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Rua de pecados e pedaços

Ivo Ribeiro / Tribuna Livre

Na vida temos cores, mil cores que nos falam ao coração através dos olhos, são por isso as ruas em que seguimos, os pequenos pecados em pedaços, de mim…de ti…de todos enfim!

 

Pedaços de tela e de mim

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Descobri uma tela

Numa esquina de uma viela

Ao cruzar uma rua do meu pensamento

 

Fui dar com tintas e pincéis abalroados ao relógio

De neles ao tempo ido não mais ter voltado a pegar

 

Fui com o estudo do tempo que não tinha

E de água senti pincel e rosas quebrando a minha alma

Rezei em sino que naquele momento apenas eu fizesse existência de não ter existido

 

Esperei imaginação num gesto de deleito comigo próprio

Esbati tina e impressão digital

Na tela cheia de branco e de nada

E por isso, tanto me custou repintá-la

 

Foi a beldade que descobri

E a escrita que concebi

Com a saudade de nunca mais ter voltado a pegar na tinta

Que horas depois me escorria com água corrente caindo e recaindo na minha mão

Que por isso afagava meus cabelos,

E beijava meus pés

 

Enfim fechei a água, da amargura que despoletei

Torneira enclausurada de cruzes sentenciadas

Água corrente, mas não livre

E conta matemática e artística

 

Usei, predispus e desposei,

Pincel e tinta em tela virgem

 

Perpetuei depois pincelada e dedada num amontoado de cores vivas, que juntas à tela deram tom soturno

E fica tela, escorrendo gotas que lhe salpiquei

Como num baptismo,

Mas não benzi

Apenas mal disse

Do tempo que passou

E que agora, apenas relembro…

 

Que verdade?

ivo-ribeiro-02-nov16

Que verdade procuramos para viver nos nossos dias?

Que cores usamos para salpicar a tela da vida?

Da nossa, vida…

 

Porque é que nos tornamos loucos por algo que não defendemos

E porque é que nos resignamos face a tão precárias magnificências

 

Quem somos e o que fazemos?

O eu fazemos de nós??

E o que farão as gerações vindouras?…

 

Natal do que sou

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Quero um Natal longe de sonhos

Quero um Natal sem hipocrisias

Quero no meu Natal, a realização das minhas consagrações

 

No meu Natal, não quero globos espelhados refletindo almas vazias

Nem luzes brilhando cruzando polos na imaginação

 

Não quero utopias de Sãos Nicolau vertiginando compras ou lojas

Nem carros fitados e dinheiros comprados

 

Não quero ruas cheias de gente de nenhum

Não quero lojas promovendo ou descontando o paraíso e o inferno

 

Carteiras cheias e pinheiros ocos carregados por luxúrias e mentiras

 

Não quero no meu natal, cartões postais e textos escritos

Depressões filosóficas ou arrependimentos satíricos

 

No meu natal não quero almas inconstantes de presentes descontáveis

Nem animosidades relativas ou energúmenos ficcionais

 

Não quero ver a caridadezinha orientando um povo

Enrolando em mortalhas estimuladas durante todo um ano

 

Não quero hospitais cheios de lágrimas, cemitérios mentais, barrigas saciadas de nada, ou dinheiro fugido por uma assobiadela do destino, nem farrapos cobrindo o que teima congelar

 

Neste meu Natal

Quero puramente ver um vela iluminando todo o mundo

Quero sentir calor de lareiras ou aquecedores desligados, apenas aconchegado nos corações a quem sou e me é caro

Quero só cobrir-me numa manta de meus avós, sorrir com minha mãe e brincar com a minha imaginação

Quero unicamente algo que me alimente o espírito,

Que me sacie a organicidade corporal

E ser eu, o prazer de mim mesmo

Quero neste Natal, ser a alegria do que não escrevi

Quero ser pauta indefinida e música por tocar

 

Ser sino de igreja tocado em silêncio

Ser simples e belo vivendo o presente sem nada mais

Quero um sorriso nos lábios de cada um

E lágrimas caindo não por solidão, mas antes, por comunhão

 

Quero ser brinquedo da criança que outrora fui, e ser maturidade no homem que serei

Quero ser filho, e ser avô,

Natal é isso, é contar o presente por cada envelhecimento

Nascer estando mortos

Evocar memórias

(Re)Descobrirmos-mos

 

Eu quero só isso…mas nem tão pouco disso sonho ter

Escrever é nada

Viver é tudo…

Fotos: Ivo Ribeiro

01dez16

 

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