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Comunhão de Bens do Ministério

Miguel Correia

 

Ocasionalmente, levo a cabo uma verdadeira revolução no porta-luvas da minha viatura. E, de uma assentada só, vão várias caixas de CD recambiados para a gaveta da sala, em vez de estarem sossegadinhos e a passear de graça. O resultado de tanta organização traduz-se numa oportunidade para escutar as rádios nacionais. Confesso que ainda estou indeciso sobre o resultado de tamanha experiência.

Por motivos aos quais sou alheio, não consigo compreender porque insistem em passar as mesmas músicas várias vezes ao dia e, algumas emissoras, teimam em cortar a parte dos solos de guitarra – como se cantar fosse a parte difícil da música e tocar acordes na guitarra fosse algo adquirido. Mas, durante uma de muitas ações de zapping radiofónico, deparei-me com uma música que ecoou na minha mente (e ainda lá está).

Sei que as bandas-sonoras estão reservadas à indústria cinematográfica e não à literatura mas, num exercício de imaginação, permitam que acompanhe o que resta desta amálgama de caracteres com a ‘Comunhão de Bens’, da cantora Ágata. Apesar de escrita há alguns anos para um contexto específico, tenho a certeza que a letra da canção se adapta na perfeição à novela low-cost que tem passado nos serviços noticiosos…

O assessor do ministro mais criticado do momento foi exonerado – sim, porque para ser despedido é para o cidadão comum. Horas a fio, numa comissão de inquérito, e mesmo assim ninguém sabe qual o motivo que lhe alterou o estatuto de bestial para besta. Segundo o seu testemunho foi sequestrado, cercado e agredido por quatro funcionárias do ministério que queriam, desesperadamente, recuperar o computador que tinha. Não pela qualidade do aparelho – é do conhecimento geral que o Estado, à exceção das viaturas, não preza por equipamentos topo de gama – mas pela informação que estava armazenada.

Aparentemente, neste ministério desconhecem ligações de ficheiros em rede ou até proteção por palavras-chave. A segurança (talvez para confundir os hackers) é andar sempre com o computador debaixo do braço! Os pormenores deste enredo amador é sobejamente conhecida e muita gente já se pronunciou sobre quase tudo. Não quero, nem vou, aborrecer os leitores com pormenores lamentáveis. Apenas uma consideração pessoal. Tendo em conta os atributos físicos do assessor – que dificilmente será convidado para capa de revista – ser rodeado e atacado por quatro senhoras do sexo feminino que, segundo li algures, não olharam a meios para colocar as mãos, era de esperar pelo menos uma duas horas antes de chamar as autoridades. Eu fazia isso.

 

Imagem: pesquisa web

 

01jun23

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