Miguel Correia
Aqueles que conhecem um pouco da minha vida sabem que, na última década e meia, tenho passado os meus dias aos comandos dos veículos do Metro do Porto (já se justificava uma avença pela publicidade!). É claro que por entre as escalas de serviço existem folgas, mesmo que impere uma estranha sensação de não haver. Mantenho, apesar dos horários desgarrados, um espírito aberto e uma mente razoavelmente sã – à exceção dos disparates que escrevo.
Esta forma de encarar a profissão permite nunca ter algo por garantido e esperar o pior das pessoas que me rodeiam. Porque o seu comportamento é condicionado pelo stress e ponteiros do relógio. Talvez isso seja a explicação para a completa anarquia e modo de vida errante que afeta grande número de indivíduos e pode ser facilmente detetável quando, em via pública, abusam dos auscultadores; atravessam fora das passadeiras e sem olhar; correm desenfreadamente para os transportes públicos e, num gesto de vida ou morte, bloqueiam as portas. Reina a urgência e respetiva estupidez!
Recentemente, uma jovem rapariga chocou com um invisual e conseguiu amolgar-lhe a bengala. Estava distraída e não viu o cego – o contrário seria um pouco estranho! E quando, no meio da azáfama matinal, as pessoas conseguem alguns minutos de (aparente) calmaria, desperdiçam o seu tempo nos telemóveis e bugigangas tecnológicas chinesas. Mergulham no traiçoeiro mundo das redes sociais, séries em ‘streaming’ ou informação em formato gratuito. Resumindo, o corpo está lá. O juízo não…
Num puro e simples exercício de observação pública – algo que já considero como passatempo pessoal – arrisco dizer que algo está diferente desde o fim da pandemia. Os níveis de sanidade mental estão alterados e merecem um estudo aprofundado por parte das entidades adequadas. Aqueles que seguem as notícias do Canal Nacional da Desgraça ficam maravilhados com o nível de ignorância do nobre povo lusitano. É absolutamente normal um filho maltratar um pai ou parente próximo; namorados (ou casados) recorrerem ao assassinato para terminar a relação; andar à porrada por causa de um jogo de futebol e recorrer à caçadeira para terminar a discussão sobre um fora-de-jogo. Há mais situações para numerar, mas o importante é reter que parece pairar uma relativa sensação de impunidade e força invencível.
As pessoas reagem como se tivessem sido abençoadas com poderes mágicos de um qualquer planeta distante! Como observador parcial, temo pela excessiva mecanização e abuso da carga horária que assombra a nossa agenda pessoal e começa logo de manhã, ainda com ramela nos olhos. A pressa, motivada pela necessidade de não chegar tarde, obriga a agir sem pensar. A vida profissional divide fronteiras com as tarefas familiares ou pessoais e, muitas vezes, são a fonte de inspiração para algumas das minhas crónicas. S
e fazem parte dos que fecham a viatura com as luzes ligadas e o cinto de segurança pendurado no exterior, mais cedo ou mais tarde, farão parte do meu trabalho, sem receber por isso! Caso queiram integrar o grupo dos figurantes (rindo dos outros) aconselho que parem um pouco para pensar.
Imagem: pesquisa web
01abr23
