Menu Fechar

A pandemia, nos labirintos do impensável

António Pedro Dores

 

Com o discurso único da pandemia Covid 19 a substituir o discurso único das finanças, os três grandes problemas que eram preocupações da humanidade, em 2019, foram secundarizados. Qual é o valor do conhecimento científico? Como evitar a hostilidade do meio ambiente? Como resolver a falência do sistema financeiro global?

A guerra foi declarada fora do âmbito da discussão democrática, quando se inaugurou o século com a mentira das armas de destruição maciça para inaugurar a nova corrida aos armamentos. À distância de duas décadas é fácil observar o resultado: a) a nova guerra fria entre as potências emergentes, cujas lideranças coincidem com os antigos países comunistas, e a superpotência sobrante da primeira guerra fria; b) a divisão política norte-americana e ocidental sobre como assumir os custos do império: do lado social, há os que dizem “que paguem outros”, como os mexicanos pagariam o muro ou os imigrantes e os descendentes destes pagariam com as suas vidas, no mundo das drogas e das prisões; do lado militar, dizem que há que “fazer crescer a economia com as indústrias de guerra”, como a guerra fria ou a guerra contra os vírus, associadas às indústrias de manipulação de dados.

O desenvolvimento das guerras militares, de informação e contra-informação, sanitárias, geoestratégicas e químicas, contrasta com o subdesenvolvimento da circulação de pessoas – abruptamente parada – e com a erradicação da fome, objectivo tomado e falhado pelas grandes potências. Os financiamentos às frágeis campanhas contra a fome e de apoio a refugiados são emagrecidos e aumentados os orçamentos de segurança que alegadamente servem para nos defender dos inimigos feitos pelos nossos mentirosos dirigentes, nas duas últimas décadas. A irracionalidade desta racionalidade abre o espaço para as teorias da conspiração: se fazem a guerra e deixam morrer de fome é porque querem extinguir a própria espécie humana, com excepção das suas elites (Harari, 2018). Então, continuam as teorias da conspiração, a vacinação deixou de ser entendida como um modo de protecção sanitária e passou a ser temida como um modo de controlo das populações, secretamente, como se de uma guerra se tratasse, utilizando as tecnologias de avaliação de comportamentos (como o crédito social chinês) e de leitura de pensamentos (Spice, n.d.), ao mesmo tempo que se oferecem mais lucros às companhias farmacêuticas.

A modernidade convenceu os modernos de que podem escapar da lei da morte, podem encontrar a salvação, primeiro através do génio militar e comercial, como antecipou Camões, depois através da indústria, como sugeriu Max Weber ser a vantagem dos protestantes, finalmente através da democratização da vigilância, da disciplina, do encarceramento como métodos de ensino, de que falou Foucault. Evidentemente, tudo não passa de uma tessitura de intrujices que, como todas as intrujices, conta com a colaboração das vítimas. Camões morreu na miséria, Max Weber é dos sociólogos mais recomendados, como se a sua tese não fosse xenófoba, Foucault renegou a ciência por estar comprada pelos poderes do dia. À medida que o positivismo modernizador se torna confrangedor, emergiram os fundamentalismos e os terrorismos, apelos à revolta irracional em nome da irracionalidade original, como se a realidade devesse conformar-se aos escritos e ao direito sagrado, em vez de ser o inverso: a ciência e as normas, morais e jurídicas, serem tanto melhores quando provem afeiçoar-se à realidade e a melhores experiências de vida.

Os modernos imaginam que as elites vivem bem, só porque imaginam que são elas quem faz o que quer do mundo. A luta de classes reclama para cada grupo social os privilégios de crescer em rendimentos, presumindo que só não há crescimento económico quando se adoptam comportamentos irracionais. Por isso, a rainha de Inglaterra lançou aos melhores economistas do seu país a pergunta, no mesmo estilo em que os seus antepassados perguntavam aos respectivos magos da corte: “Como foi possível não terem previsto a falência do sistema financeiro global, em 2008?” Nessa altura um jovem empresário da restauração perguntava: “daqui a dois anos, tudo voltará ao normal. Não é?” De então para cá faliram metade das empresas de restauração, antes da crise pandémica. As gerações chegadas ao mercado de trabalho depois de 2008, entendem a crise financeira desse ano como um acontecimento tão longínquo e insignificante como a Restauração, o 5 de Outubro ou o 25 de Abril.

Dos três maiores problemas políticos de 2019, o valor da ciência, a ecologia e as finanças, apenas a ecologia mantém alguma visibilidade, com as propostas de capitalismo verde e de reboot (como se fosse possível retomar a versão da Terra antes da revolução industrial). As finanças estão fechadas para balanço. Fala-se da possibilidade de acabar com as dívidas e substituí-las por dinheiro electrónico e controlo da vida económica de cada um, usando o modelo do crédito social chinês. Nem os partidos nem a comunicação social entram neste debate. Ele é alheio à democracia, como a guerra. A bazuca tornou-se, na Europa, a expressão financeira mais usada. A ciência é alvo de controvérsia partidária na era da irracionalidade: há os que acreditam (alinhados com o fazer crescer a economia de guerra) e os que não acreditam (alinhados com fazer crescer a economia nacional). Quem acredita na ciência, aceita o confinamento como um sacrifício para acabar com o sacrifício do confinamento. Quem não acredita, prefere sacrificar-se à pandemia do que aceitar a liderança dos que dizem confiar na ciência.

Os estados mais poderosos do mundo assumiram a sua incapacidade de acabar com a miséria extrema, do mesmo modo que Marcelo fez o mesmo com os sem abrigo: todos incrédulos, mas despreocupados com a impotência da modernidade para garantir cuidados básicos às populações. As populações, ameaçadas pela pandemia e pela impotência dos estados, seguem a ciência tautológica anunciada pelos epidemiologistas de serviço: na certeza de não se saber como funciona o contágio, sacrifiquemos a vida de quem vive de rendimentos precários para que possamos, um dia, voltar a viver como vivíamos antes da pandemia, isto é, em guerra, com fome, com as finanças falidas, com o meio ambiente a queixar-se das nossas malfeitorias e a ciência sem nada para nos dizer.

Referências:

Harari, Y. N. (2018). Homo Deus; História Breve do Amanhã. 20/20 Editora, Elsinore.

Spice, B. (n.d.). Mind Readers. The Link, the Magazine of Carnegie Mellon University’s School of Computer Science. https://www.cs.cmu.edu/link/mind-readers.

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Web

 

01jan21

 

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.