A mais que centenária Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Porto – que se prepara para, daqui a, sensivelmente, dois anos, comemorar o seu 150.º aniversário -, como que ‘renasceu das cinzas’ no passado dia 25 de fevereiro, aquando da tomada de posse do comandante, Luís Silva.
Antes, foi o caos! Literalmente o caos! A tal ponto que chegou a estar em causa a existência desta emblemática instituição da cidade do Porto.
Sem comandante, sem Direção, com contas penhoradas e o desaparecimento de viaturas, assim como salários em atraso e com o quartel, a cair aos pedaços, encerrado aos fins de semana… com tudo isto e outras coisas mais – que saberá ao longo da entrevista que se segue -, os Bombeiros Voluntários do Porto estiveram mesmo para encerrarem as suas portas.
José Gonçalves Mariana Malheiro
(texto) (fotos)
Uma “vergonha!”, foi como muitos qualificaram a situação, que, hoje, faz parte do passado e do livro negro da instituição, onde se destaca, tristemente, um nome. Mas, individualizando a situação, o ‘Etc. e Tal’ prefere destacar a coragem – quanto mais não seja por ter aceite o desafio de, no passado mês de fevereiro, para assumir o comando dos BVP – de Luís Silva, que entrevistamos num quartel em renovação.
Luís Pedro da Costa Ferreira da Silva, 44 anos, natural de Sto. Ildefonso no Porto. Reside em Gondomar desde que nasceu e onde ingressou nos Bombeiros Voluntários em 1999.
Enquanto Bombeiro, integrou os quadros do INEM, em 2005. Trabalhou como Técnico de Emergência Pré-hospitalar durante 13 anos dos quais 11 deles na Ambulância de Suporte Imediato de Vida.
Em 2009, foi convidado para 2.° Comandante dos BV Porto onde esteve durante quatro anos, aceitando o mesmo cargo, em 2013, nos BV de Matosinhos-Leça. Foi aí que abdicou da atividade profissional no Instituto Nacional de Emergência Médica e passou a ser profissional nos Bombeiros Voluntários. Em plena pandemia teve uma passagem pelos BV Fajões em Aveiro como Comandante.
Esteve nos últimos dois anos como Oficial Bombeiro de 1.ª nos Bombeiros Voluntários de S. Mamede Infesta. Até que, em novembro de 2022, foi convidado, pela atual Direção da Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Porto, para o cargo de Comandante.
Como se costuma dizer…”um currículo e peras”, este o de Luís Silva.
Foi precisa muita coragem para regressar aos Bombeiros Voluntários do Porto?!
Digamos que sim. Quando eu cá chego, em dezembro, nessa altura já não havia comandante – tinha rescindido a sua comissão, e, depois, então, solicitou mesmo a saída do corpo de bombeiros -, quanto oficial bombeiro, assumi, então, o Comando a convite da Direção. Direção essa que fez-me esse convite a pedido do Corpo Ativo. Refiro-me ao Corpo Ativo que cá estava e que me reconhecia, pois já cá tinha sido segundo comandante, pedindo-me, então, para regressar à casa.
Isto, passado um tempo considerável de crise profunda, a qual abalou, e muito, a Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Porto – tendo em conta as informações que foram públicas -, e que quase levaram ao encerramento da instituição?!
Falava-se que isto ia fechar! Isto é uma casa mais que centenária, pois daqui a dois anos fará século e meio de existência, portanto, falar em ‘fechar’… não tinha lá muita razão de ser. Mas, a instituição passou, na realidade, por momentos muito difíceis, com contas penhoradas; pessoas com salários em atraso; e poucos colaboradores. Veja que a antiga Direção só tinha um colaborador, mais um bombeiro, e quatro civis, que eram da central de comunicações e da secretaria. Portanto, como bombeiro, só havia uma pessoa!
O quartel acabou por encerrar aos fins de semana…
…e à noite não havia piquetes de serviço Durante o dia só havia aqui um homem, e nada mais do que isso.
“O QUE É CERTO, É QUE NÃO HAVIA AQUI DINHEIRO, E QUE, PORTANTO, ALGUÉM FICOU COM ELE…”
Por que razão aconteceu uma crise desse tamanho? Tudo se passou na altura em que o presidente da instituição era Gustavo Barroco. Como foi possível uma coisa dessas?
Não gosto de falar dos outros nestas circunstâncias. O que vejo é o que encontro. Sabemos de muitas contas, que estão a aparecer agora; dinheiros que desapareceram; havia valores por saldar e, agora, fazemos pesquisas e o que encontramos são contas, que, afinal, já tinham sido pagas. O que é certo, é que não havia aqui o dinheiro e que, portanto, alguém ficou com ele! Nada mais posso afirmar além disso…
Mas, como é que uma instituição, como esta, chega a esse ponto?
O que se percebe é que um corpo de bombeiros manuseia muito dinheiro e, pronto, houve alguém, ou houve quem se aproveitasse disso. Sou bombeiro há 24 anos e já me passou muito dinheiro pelas mãos nos sítios onde estive, mas nunca tive essas ideias.
Mas, agora, está de regresso, e está a confrontar-se com uma difícil realidade…
…o que me entristece é que, há dez anos, quando cá estive, isto não estava assim. Eu encontro um corpo de bombeiros que não é aquilo que deixei há uma década! Durante esse espaço de tempo, aconteceu muita coisa. Isto está muito mal… muito mal!
“TEMOS OITO VEÍCULOS! OS OUTROS? FORAM ENTREGUES A CENTROS DE ABATE… OU FORAM DESPACHADOS, NÃO SEI PARA ONDE…”
O que é que os Bombeiros Voluntários do Porto têm de momento?
Temos oito veículos, os restantes foram vendidos. Havia mais na altura em que cá estive, portanto há dez anos. Entretanto, soube que foram entregues a centros de abate; foram despachados não sei para onde. Nós, presentemente, temos oito viaturas – dois veículos de combate a incêndios; um ‘pesado’; um veículo tanque; quatro ambulâncias de socorro, e um veículo para o transporte de cadáveres. Não temos veículo de Comando. Ele está apreendido! Estamos a tratar disso. E não temos veículos para transporte de doentes, pois foi tudo vendido, entregue ou… sei lá…
Mas, por certo, tem interesse em saber?!
Estamos a pesquisar! Precisamos de veículos para o transporte de doentes, pois estamos a ser, cada vez mais, requisitados, mas não tenho forma de dar resposta.
Quantos bombeiros efetivos tem, entre voluntários…
…Vou dizer-lhe ao contrário: quando eu cá cheguei tinha doze bombeiros! Repito: doze bombeiros! Neste momento, entre bombeiros e uma escola que estou a fazer, já com estagiários, os quais já inseri nos serviços operacionais dentro das suas possibilidades, após terem complementado o Curso de Tripulante de Ambulância de Transporte, e autorizando a sua saída em estágio, temos 44 bombeiros! Isto foi conseguido em três meses. Criei novamente uma escola de cadetes e infantes, com crianças e jovens dos sete aos 16 anos.
“TEMOS REGISTADO MUITAS TRANSFERÊNCIAS E INTERESSE DA JUVENTUDE”
E há interesse por parte da juventude?
Há muito interesse! O interesse está a ser muito significativo. As redes sociais também são muito importantes para a divulgação do trabalho que está a ser desenvolvido. E esse trabalho tem sido visto e é isso que tem atraído as pessoas a cá virem. Temos registado também muitas transferências de outros corpos de bombeiros, ou seja, de pessoas que querem vir para aqui, algumas delas por motivos profissionais. Repare, que esta é uma ‘casa’ que esteve mal, toda a gente soube dessa realidade, mas, mesmo assim, há quem nos peça para vir para cá trabalhar…
…por certo, porque é você quem gere os destinos da ‘casa’?!
Não puxando a brasa… a verdade, é que alguns querem para cá vir pelo facto de saberem quem está à frente dos destinos da instituição; outros, que estão a ver uma ascensão do corpo em tão pouco tempo, e consideram, assim, este um corpo de bombeiros interessente e com potencialidades para crescer. Agora, vamos ver o que se consegue fazer nos próximos tempos.
“O PROTOCOLO QUE TÍNHAMOS COM A CÂMARA MUNICIPAL DO PORTO SERÁ NOVAMENTE CELEBRADO”
Como é que se encontram as relações interinstitucionais, uma das quais com a Câmara Municipal do Porto, que cortou, a 18 de julho do ano passado, o habitual apoio aos BVP?
Tivemos uma reunião na semana passada, em que o senhor presidente da Câmara Municipal do Porto, anunciou-nos, diretamente, que será novamente celebrado o protocolo com os Bombeiros Voluntários do Porto.
É sempre um importante apoio?!
Sim. O protocolo a celebrar terá os valores anuais que são definidos pela Câmara Municipal do Porto.
E as relações com as outras corporações?
São boas. Temos uma relação muito próxima com o Regimento de Sapadores Bombeiros do Porto, e também com os colegas dos Bombeiros Voluntários Portuenses. As três corporações da cidade estão unidas. E, depois, também com corporações vizinhas, que é como quem diz com as de dois municípios, como Gondomar e Matosinhos, onde, em ambas, também estive. Portanto, toda a gente me conhece…
Esteve também em Fajões…
Aí foi uma passagem curta, mas uma interessante experiência, naquele que é o município de Oliveira de Azeméis, onde estive em 2020, na altura da Covid – antes, tinha estado nos Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça como segundo comandante. Fui convidado para comandante em Fajões, facto que se traduziu numa aposta pessoal por vários motivos, com especial destaque para a incidência florestal, e que, nem a propósito, com a nova fusão metropolitana do Porto, a Autoridade Nacional para a Proteção Civil englobará aquela zona. Isto, por um lado, é bom, pois conheço bem a área…
“OS NOSSOS HOMENS ESTÃO PREPARADOS PARA COMBATER INCÊNDIOS FLORESTAIS…”
É interessante o facto de, agora, as corporações citadinas estarem preparadas para o combate ao fogo em floresta…
Os bombeiros têm a formação toda! O bombeiro de uma corporação sediada numa cidade sabe combater fogos florestais, pode não ter tanta experiência, pois a nossa vertente é mais centrada nos incêndios urbanos e industriais, mas está preparado para tal. Temos dispositivo de combates a fogos florestais e, aqui, durante cerca de três meses, os nossos homens são preparados para que o combate a incêndios florestais. Nós mesmos já demos a conhecer que, este ano, estamos dispostos a colaborar com meios para essas eventualidades.
Para tudo isso serão precisas mais viaturas…
Estamos a ver… estamos a tratar do caso! Para ter uma noção, o nosso serviço de emergência médica tinha feito, quando cá entrei no dia 20 de dezembro de 2022., setenta emergências a pedido do Centro de Orientação de Doentes Urgentes-INEM… e terminámos o referido mês com 104. No mês seguinte foram duzentas e tal ocorrências. Em fevereiro, quatrocentas e tal, e, neste momento, estamos quase com quatrocentas outra vez…
“O ‘PESO’ DA REAL ASSOCIAÇÃO TER QUASE 150 ANOS É QUE EVITOU O ENCERRAMENTO, SE NÃO FOSSE ISSO…”
E a nível de associados?
Estamos a ver os que existem. Há muitos que estavam aí perdidos.
Mas, qual o número?
Não faço ideia. Neste momento ainda não lhe sei dizer. Está a ser tudo contabilizado…
Isto chegou mesmo a um ponto…
…mau!
“Mau” é um eufemismo!
Exatamente! Isto estava completamente perdido!
Nem o peso de uma Real Associação, que se prepara para comemorar 150 anos, foi considerado.
Daqui a dois anos faz 150 anos, e esse foi, na realidade, o peso para que fosse evitado o encerramento. Se não fosse isso, podia ter sido pior! Mas, pronto, conseguimos dar a volta…
“ESTE EDIFÍCIO, COM 148 ANOS, NUNCA TEVE OBRAS!”
Quais serão os próximos passos a dar?
A prioridade do comandante foi criar condições para os seus operacionais. Prioridades: uma remodelação das instalações. Temos danos estruturais no quartel devido à construção de um hotel, aqui mesmo ao lado, e que abalou com a parte das fundações.
O edifício é vosso?
É todo nosso.
Vá lá que não pagam aluguer, caso contrário, e neste sítio mais que central da cidade, estavam tramados!
Exatamente! O que vamos tentar é ver se alguém nos quer comprar os pisos superiores, que estão completamente danificados! Repare que este é um edifício com 148 anos e que nunca teve obras…
Nunca teve obras?!
Que eu saiba, nunca teve obras!
É caso para entrar para o ‘Guinness’!
Nem imagino como está o telhado! Mas, vamos lá ver: eventualmente com a ajuda do seguro do referido hotel, e do próprio dono já ter manifestado vontade em ajudar-nos nas obras a realizar na fachada e nas traseiras do edifício, e com mais algumas ajudas que iremos pedir para podermos alugar os pisos, vamos ver se se fazem as, mais que urgentes, intervenções no interior do imóvel. Portanto, a minha prioridade, como lhe estava a dizer, são as condições para os operacionais. Temos camaratas com cheiro a humidade, onde lá dormem bombeiras. Depois, além das instalações, há que fazer a manutenção dos veículos, que estavam completamente derreados. E derreados não em termos de quilómetros, mas porque não havia manutenção e os carros estavam avariados… estivemos a repará-los, até na sua caraterização: personalizámo-los de uma forma mais moderna!
E, depois, temos a aquisição de equipamentos de proteção individual para incêndios urbanos e industriais, num investimento que rondará os quatro/cinco mil euros, para poder dar segurança aos operacionais. Havia esse material, mas com mais de vinte e tal anos! E muitos tinham sido oferecidos pelos Sapadores, quando já não precisavam deles. Mas, atenção, agradecemos essa oferta, porque, caso contrário, não sei como era isto…
Entretanto, os uniformes foram já todos modernizados, todos usam a mesma caraterística de uniforme, personalizados, com uma forma de identificação e visualização diferentes. Portanto, estamos a fazer algumas melhorias operacionais: na central de comunicações; na gestão diária, e no investimento na formação. De momento, estamos a dar formação para empresas, tanto no que diz respeito ao combate a incêndios, como na área de primeiros socorros. São coisas que eu achava, da minha experiência anterior, que eram rentáveis, e que estamos, agora, a implementar aqui.
“TODO O ESPÓLIO ESTÁ A SER RESTAURADO E ESTÃO A SER ENCONTRADOS DOCUMENTOS CENTENÁRIOS”
O trabalho de recolha de arquivo histórico está, pelos, vistos a ser feito com toda a atenção…
Este trabalho está a ser desenvolvido pelo nosso ex-segundo comandante e comandante de substituição, ele sabe mais estórias sobre esta casa do que eu, porque da última vez que cá estive fiquei quatro anos, ele está cá há muitos mais. Toda a documentação está a ser organizada; todo este espólio está a ser restaurado… estão a ser encontrados documentos centenários.
O edifício tem, portanto, quatro andares.
Sim. Estamos no primeiro andar, depois remos o segundo onde está, de momento, a sala da Direção e de Formação, depois o terceiro e o quarto pisos estão livres. As camaratas que se encontram no piso zero, quero passa-las cá para cima e, assim, lá em baixo, aumentar o parque para veículos. Os nossos bombeiros são conhecidos por parar as ambulâncias à porta, mas eu não gosto disso, e isso acabou!
“AO FAZER A GESTÃO DIÁRIA DESTA CASA, SEI ONDE SE PODE E NÃO SE PODE INVESTIR! AQUI, NÃO HÁ INVESTIMENTOS LOUCOS!”
O investimento para todas essas obras será significativo…
Não tínhamos, nem temos verbas. É como disse aqui à nossa gente: vocês é que me convidaram para vir para cá, e, agora, preciso de todos vós para pôr isto direito. Vamos todos trabalhar para começar a entrar dinheiro e, desse modo, podermos ter condições dignas. Quanto à manutenção de veículos, está tudo bem entregue, pois temos um profissional do setor, meu amigo, e que nomeei segundo-comandante, poupando, dessa maneira, dinheiro que seria gasto em oficinas. Nestes meses já se gastaram alguns milhares, mas alguns milhares também cá entraram! Estamos a falar de contas da associação que estavam penhoradas há uns meses…
….havia uma dívida de 140 mil euros.
Sim, mas isso já está resolvido! Há alguns pagamentos que ainda tem de ser efetuados, mas, lá está, o dinheiro entra mas também tem de ir para pagamentos que os outros nos deixaram. De salientar, que o nosso corpo de bombeiros tinha um funcionário antes da entrada desta Direção… era um bombeiro que fazia uns transportes de água… eles queriam rentabilizar isso, não sei o por quê, só que os pagamentos nunca cá deram entrada… portanto, já está a perceber a ideia. Em setembro do ano passado, isto ficou com cinco funcionários, e, agora, estamos com vinte. Vinte colaboradores para uma casa destas é um investimento significativo. Já são precisos 16 mil euros mensais para, praticamente, pagar ordenados. Há pessoas que podem achar impossível o facto de estarmos a pagar e a fazer investimentos. Para essa gente estamos a fazer ‘investimentos loucos’. Mas, não estamos a fazer investimentos ‘loucos’, isto é tudo muito bem pensado.
Eu sei o dinheiro que temos. Eu complemento a função de diretor-geral da associação quanto responsável pela gestão dos funcionários e da gestão diária, até porque os outros diretores têm as suas vidas, e ao fazer essa gestão, sei onde se pode e não se pode investir…
Temos aí outros projetos, nomeadamente, eventos importantes na cidade, nos quais vamos ter uma grande responsabilidade. Não quero anunciar já, mas na altura saberá… Vamos assegurar dois grandes eventos na cidade do Porto, só aí, virá mais uma importante ajuda financeira para os Bombeiros Voluntários do Porto. Para o efeito iremos necessitar de todos estes homens – os tais quarenta – a colaborar, e que, por certo, não vão chegar, pelo que estamos de portas abertas para quem quiser vir connosco colaborar e nos dar uma preciosa ajuda.
“A CIDADE DO PORTO TEM UMA CULTURA DE PROTEÇÃO MUITO BOA”
E tem havido adesão aos BVP tanto por parte de homens como de mulheres?!
Sim. Exatamente igual. Há, realmente, corpos de bombeiros que continuam com a questão de não deixarem entrar mulheres, mas, aqui, não… não há discriminação. Aliás, na recruta que está a decorrer, há mais mulheres que homens! E as mulheres são as que têm as piores condições nas camaratas e eu não descanso sem resolver essa situação…
A cidade está em constante transformação. Acha que ela está preparada para dar resposta a eventuais problemas, como, por exemplo, o episódio da tormenta ocorrido em janeiro último?
Nessa tormenta já lá estivemos presentes. Atuámos de imediato! Foi uma resposta interessante. Os três corpos de bombeiros do Porto estiveram unidos e deram resposta cabal ao sucedido, pelo que não foi preciso virem meios externos.
A cidade está, então, preparada para essas eventualidades?
Sim. A cidade do Porto tem uma cultura de proteção muito boa! Há melhorias a fazer, mas que estão no bom caminho, até com algumas sugestões nossas ao Regimento e à Proteção Civil, isto pela experiência que tive em outros municípios. Portanto as coisas estão a correr muito bem.
Isto, independentemente, de muitos prédios no centro da cidade se encontrarem devolutos…
A cidade do Porto é conhecida pela Zona Histórica e, depois, pela zona mais moderna. A Zona Histórica é a que nos calha… há riscos, mas nós temos de estar adaptados para isso. Continua a haver dificuldades de acessos para os veículos…
…e depois temos as ‘ilhas’.
Isso, aí, se houver um incêndio numa habitação, aquilo tomará proporções complicadas. Depois, é muito difícil os meios lá chegarem. Tem mesmo de haver uma cultura de prevenção da parte do cidadão, porque se algo corre mal na casa dele, não são os bombeiros que o vão safar.
Mas, há essa noção de perigo?!
Há! Nós sabemos os pontos críticos. Toda a gente, ao nível dos corpos de bombeiros, tem a noção das zonas problemáticas e, assim, estamos preparados para dar as devidas respostas. Por exemplo, e destaco esta preocupação, também é preciso garantir que os hidrantes estejam a funcionar, pois, os carros de combate a incêndio têm poucos litros de água, e não temos assim tantos veículos tanque como isso.
Quer acrescentar mais alguma coisa a esta nossa conversa?
Só realçar o facto de que estamos em ascensão. Esperamos que mais elementos queiram vir para cá, o corpo de bombeiros, em breve, mostrará mais quanto à sua evolução, e, pronto, vamos lutando dia a dia, para que a instituição não morra, como esteve a morrer!
A REAL ASSOCIAÇÃO HUMANITÁRIA DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DO PORTO
Segundo rezam as crónicas, consta que o naufrágio do vapor ‘Porto’ em 1852 à entrada da barra do Rio Douro, no qual perderam a vida cerca de 61 pessoas, foi um dos motivos que levaram à criação da ‘Real Sociedade Humanitária’, depois aprovada por alvará de 6 de fevereiro de 1854.
Consta ainda que os Bombeiros Voluntários do Porto eram senhores de uma medalha de ouro de uma coletividade com aquele nome. Entretanto, nesta época, esta corporação ainda não existia, nascendo 23 anos depois da tragédia do vapor ‘Porto’.
A ideia de criar na cidade do Porto uma corporação de bombeiros voluntários foi concebida por Alexandre Theodoro Glama, em 1870, sendo acompanhado no seu empenho pelo amigo e mais tarde cunhado Abílio Augusto Monteiro, notário da Maia, e, posteriormente, Inspetor Superior do Selo, por alturas de 1900..
Mais tarde, em 1872, mais dois entusiastas se juntam a Alexandre Glama e Abílio Monteiro: Hugo E. Kopke e Walter C. Kendall. Estes fundadores dos Bombeiros Voluntários do Porto reuniam em suas casas, sitas na Rua de Cedofeita, 595 e nº 55 da Rua da Igreja (casa de Abilio Monteiro) e no nº 199 da Rua da Rainha (atual Rua Antero de Quental) – Porto.
Entretanto foram colocadas listas para inscrição dos cavalheiros que pretendessem aderir a esta causa em diversos estabelecimentos comerciais da cidade do Porto:
“Corpo de Bombeiros Voluntários.
Tendo nós abaixo assinados resolvido empregar todos os esforços para que se organize nesta cidade um corpo de bombeiros à semelhança dos da Alemanha, declaramos aos cavalheiros que se dignarem inscrever que, logo que haja número suficiente de voluntários, serão convocados para uma reunião, em que se hão-de discutir os estatutos já em elaboração, para depois serem enviados aos poderes públicos, pedindo-lhes a sua aprovação e a competente licença para a definitiva organização do corpo.
Porto, 10 de Dezembro de 1872.
Alexandre Theodoro Glama – Abilio Augusto Monteiro – Hugo E, Kopke – Walter C. Kendall.”


Numa das listas, patente na tabacaria do Sr. Francisco Lopes Guimarães, conhecido pelo ‘Lopes da Carteira’, sita na Praça D. Pedro (atual Praça da Liberdade), onde estava instalada a livraria Moreira, inscreveu-se como voluntário, aí por alturas de Janeiro de 1873, o Sr. Guilherme Gomes Fernandes.
Tempos depois, em virtude das dificuldades surgidas e da ausência de alguns iniciadores, dificultava-se o prosseguimento da organização dos bombeiros.
Hugo E. Kopke e Walter C. Kendall, um por doença e outro por fortes motivos, eram forçados a afastarem-se. Por sua vez, Abílio Monteiro não podia acompanhar os trabalhos da constituição dos bombeiros em virtude de passar a ocupar o cargo de notário da Maia.
Num almoço de despedida de Abílio Monteiro tinha ficado assente a entrada de Guilherme Gomes Fernandes para a comissão fundadora da Associação Humanitária Bombeiros Voluntários do Porto, tendo sido nomeado Comandante dos mesmos em 11 de julho de 1877.
Aos esforços de Alexandre Theodoro Glama e de Guilherme Gomes Fernandes, bem como de Domingos Ferreira Dias Guimarães e Roger Coverley e de outros ilustres desconhecidos, devem os Voluntários do Porto a sua existência.
Apesar de todas as contrariedades e obstáculos, a Associação Humanitária foi criada e o Corpo de Bombeiros foi definitivamente instalado no Pátio do Paraíso(palacete que compreenderia o espaço imobiliário ocupado atualmente desde o Teatro Rivoli, Caixa Geral de Depósitos, Café Garça Real e Associação de Jornalistas), na Rua do Bonjardim, a 25 de agosto de 1875, com a denominação de Associação Humanitária Bombeiros Voluntários do Porto. A 26 de agosto de 1875 constituía-se, oficialmente, a Associação, em sessão realizada no teatro ‘Príncipe Real’.
Organizado o serviço de socorro este seria posto em prática em 8 (ou 26) de novembro de 1875, quando houve um alarme de fogo para a Rua do Triunfo, em casa do médico Dr. Macedo Pinto – por sinal uma das pessoas que não acreditava nos bombeiros voluntários.
Em 18 de setembro de 1875 foram aprovados os respetivos estatutos.
Texto: Wikipédia
01abr23



























Sou um portuense que resido há muitos anos, por razôes familiares, na cidade de Valls, província de Tarragona, Catalunha (Espanha). Recordo perfeitamente, sempre que passava por diante dos Bombeiros Voluntários, nâo deixava de olhar com prazer e admiraçâo para as viaturas estacionadas, impecavelmente pintadas de vermelho, com os cromados e bronzeados reluzentes. Sempre tive muita admiraçâo e respeito pelos Bombeiros Voluntários.
Agora, espero que com esta nova Direcçâo e Comandante, volte a ser a instituiçâo que a cidade merece e precisa para que possa celebrar o seu 150º Aniversário de maneira digna e júbilo de todos os portuenses.
Boa entrevista. Bons objetivos, oxalá haja ajuda para eles. Felicidades para toda a equipa.
Boa descrição da história dessa Associação.
Haja apoio e será um êxito
Força e Coragem para Todos os Membros dos B. V. PORTO!
OBRIGADO PELA PARTILHA ABRAÇO FORTE AMIGO JOSÉ GONÇALVES