Enquanto, hoje (24jul23) à tarde, frente à Câmara do Porto, ou mais concretamente na Praça do General Humberto Delgado, centenas de músicos, lojistas e demais artistas do ‘Stop’ se manifestavam pela reabertura imediata do Centro, precisamente na Câmara, o Executivo votava, por unanimidade, a manutenção do espaço como ‘polo cultural’ e, puco mais tarde, a administração do condomínio concordava com as condições da autarquia para que as portas do ‘Stop’ fossem reabertas.
Foi uma catadupa de acontecimentos que, poderão ter alimentado o fim de uma ‘novela’ da qual, ao que tudo indica, a Cultura na Cidade sairá, por certo, vencedora.
José Gonçalves Francisco Teixeira
(texto) (fotos)
Independentemente do facto de ainda não se saber, em concreto, as posições das associações que fazem parte ativa da ‘comunidade Stop’, a verdade é que a demonstração de força de músicos, lojistas e outros artistas, de hoje(24jul23), com uma concentração frente à Câmara Municipal e depois com uma marcha do ‘coração’ da cidade ao centro comercial/cultural, à Rua do Heroísmo, não deixou de ser uma realidade, perante uma realidade que caminha, a passos largos, para uma solução final.
Em comunicado enviado, por correio eletrónico, à comunicação social, ao princípio da tarde de hoje- através da ‘Comunidade Stop’-, “o movimento cívico de lojistas, músicos e artistas que compõem e integram o Centro Cultural Stop”, salientavam que se ia organizar, como se organizou ainda que a horas mais tardias que as que estavam previstas, “uma manifestação pela reabertura imediata, continuidade e valorização do património cultural que é o Stop”.
“A manifestação levará aos Aliados a importância e relevância que esta comunidade adquiriu legitimamente ao longo de anos, por meio de um trabalho criativo de elevada importância na paisagem cultural da cidade e do país”.
“Esta iniciativa parte duma comunidade de centenas de pessoas que viram as suas lojas serem abruptamente encerradas pela Polícia Municipal, no dia 18 de julho”, lia-se ainda no comunicado.
Com as ações, hoje, concretizadas pela ‘comunidade Stop’ pode chegar-se, facilmente, à conclusão que, em termos imediatos, a reunião entre o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, e os representantes da ‘Alma Stop’ e da ‘Associação Cultural dos Músicos do Stop’- ACMS, realizada no final da tarde da passada sexta-feira (21 de julho), que culminou num aparente entendimento quanto às condições apresentadas pelo autarca para a reabertura do centro comercial (“cultural”) e, assim, das 150 lojas/estúdios encerrada(o)s pela Polícia Municipal, na manhã do passado dia 18 de julho, de nada ou pouco terá servido para a resolução dos problemas.
CONTRAPROPOSTA REFLETIDA
A verdade, contudo, é que da reunião com Rui Moreira saíram propostas que, ainda estão a ser analisadas pelas associações do ‘Stop’, uma vez que, e ainda de acordo com o referido comunicado, “o movimento encontra-se, em paralelo e com abertura, a discutir a proposta feita pela Câmara Municipal do Porto. De forma célere e no interesse de todos, fará uma contraproposta refletida, integrada e que assegure a continuidade e preservação deste espaço durante décadas, afirmando-se como polo cultural inequívoco”.

A preservação do espaço parece estar garantida, pelo voto, nesse sentido, e de unanimidade, pelo Executivo camarário. Já quanto ao aceitar das propostas sugeridas pela Câmara do Porto por parte da administração do condomínio do ‘Stop’, as coisas poderão não ser assim tão consensuais quanto isso, até porque há pontos que os músicos não aceitam, uma vez que, em seu entender ”se revelam contenciosos”, ou seja: “as alterações consideráveis que trariam ao funcionamento do espaço, a curto e longo prazos. O horário de abertura e encerramento, ou a proibição de qualquer tipo de ruído nas lojas da fachada do edifício, independentemente de horário, são dois desses exemplos”, como se lê no e-mail enviado à comunicação social.
Por isso, as ações de luta hoje realizadas, serviram, sobretudo para “demonstrar não só a dimensão e diversidade da comunidade existente no Centro Comercial Stop (por conseguinte, o número de vidas e empregos que a situação espoletada afeta), mas também a importância deste polo cultural”.
Resumindo e concluindo, os músicos, lojistas e demais artistas do Stop dizem querer “garantir que tanto as entidades governamentais como a opinião pública compreendam não só o impacto da atual situação nas vidas individuais de cada um dos utilizadores do Stop, como o inegável e irremediável impacto do mesmo na cultura local, nacional e internacional”, referiu a ‘Comunidade Stop’, em comunicado enviado por correio eletrónico, este, no passado sábado (22jul23).
UNANIMIDADE DO EXECUTIVO DA CÂMARA DO PORTO NA MANUTENÇÃO DO ‘STOP’ COMO POLO CULTURAL

As questões relativas ao Centro Comercial Stop e aos músicos que ali trabalham foi tema de debate durante a reunião privada do Executivo Municipal, esta segunda-feira (24jul23). Todos os partidos reiteraram a importância do ‘Stop’, no contexto cultural e musical, que vai muito para além da cidade, e declararam-se favoráveis à atuação do Município na procura de uma solução de modo a garantir o seu funcionamento como polo cultural.
No final da reunião, o presidente da Câmara chamou a atenção para o artigo que Manuel Cruz, ex-Ornato Violeta (ver notícia na secção ‘A Abrir’ do Etc. e Tal) e que esteve à frente da associação de músicos do ‘Stop’, escreveu sobre o assunto nas redes sociais.
“Considero um testemunho muito importante porque foi a pessoa com quem reunimos, durante muitos anos. Vale mesmo a pena ser lido”, afirmou Rui Moreira, recordando, inclusive, que Manuel Cruz “não tem nenhuma ligação política connosco”.
“[Manuel Cruz] Referenciou aquilo que eu tenho vindo a dizer, ou seja, que a Câmara nunca esteve alheia ao problema. Acho que vale a pena ser lido e meditado. Espero que os músicos também meditem sobre o assunto”, acrescentou.
O autarca reafirmou, mais uma vez, a intenção da Câmara em utilizar a Escola Pires de Lima, pertença do município e atualmente desocupada, como parte da solução para os músicos do ‘Stop’. Segundo Rui Moreira, ali vai ser colocada a Associação Norte Vida, aproveitado o ginásio para a Biblioteca Municipal, a fim de disponibilizar os periódicos, “e um espaço sobrante, de coworking para músicos, que será gerido pela Associação Amigos do Coliseu”.
Quanto à possibilidade de posse administrativa do edifício, o presidente da Câmara lembrou que tal só pode vir a acontecer “quando se extinguir o atual processo de licenciamento em curso”. Para além disso, sublinhou, “precisamos de uma declaração do Ministério da Cultura para invocar a utilidade pública, a fim de podermos intervir no edifício“.
A este propósito, o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, já veio afirmar que o seu ministério não pretende classificar o Centro Comercial Stop. “Considera, e eu tendo a concordar com ele, que, independentemente do seu uso, o edifício não pode ser classificado como é Mosteiro dos Jerónimos”, disse Rui Moreira, adiantando que “a declaração de utilidade pública, para fins culturais, já nos serve”.
PARTIDOS PRONUNCIAM-SE

Durante a discussão de uma recomendação sobre ao assunto, apresentada antes da ordem do dia pelo Bloco de Esquerda e que foi votada ponto por ponto (só o primeiro, relativo à manutenção do Stop como “um polo cultural” mereceu unanimidade de todas as forças políticas), os vereadores da oposição manifestaram as suas posições.
No final da reunião, Maria João Castro, do PS, garantiu que todos os partidos estão de acordo: “os artistas que habitam aquele espaço, há mais de 20 anos, são um património da cidade. Cidade que se quer cosmopolita tem de defender aqueles artistas e músicos”. Ao mesmo tempo, disse, “temos de perceber que há um contexto, condições que são preocupantes. Há muito tempo que sabemos que o Stop não tem condições de segurança”.
Por isso, e quanto ao futuro, “o poder local tem de ter uma capacidade de diálogo com os artistas, ser extremamente dinâmico para encontrar uma solução”. “Vamos tentar todos que o espaço possa ser reabilitado” e, ao mesmo tempo, “pensar em outras soluções que se possam articular e ter, de facto, no Porto um importante centro europeu de gravação para os artistas”, concluiu Maria João Castro.
Por seu turno, Alberto Machado, do PSD, sublinhou que todo o processo do Stop tem “um conjunto de problemas associados ao espaço, que precisam de ser resolvidos. A Câmara não tinha outro remédio senão encerrá-lo, sob pena de vir a acontecer alguma coisa mais grave”.
O vereador social-democrata garantiu, por outro lado, que, “por parte dos proprietários, é preciso que haja um maior interesse na resolução deste problema” e que, relativamente aos músicos, “é necessário acautelar o seu futuro e o ecossistema ali existente” e que “eles queiram ter uma solução”.
Já Sérgio Aires, do BE, mostrou-se desagradado com a votação, ponto por ponto, da recomendação apresentada pelo seu partido (com cinco pontos), vendo rejeitada, por exemplo, a ideia de constituição de uma comissão de acompanhamento. Sobre a solução que está a ser negociada, o vereador afirmou que “não nos cabe a nós tomar uma opinião. Para nós, o Stop deve continuar a existir”.
Também Vítor Vieira, da CDU, destacou que, “finalmente, começa a abrir-se uma janela de diálogo”. “Se é para se manter no mesmo espaço ou não é aos músicos que cabe dizer”, acrescentou.
Texto: Porto. / Etc. e Tal
Fotos: Filipa Brito
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