido quando, transportando a “Chama” na mão, entrou, apressado e diligente, pela gare do aeroporto dentro, pretendendo entregar o símbolo da Pátria aos dirigentes que acompanhavam a embaixada ao Brasil. Então – surpresa das surpresas! – ninguém se prontificou a tomar conta das lamparinas e transportá-las até ao avião. Toda a gente fez de conta e só faltou assobiarem para o lado. Perante isso, o snr. Proença, indignado, desabafou, alto e bom som, com voz de poucos amigos: «Se fosse para arranjar lugar na excursão, todos se ofereciam. Mas, como já têm lugar marcado, não há quem queira levar o símbolo!» E desandou porta fora, deixando a ‘Chama da Pátria’ em cima de um balcão do aeroporto. Para compensar dos azares, foram comer um bom jantar e gozar um pouco da noite de Lisboa – que, segundo o snr. Ronfa (que me narrou a história), na época era bem divertida.
É por estas e outras que, em matéria de símbolos veneráveis e coisas sérias, certas iniciativas soam tanto a improvisação que transformam o sublime e grandioso em mediocridade – o que, convenhamos, é péssimo para a imagem das Pátrias e a autoestima dos que ainda se revêem nelas. Mas para os intervenientes daquela verdadeira odisseia, serviu de lição. Regressaram ao Porto na mesma caranguejola em que tinham viajado para cumprir uma tarefa que julgavam patriótica. E comentava o snr. Ronfa, em jeitos de avaliação final: «Para aquela tropa lá de Baixo, a Pátria é o tacho deles e o fogo de vista a armar. E nós, burros como sempre, fomos na cantiga da Chama da Pátria. Nunca mais.» (Se fosse hoje o patrioteirismo de muitos personagens do Terreiro do Paço, mediar-se-ia em milhões de euros do ‘Dá cá o meu’.)
Foto (perfil): Carlos Amaro (Etc. e Tal)
29mar23
